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São Paulo já foi pro brejo? Nabil Bonduki fala sobre parques virando shoppings, demolições duvidosas e poluições assustadoras

O vereador destrincha o avanço da verticalização de São Paulo após a revisão do Plano Diretor de 2023: “O que vemos hoje é uma prefeitura leniente com um mercado predatório.”

Nabil Bonduki falou ao Trip FM sobre os problemas de São Paulo.

em 3 de julho de 2026

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Nabil Bonduki virou um fenômeno improvável da internet aos 71 anos. Professor titular de planejamento urbano na FAU-USP há quatro décadas e vereador em São Paulo ( PT) em seu terceiro mandato, o arquiteto, agora também “creator”,  percorre a metrópole de cabo a rabo a pé — de um campo de futebol de periferia a um casarão ameaçado de demolição no centro — e transforma suas investigações e denúncias sobre as mazelas do espaço urbano em aulas públicas para quase 200 mil seguidores em seu perfil no Instagram. O mais inusitado é que a raiz desse olhar nasce num menino que não podia correr.

Filho de uma família síria que aportou no Brasil no fim do século XIX e se enraizou na Rua 25 de Março, onde o pai teve uma loja e uma tipografia que compunha livros em árabe, Nabil cresceu com uma cardiopatia que o proibia de fazer esforço físico. Sem poder jogar bola, refugiou-se nos livros e na observação das coisas à sua volta. Aos 15 anos ele filmava São Paulo em super-8 recitando os versos de Mário de Andrade; na FAU, aprendeu a levantar o patrimônio do país “medindo com os pés e desenhando com a mão”. Meio século depois, é o mesmo olhar encantado que direciona seus passos.

Ao Trip FM, Nabil Bonduki, autor de treze livros sobre gestão urbana, cidades e urbanismo,  repassa uma trajetória que entrelaça academia e política, analisa como o Plano Diretor de 2023 vem “desfigurando” a capital paulista, aponta as quatro poluições que sufocam a cidade e defende, contra a polarização, um jeito suave de fazer política. Uma conversa que passa pela imigração dos povos árabes para São Paulo, pela doença cardíaca que o formou, pelas cidades-esponja e por uma pergunta de fundo: Dá para acreditar num futuro melhor?

A seguir, os melhores momentos da entrevista conduzida por Paulo Lima no Trip FM, o talk show da Trip. Você pode ouvir o programa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e outras plataformas de áudio.

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Paulo Lima: Você é de origem síria, e eu sei que de certa forma sua história começa na clássica 25 de Março. Como era o pequeno Nabil e a família à sua volta?

Nabil Bonduki: A história do meu pai é interessante porque ele nasceu aqui no Brasil. Meu avô veio em 1898 e começou como mascate. Meu pai nasceu no Bom Retiro e, com 5 anos, foi levado por ele para a Síria, para a cidade de  Homs, de onde vem toda nossa família. Isso foi em 1914, pouco antes da Primeira Guerra. Meu avô voltou prometendo buscá-lo um ano depois, mas nunca mais voltou por causa do conflito. Meu pai só retornou ao Brasil, para reencontrar o pai, aos 18. Meu avô, que começou como mascate no fim do século XIX, em 1929 já era dono de uma fábrica no Belenzinho e de uma loja na 25 de Março, mas faliu na quebra da Bolsa de Nova York. Aí meu pai recomeçou como mascate, repetindo a história do avô, até virar sócio e depois comprar uma tipografia que publicava literatura árabe. 

Paulo Lima: Li que você teve uma infância marcada por uma cardiopatia que o proibia de esforço físico. O quanto isso moldou o seu caminho?

Nabil Bonduki: Quando eu tinha três anos, tive uma caxumba forte seguida de uma nefrite e quase morri de febre. Foi aí que o médico da família, Chucri Zaidan, que hoje dá nome à avenida ali na frente da Globo, viu uma alteração no meu coração. Falaram que eu tinha um sopro, que não poderia fazer exercício físico. Quando eu ia jogar bola, meu pai me tirava da rua. Fiquei com essa restrição até os 18, e isso me fez voltar para a leitura e para os estudos. Eu era o primeiro aluno da classe, mas sofria um certo bullying por ser o menino que não jogava bola, super CDF. Quando fiz 18, meus pais me deixaram optar e decidi que queria operar. 

Paulo Lima: Pouca gente sabe que sua cirurgia cardíaca na juventude deixou uma herança silenciosa e dramática que você só descobriu décadas depois. Como foi receber o diagnóstico da hepatite C e buscar a cura na rede pública?

