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 “O efeito das bets na sociedade brasileira é devastador”

Em uma conversa com o Trip FM, Raí analisa a Seleção de Ancelotti e o estrago das bets no País, revela os bastidores do clube parisiense que ajudou a fazer renascer, conta detalhes da série sobre a vida do irmão Sócrates dirigida por Walter Salles e revisita seu amor mal resolvido com a Seleção que o sagrou tetracampeão

Raí durante entrevista ao Trip FM falando sobre futebol, bets e transformação social.

Raí durante entrevista ao Trip FM falando sobre futebol, bets e transformação social / Créditos: Divulgação


em 27 de junho de 2026

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Aos 61 anos recém-completados, Raí carrega no currículo o título de campeão mundial de futebol de 1994, a condição de um dos maiores ídolos da história do São Paulo e do  Paris Saint-Germain, incluindo duas Libertadores e um mundial pelo São Paulo e vários campeonatos franceses e europeus pelo PSG. Para além dos títulos, o ex-meia se tornou uma das figuras mais multifacetadas que o esporte brasileiro já produziu: Há 27 anos está à frente da Gol de Letra — fundação que criou com o ex-colega de gramados Leonardo em 1998, para levar educação, esporte e cultura a jovens de comunidades vulneráveis em São Paulo e no Rio —, foi um dos principais articuladores da rede de “advocacy” Atletas pelo Brasil, atravessou o Atlântico para concluir um mestrado em políticas públicas na respeitada Universidade Sciences Po, em Paris, e mantém, ao lado do sócio Paulo Velasco,entre outros investimentos, o Cinesala (segundo ele, “um chuchu da cidade”). O espaço no bairro de Pinheiros, um dos últimos cinemas de rua de São Paulo, foi reaberto em 2014 pela dupla Raí/Velasco, com uma curadoria balanceada que mistura filmes autorais e títulos mais populares.

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A novidade mais recente na carreira do ex-atleta e empreendedor, atende por Paris Futebol Clube. Como embaixador do PFC, Raí aproximou investidores e ajudou a transformar um time da segunda divisão francesa em estrela cobiçada — a ponto de ser adquirido pela família Arnault, detentora do conglomerado de luxo LVMH. “Os caras, quando entram em alguma coisa, não entram para brincar”, diz Raí.

A entrevista que você lê aqui aconteceu no dia 23 de junho, na véspera de Brasil x Escócia, e por isso a Copa atravessa todo o papo: das bets que endividam o país à falta de entrosamento do time de Ancelotti, do fenômeno Messi ao documentário sobre a vida do irmão Sócrates.

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Em todos os temas, aparece o traço que faz de Raí uma rara unanimidade. O campeão que observa o mundo de forma crítica e elegante, sem nostalgia nem rancor, e que insiste em pensar o esporte como ferramenta de transformação social.

A seguir, os melhores momentos da conversa que aconteceu no Trip FM, o talk show da revista Trip.

Você pode ouvir o programa no play desta página, no SpotifyDeezerYouTubeApple Podcasts e outras plataformas de áudio.

Paulo Lima: Ao mesmo tempo em que se transformou numa alternativa à transmissão hegemônica  da Copa pela Globo, a Cazé TV também assumiu deliberadamente uma associação forte com as bets, hoje um problema social enorme no país — os dados mostram que as apostas online se tornaram  o principal fator de endividamento das famílias brasileiras. Como você, que sempre se colocou como um  um ativista social, enxerga o envolvimento entre futebol, ídolos do esporte, narradores, veículos de mídia, artistas da música e da TV e as casas de apostas?

Raí: O efeito das bets na sociedade brasileira é devastador, e a gente acompanha isso pelas pesquisas. Boa parte delas está irregular, muito possivelmente ligada a organizações criminosas. Eu mesmo já recebi umas 15 propostas de campanhas e patrocínios e nunca levei nenhuma adiante, justamente por conta desse universo sem lei. O que me incomoda é o esporte ter criado quase uma dependência desse dinheiro, isso gerou uma acomodação. Na Europa há países com apostas muito mais regulamentadas e fiscalizadas, sem essa conotação negativa. Regulamentar e supervisionar é o mínimo que se tem de fazer. Quando o impacto chega a esse ponto, endividando famílias, não dá para ignorar.

Paulo Lima: Ainda num tema que tem a ver com a  Cazé TV: o Romário está nos Estados Unidos contratado por eles como comentarista da Copa, enquanto mantém o mandato de senador e, ao que se sabe, segue recebendo o salário de parlamentar. Não quero te colocar na saia justa de falar de um colega, mas ao mesmo tempo, essa é uma questão de interesse público: como você enxerga um senador brasileiro exercendo esse papel?

