Logo Trip

Publicidade

Bob Wolfenson e a poesia que veio da lama

Para o Trip FM, o fotógrafo Bob Wolfenson repassa cinco décadas de fotografia, relembra o tranco da perda precoce do pai, a parceria involuntária com a lama no projeto Sub/Emerso e analisa o banimento dos ensaios sobre a nudez diante dos novos tempos

Bob Wolfenson em retrato diante de uma das imagens da série Sub/Emerso

Fotógrafo revisita cinco décadas de carreira e conta como uma enchente transformou seu acervo em nova obra / Créditos: Helena Wolfenson/Divulgação


em 19 de junho de 2026

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Publicidade

“Quando me perguntam o que ando fazendo, eu respondo: ‘Ah, ainda estou enganando um monte de gente por aí’.”

A frase é de Bob Wolfenson e ajuda a explicar por que, aos 71 anos, ele continua sendo um dos fotógrafos mais relevantes do país. Depois de mais de cinco décadas de carreira, Bob construiu algo que vai além de um estilo fotográfico reconhecível: desenvolveu a rara capacidade de não se levar tão a sério. Talvez esteja aí o segredo para seguir curioso, produtivo e inquieto, enquanto a fotografia profissional atravessa um dos períodos mais desafiadores de sua história.

LEIA TAMBÉM: O fotógrafo que revelou o verdadeiro “risco Brasil”

Essa disposição para seguir em frente foi colocada à prova em fevereiro de 2020, quando uma enchente atingiu seu estúdio, na zona oeste de São Paulo, e destruiu parte importante de um acervo construído ao longo de 50 anos. Em vez de enxergar apenas perda, Bob decidiu olhar para os danos como parte da obra. As marcas deixadas pela água, pela lama e pelo tempo acabaram incorporadas às imagens e deram origem ao livro e à exposição Sub/Emerso, um encontro improvável entre o controle do fotógrafo e a força do acaso.

LEIA TAMBÉM: A fotografia do ódio humano

É com esse mesmo olhar que ele observa outras transformações do nosso tempo. Entre elas, a mudança de relação da sociedade com a representação dos corpos, da sensualidade e do desejo — temas que já ocuparam espaço central na fotografia, na publicidade e na cultura de massa, mas que hoje atravessam um território muito mais complexo.

Na conversa com Paulo Lima no Trip FM, Bob Wolfenson fala sobre o medo da morte, os encontros que resultam em retratos inesquecíveis, inteligência artificial, fracasso, reinvenção e a busca permanente por um olhar que ainda seja capaz de surpreender.

Você pode ouvir o programa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e outras plataformas de áudio, ou ler alguns trechos da entrevista a seguir.

Seu pai morreu quando você tinha apenas 15 anos. O quanto isso determinou a sua vida?

Bob Wolfenson. Isso determinou tudo. Ele tinha 56 anos e eu 15. Eu me lembro de algumas cenas com ele, mas ele está totalmente dentro de mim na forma de um amor muito grande. Infelizmente, eu só sou fotógrafo por causa da morte do meu pai. Tive que trabalhar imediatamente depois que ele faleceu e consegui um emprego no estúdio da Editora Abril. Eu era um adolescente contestador, radical, e havia rusgas ideológicas entre nós, mas chorei demais quando ele partiu. Depois constituí minha própria família e o meu grande amor se direcionou para as minhas filhas, minha mulher. Mas a morte dos pais marca profundamente. Eu até faço uma brincadeira de autoironia judaica e digo que meu pai morreu muito cedo, às sete horas da manhã.

Como foi transformar a enchente que atingiu seu estúdio em um livro e uma exposição? Eu guardava ali caixas cheias de papéis, ampliações antigas e refugos de exposições que não tinha jogado fora por pura preguiça. Quando a inundação de lama e água suja invadiu o estúdio, ela deu uma unidade estética inesperada para aquele lixo todo. A água criou rasgos, ranhuras e manchas de terra que alteraram completamente a materialidade das imagens. Foi um ready-made involuntário total. Percebi que o defeito trazido pela inundação se sobrepôs ao registro original. Criei o conceito de “sobrememória”: uma memória física da tragédia que se assentou por cima da memória já registrada pela fotografia. Em vez de lutar contra a perda, aceitei a intervenção da natureza e fiz disso uma exposição e um livro.

Como está sendo chegar aos 71 anos? A ambição diminui, sem dúvida nenhuma. Mas a ansiedade continua. Como diz a minha analista: “Se você veio até aqui ansioso, vai mudar por quê?”. Eu atropelo as coisas, minha cabeça anda sempre na frente do meu corpo. Sobre ter 71 anos, é ok, não reclamo, mas não tenho essa visão Poliana de que é a “melhor idade”. Quando você é jovem é melhor, você tem muito mais vitalidade e produção de ideias. Mais velho você pensa: “já tive ideia para burro, já está feito o que eu precisava”. Mas é o que temos. A outra opção é muito pior… [risos].

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

LEIA TAMBÉM