por Anita Pompeu

Mais do que padre, teólogo, pedagogo e ativista pelos direitos humanos, Julio Lancellotti é fundador da Casa Vida, para crianças soropositivas

Existe um alívio no ar. Depois de passar por uma pneumonia que levou à internação hospitalar e ao afastamento de suas atividades, o padre paulistano Júlio Lancellotti, 69 anos, vigário para o povo da rua, está de volta à batina. São 7 da manhã de uma segunda-feira e faz 15 graus no bairro da Mooca, em São Paulo.

Na paróquia São Miguel Arcanjo, em que Júlio reza a missa há 33 anos, antigas moradoras do bairro, conhecidas de longa data e assíduas há mais três décadas na igreja dividem os bancos e o coro com tipos mais heterogêneos: uma moça jovem e arrumada que reza com um terço grande na mão antes de ir trabalhar, um morador de rua negro de barba branca, máscara cirúrgica, um rapaz novo com roupa de monge.

Aos poucos, mais pessoas vão chegando, dentro e fora da igreja. Principalmente, fora. São quase 7h30, e a missa está prestes a acabar. O público vai mudando. Está cada vez mais homogêneo. Moradores de rua, quase todos homens, começam a chegar. Em grupos, individualmente, alguns com cães, vergonhas, vícios evidentes e histórias diferentes. “Está melhor, padre? Que bom que o senhor voltou!” é a frase que mais se escuta naquela manhã. Alguns choram, emocionados, ao falar com o pároco, agora recuperado. Todos conhecem Júlio. Eles estão ali em busca de roupas, principalmente agasalhos, sapatos, cuecas, alimentos, cobertores e o que mais puderem ter. “Aqui, a gente tem que fazer o milagre da multiplicação”, diz o religioso enquanto distribui as doações.

Tropa de choque

Nascido no bairro paulistano de Belém, onde vive até hoje com três sobrinhos, Júlio conta que desde criança queria ser padre. “Entrei e saí do seminário duas vezes, até que na terceira fiquei”, conta. “Sempre entendi que meu trabalho ia além da missa. Tudo o que faço e todas as minhas ações são para ser coerente à eucaristia, em ações de graça de partilha e entrega, em contraposição à acumulação, ao apego.”

Mais do que padre, teólogo e pedagogo, Júlio, que já foi também professor primário e universitário, é militante pelos direitos humanos. Naquela paróquia da Mooca, o que se vê é uma síntese do que tem sido sua vida nas últimas três décadas: tentar cuidar, olhar, ouvir, acolher e ajudar o povo da rua. Da rua, dos presídios, dos abrigos, das ocupações.

Como vigário da pastoral da rua e ativista dos direitos humanos, ele busca, principalmente, atuar nos momentos de conversa, conciliação, resolução de problemas e enfrentamentos. “Sou um aliado do povo da rua e das minorias”, explica. “Procuro expressar junto ao poder público e aos órgãos e instituições o que eles sentem, e, principalmente, fazer com que eles sejam ouvidos e também vistos. Nas horas mais difíceis da vida, quando vem o rapa, quando há ataques, os moradores de rua esperam pela minha presença”, lembra. “Com eles, já enfrentei tropa de choque, gás de pimenta, bomba de gás lacrimogêneo. Nas rebeliões da penitenciária feminina e da Febem, os internos me chamavam muito. Uma vez, quando cheguei na unidade de Franco da Rocha, fui muito agredido pelos funcionários. Arrancaram meu crucifixo, me deram soco na boca. Foram muitas as situações.”

O padre também coleciona histórias de ameaças e problemas jurídicos. Atualmente, está sendo processado pelo candidato Jair Bolsonaro, por chamá-lo de homofóbico, racista e machista, e é alvo de ameaças de morte e agressões em rede sociais por sua atuação contra as ações higienistas da prefeitura de São Paulo. “Isso faz parte da prática de desqualificar quem defende os direitos humanos”, diz. “Somos uma sociedade intolerante.”

Em 1991, Júlio inaugurou a primeira unidade da Casa Vida, para acolher e cuidar de crianças que nasciam soropositivas. O projeto era uma resposta ao Estatuto da Criança e do Adolescente, criado em 1990, que propõe o abrigo para crianças em pequenas casas, em número reduzido, um formato mais próximo da vida familiar. Hoje, tanto a unidade I (para crianças de 0 a 6 anos) quanto a Casa Vida II (de 7 a 15 anos) se tornaram abrigos comuns, o que representa certo avanço: é resultado do baixo índice de crianças que nascem soropositivas.

Foi lá, na Casa Vida I, no começo dos anos 90, que Júlio constituiu a primeira turma de crianças, 12 ao todo. Thais Bispo dos Santos era uma delas. Chegou aos 4 anos, graças a um convênio estabelecido entre a Casa Vida e a Febem, instituição que recebia crianças consideradas abandonadas e soropositivas. Ela lembra que recebia na Febem um tratamento distinto – mais por ignorância dos funcionários e da época, do que preconceito.

Hoje, aos 32, mãe de três filhos (HIV negativos), Thais é uma das poucas sobreviventes. Ao lado do padre – a quem ela só chama de pai – e do marido, Artur, ela recorda histórias que viveu ali. Fala das salas da lareira – “minha preferida” –, de TV e de estudos, além dos vários amigos – “meus irmãos” – que perdeu por conta da doença, e do muito que viveu ao lado do pai. “Tirei foto no colo da princesa Diana quando ela veio ao Brasil, andei de helicóptero, viajei com ele para a Itália, fui à inauguração da Sala São Paulo”, conta. “E o tanto de vezes que assistimos ao Rei Leão e a Anastasia?! Minha infância foi maravilhosa.”  

Créditos

Imagem principal: Mario Ladeira

Fotos: Mario Ladeira

matérias relacionadas