Nabil Bonduki: Devido às transfusões de sangue comuns na época da cirurgia, acabei contraindo o vírus da hepatite C. Só fui descobrir o diagnóstico 35 anos depois, em 2007, de forma fortuita após uma gripe. Em 2018, quando surgiram medicamentos novos e eficazes, recorri ao sistema público. Fiquei um ano na fila do SUS para conseguir a medicação, fiz o tratamento e alcancei a cura. Essa experiência me deixou com uma espécie de inércia metabólica no fígado que hoje desregula minha glicose — o que me obriga a passar longe dos doces árabes —, mas reforçou minha defesa intransigente da saúde pública. 

Paulo Lima: Como você foi magnetizado pela cidade, a ponto de virar arquiteto e urbanista?

Nabil Bonduki: No ginásio, fiquei amigo do Rogério Corrêa, hoje cineasta. Aos 15 anos, ele me chamou para fazer um curta em super-8 com os poemas do Mário de Andrade sobre São Paulo. Selecionamos as poesias no “Pauliceia Desvairada” e na “Lira Paulistana” e fomos filmar os lugares citados. Percorri o centro todo: a Luz, o Tietê por causa d’ “O Meu Tietê”, as ruas do Triângulo. Sendo ligado à história, achei bárbaro fazer um filme sobre a cidade. Quando fui para o científico, já fui com a cabeça de fazer arquitetura, e, olhando a cidade, fui me identificando com o planejamento urbano.

Paulo Lima: Você vem de um lugar de privilégio, que costuma levar as pessoas a carreiras guiadas pelo dinheiro. Escolheu ser professor, que infelizmente ,de maneira geral ,é uma carreira que remunera mal . O que te levou por esse caminho?

Nabil Bonduki: Desde o colegial eu tinha uma visão crítica do próprio ambiente onde estava, o Dante Alighieri, uma escola de elite onde eu era uma espécie de patinho feio. No meu tempo de faculdade, a USP dos anos 1970 vivia a ascensão do movimento estudantil, mas nunca aderi a nenhuma das  tendências, achava as posições muito dogmáticas. Quando surgiu o PT, com o Lula propondo algo que não era o velho trabalhismo nem o Partido Comunista, me encantei: era o projeto de construir um partido de baixo para cima. A minha vocação de professor foi natural. Quando meu pai faleceu, a família queria que eu cuidasse da loja na 25 de Março, mas recusei. Acumular capital com a arquitetura nunca foi meu objetivo principal.

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Paulo Lima: Você virou um dos melhores exemplos de um  lado positivo da internet, dar escala para a voz de um indivíduo. No seu caso, a multiplicação do olhar de um titular de um mandato público que sai do gabinete e vai todo dia pras ruas fiscalizar, denunciar e ainda ensinar. Como nasceu esse projeto de expansão da sua trajetória?

Nabil Bonduki: O que faço hoje na internet é o que eu já realizava fora dela: desde os anos 1980 faço visitas técnicas com meus alunos para mostrar a cidade. Na internet, ganhei escala para um público que antes era restrito, e tenho que dar o crédito à equipe que me acompanha desde o fim de 2023 e percebeu esse potencial. Nunca fui estridente. Procuro fazer comentários que fujam da dinâmica do atrito e busquem entender a raiz da situação. 

Paulo Lima: Para muitos observadores, a  partir do Plano Diretor de 2023, a cidade começou a ser desfigurada: adensamento excessivo e mal planejado, muita demolição duvidosa, destombamentos, permissividade, toma lá dá cá, interesses privados e setoriais se sobrepondo aos das comunidades e cidadãos e suspeitas de corrupção. O que deu errado?

Nabil Bonduki: Preciso começar por 2014, quando fui relator do Plano da época e chegamos a um excelente ponto de equilíbrio: consolidamos o conceito de que o adensamento deve acontecer perto dos eixos de transporte coletivo de massa, com fachadas ativas dando vida às calçadas, e determinamos que os perímetros de interesse cultural, ambiental ou afetivo ficassem de fora da verticalização. Entre 2014 e 2023, o mercado imobiliário foi desfigurando esses princípios com brechas jurídicas e uma fiscalização frágil. Prédios inteiros são aprovados como Habitação de Interesse Social para obter incentivos, mas comercializados para a alta renda. O erro de 2023 foi que, em vez de corrigir essas distorções, a revisão legalizou as brechas. Ampliaram-se as áreas de verticalização sob a justificativa distorcida de produzir habitação social, e o Conpresp passou a adotar uma postura hiper-resistente a qualquer tombamento, mais alinhado às incorporadoras do que à memória da cidade, a ponto de destombar duas vilas históricas na Zona Leste, onde já há demolições avançando. Não sou inimigo do mercado imobiliário: a construção civil é fundamental e pode ter uma relação saudável com a cidade, desde que respeite os limites da coletividade. O que vemos hoje é uma prefeitura leniente com um mercado predatório.