Raí: Sinceramente, não querendo fugir da pergunta, eu não sei os detalhes envolvidos, não posso dizer. Não é um tema que acompanhei, nem sei se ele tirou uma licença. Acho que seria muito leviano da minha parte opinar sem saber qual foi o acordo dele com o Senado. É algo que tem de ser levado em consideração, sim, mas eu não tenho elementos para julgar.

Paulo Lima: Sua novidade mais recente é o Paris Futebol Clube. Como um time da segunda divisão virou alvo do grupo empresarial da família mais poderosa da França?

Raí: Eu queria retomar minha relação com a França e fui fazer um mestrado em políticas públicas na Sciences Po. Nesse período, percebi que Paris era a única grande cidade europeia com um só clube de peso na elite — havia um potencial gigante. Conheci o presidente do Paris FC, vi o trabalho de formação que ele fazia no centro de treinamento, e eu sabia que  a região de Paris se tornou nos últimos tempos uma máquina de descobrir e  revelar jogadores, como o Brasil foi nos anos 60 e 70. Entrei no clube como embaixador, levei um investidor francês e um americano, trouxe patrocinadores. Alguns  amigos me diziam: “O que você está fazendo nesse clube que ninguém conhece?”. Três anos depois, ele foi vendido para a família Arnault, da LVMH, o maior grupo da França. Acho que fui visionário: convenci gente a entrar quando o time era o 17º da segunda  divisão.

Paulo Lima: Paralelamente, você toca a Gol de Letra com o Leonardo e ajudou a fundar a  Atletas pelo Brasil. Como anda essa frente?

Raí: A Gol de Letra começou há 27 anos e já passaram por ela mais de 40 mil crianças e jovens; hoje a gente dissemina nossas  metodologias pelo País. A Atletas pelo Brasil reúne nomes como Ana Moser, Lars Grael e Flávio Canto num trabalho de “advocacy” pela democratização do esporte — esporte como educação, como saúde, como direito do cidadão. Já conseguimos triplicar os montantes das verbas de incentivo fiscal para o esporte no Brasil, por exemplo. Somos os primeiros a reconhecer que poucos chegam ao alto rendimento, mas isso é a ponta de um iceberg: o impacto do esporte na formação do ser humano é muito maior do que isso e ainda é algo subutilizado por aqui.

Paulo Lima: Você vem de uma passagem pela cartolagem do São Paulo que não foi muito legal, pelo menos para quem estava vendo de fora. E também vi experiências difíceis de ex-jogadores na gestão de clubes: o Ronaldo deu a entender que teve duas alegrias com os times que comprou,uma no dia da compra e outra quando vendeu. Como foi esse período no São Paulo? É legal ver que não te desmotivou, mas queria saber, agora com uma distância razoável, o quanto foi bom e ruim.

Raí: Foi tenso, estressante. O futebol é estressante. Entrei numa crise e dei minha colaboração: nos três anos em que fiquei, o time saiu da parte de baixo da tabela, ficou entre os cinco primeiros, voltou à Libertadores e, pouco depois que saí, ganhou a Copa do Brasil. Mas o problema de fundo é a instabilidade política. O Brasil é o único grande país sem uma liga em que os clubes se entendam e pensem o produto como um coletivo, vivem brigando. A SAF é uma coisa nova para nós — o clube se transformar numa empresa, os gestores terem responsabilidades. Lá fora isso já existe: na França todos os clubes são assim, na Espanha só Barcelona e Real Madrid não são empresas. A regra lá fora é ser profissional.

Paulo Lima: Você já disse à imprensa que a Seleção ficou tempo demais sem comando e que isso pesa. Nosso time virou um amontoado de talentos?

Raí: Com certeza. O futebol evoluiu de forma absurda — tática, físico, nutrição, tecnologia — e não há mais espaço para improviso. O Ancelotti chegou há um ano, é estrangeiro, muitos dos nossos jogadores ele não conhecia, foi conhecer o Campeonato Brasileiro agora. Fica impossível cobrar resultados imediatos. Teve o exemplo do próprio PSG, com Messi, Neymar e Mbappé: mesmo com talentos desse nível, só deu certo quando houve uma tática com coerência, com os jogadores acreditando naquilo e treinando incansavelmente, em repetições e repetições, mesmo sendo naquela época um grupo de jovens geniais cheios de potencial. O Brasil tem talento, mas fica difícil até julgar o talento sem um time coeso, isso prejudica até a atuação individual de cada um.

Paulo Lima: Muita gente está discutindo depois dessa primeira rodada de jogos e depois das atuações brilhantes do craque argentino,  se Messi seria o maior jogador de todos os tempos. Qual é a sua leitura?

Raí: A constância dele é impressionante, e tecnicamente ele é muito superior ao Cristiano Ronaldo, por exemplo, que é um fenômeno, mas muito mais trabalhado. O Messi tem uma habilidade natural excepcional, nem precisa da perna direita. E tem o lado emocional: perde um pênalti e faz dois gols em seguida, é quase sobre-humano. Saiu uma entrevista minha no Le Figaro em que eu disse: vamos comparar Messi com Cristiano Ronaldo, mas deixa o Pelé em paz, porque ele é o Deus dos Deuses. Pensa no que o Pelé representou: tricampeão mundial, mil gols, desde os 18 anos, com o preparo daquela época. O Messi, com essa Copa, está se colocando ali pertinho do Deus dos Deuses — em números, eficiência e na forma como lida com o estrelato.

Paulo Lima: Voltando à Seleção: queria sua leitura de dois jogadores tidos como a esperança nesse sentido do talento individual suprir a falta de entrosamento. Como você vê o momento do Neymar — físico, cabeça, tudo — e o do Endrick, tão mais jovem e ainda pouco utilizado pelo Ancelotti?

Raí: Eu incluiria também o Vini Júnior nessa conta, um cara que marcou contra o Marrocos num momento complicado e é decisivo jogando bem ou mal. O Neymar, tem todo aquele talento, mas não dá para avaliar o lado físico à distância; a dúvida era o estado de espírito com que ele chegaria — e o Ancelotti sabe lidar com esse tipo de personalidade, conversou bastante com ele antes. Se o Brasil avançar e ele voltar à forma, pode fazer a diferença em alguns jogos, como já fez em outras Copas. Já o Endrick acompanhei de perto agora que foi para o Lyon, e ele chegou arrebentando. Dizem que o Ancelotti ajudou o Real Madrid a liberá-lo para ele estar na ativa no pré-Copa. Não sei se é verdade, mas não duvidaria. O Vini tem um estilo mais delimitado num setor do campo, pela esquerda; o Endrick joga na direita, na esquerda, de centroavante, tem velocidade, potência física incrível e um chute que impressiona os próprios companheiros, e com os dois pés. Tem potencial para ser ainda maior do que o Vini.

Paulo Lima: E o filme sobre o seu irmão Sócrates, me lembro de você ter comentado sobre isso há anos — vai sair?

Raí: Vai sair este ano, no segundo semestre, e com o luxo de ser dirigido pelo Walter Salles, o primeiro projeto dele depois do Oscar. Tudo começou há cinco anos; o Waltinho entrou como consultor, mas é um apaixonado total por futebol e, a certa altura do processo, ele disse: “Esse projeto eu assumo”. Fechou inclusive com a Globo Filmes. É uma série documental, deve ter cinco episódios, da origem ao fim da vida do Sócrates. Tenho certeza de que vai bater forte no mundo inteiro e apresentar essa história incrível às novas gerações.

Paulo Lima: Você está com 61 anos e numa forma física que muito ex-atleta não mantém. Qual é o segredo?

Raí: Tem uma sorte genética, nunca tive tendência a engordar, e me cuido o necessário, sem exagero — umas três sessões de exercícios por semana e a meta de manter o peso  perto dos 100 quilos; se passa disso, fecho a boca, aí entra a vaidade. Mas o segredo maior é o estilo de vida. Estou há quase 25 anos sem carro. Testei por um ano em São Paulo, achando que não daria, e descobri não só que dava, como que eu era mais feliz sem carro: você caminha, encontra as pessoas, vê a cidade. Na França, caminho cinco vezes mais do que aqui. Isso tem um efeito emocional que também ajuda bastante  na saúde geral.

Paulo Lima: Você já definiu sua relação com a Seleção Brasileira como um caso de amor mal resolvido. De onde vem essa frustração, mesmo tendo sido tetracampeão mundial em 94 ?

Raí: A frustração maior nem é a Copa em si, é ter jogado só uma. Em 90 me machuquei e o grupo fechou; em 98 a Copa foi na França, eu estava arrebentando lá, mas nunca fui o jogador preferido do Zagallo, que não me levou. Tive quase três anos de auge entre 91 e 93, jogando 95 partidas por ano, praticamente sem férias. Cheguei a 94 desgastado, e é natural que, depois de tanto tempo no topo, viesse uma caidinha. Caiu justamente no momento da Copa. Fui eleito o melhor em campo no primeiro jogo, mas no terceiro o time foi mal contra a Suécia e precisavam de um culpado: o capitão. Mas eu não posso reclamar da minha carreira: no momento mais difícil dela, fui campeão do mundo.

Paulo Lima: Para fechar, quero o seu palpite no nosso bolão — que, é importante mencionar, não tem bet (risos): quem estará  no pódio dessa Copa?

Raí: Boto Argentina, Holanda e França, com a Inglaterra correndo por fora. O melhor time é a França, mas o que mais me impressionou foi a Argentina: ganhando de 3 a 0, jogavam com uma vontade de quem está empatando. Esse olho de tigre é a marca deles, e a França, para ser campeã, vai ter que igualar essa raça. O Brasil, sinceramente, não é favorito, mas eu quero estar errado e que a gente chegue lá.

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