Paulo Lima: E o ambiente político hoje, dá para enfrentar tudo isso pela Câmara?

Nabil Bonduki: Tenho preocupação sobre o limite da capacidade de resistência da cidade, porque os instrumentos institucionais de oposição na Câmara hoje são minoritários e os debates carecem de profundidade. Esse é um dos piores lados do Legislativo atual, a dificuldade de encontrar interlocutores para discussões sérias de conteúdo. Quando fui relator do Plano Diretor em 2014, o presidente da comissão era o Andrea Matarazzo, que pertencia ao PSDB, partido de oposição à gestão do PT na época. Mas nós tínhamos um debate qualificado e republicano. O mesmo acontecia com o Police Neto, que era da base do Kassab. Discutia-se o planejamento urbano com critérios técnicos. Hoje esse ambiente desapareceu e a Câmara virou um reflexo da polarização da sociedade, deixando a cidade à deriva de balcões de negócios.

Paulo Lima: Em suas fiscalizações, você costuma contrastar a privatização de marcos como o Vale do Anhangabaú com a efervescência das festas populares de rua. Qual é o limite entre o uso comercial e o direito ao espaço público em São Paulo?

Nabil Bonduki: O Vale do Anhangabaú é um exemplo de distorção. Durante exibições públicas recentes de jogos da Copa, a prefeitura repassou cinco milhões de reais para uma empresa privada cercar o perímetro, transformando uma ágora histórica em uma estrutura fechada e excludente que permaneceu vazia na maior parte do tempo. O município deveria apenas instalar a infraestrutura e permitir que a população ocupasse o solo livremente. Em contrapartida, visitei recentemente festas juninas de rua maravilhosas e gratuitas no Largo da Misericórdia, no Instituto Biológico e na Vila Ipojuca. O urbanismo real pulsa nessas iniciativas. Não se trata de proibir o entretenimento ou as atividades econômicas, mas de regulá-las.

Paulo Lima: Você fala em quatro poluições que sufocam São Paulo. Quais são?

Nabil Bonduki: São quatro poluições gravíssimas que eu tento combater nos meus mandatos: a atmosférica, causada em boa medida pelos veículos movidos a combustíveis fósseis; a sonora, que está uma loucura; a visual, que melhorou depois da Lei Cidade Limpa, mas que era terrível; e a das águas, que nos impede de desfrutar dos nossos rios e córregos, que viraram esgotos abertos.

Paulo Lima: Um dos assuntos da vez é a deterioração dos parques municipais, com concessões mal planejadas e mal fiscalizadas. Diante de tanto estrago e de parques que parecem estar se transformado em shoppings, dá mesmo para reverter?

Nabil Bonduki: Eu acredito que sim. A história mostra que processos destrutivos podem ser revertidos. Veja a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, que chegou a ser completamente desmatada no século XIX para o plantio de café e hoje é uma grande reserva natural graças a um longo processo de reflorestamento. O mesmo vale para o Parque Ibirapuera, que poderia ter sido transformado em um grande loteamento imobiliário e foi preservado como área pública verde. O problema não é haver concessões ou atividades econômicas. Uma cidade como São Paulo precisa de parques, eventos e equipamentos públicos funcionando. O problema é quando falta planejamento, fiscalização e uma gestão comprometida com o interesse público. A gente vê isso em várias situações: boas ideias acabam sendo desvirtuadas porque ninguém acompanha a implementação das regras. Eu continuo acreditando que é possível corrigir esse rumo. Com participação da sociedade, vontade política e gestão qualificada, é possível conter esses processos e recuperar a qualidade dos espaços públicos.

Paulo Lima: Olhando o país, o mundo e a cidade, quase sempre temos a impressão de que já foi tudo para o brejo. Você acha que existem saídas possíveis, ou nossa sociedade caminha em linha reta e passos rápidos para o buraco?

Nabil Bonduki: Se eu acreditasse que iríamos, não aguentaria este plenário da Câmara nem todas as pressões da cidade, iria para a praia, viajar pra outros países. Mas a gente não pode se omitir. 

Paulo Lima: O que pode antes: o Brasil ser campeão do mundo novamente  ou São Paulo corrigir suas mazelas?

Nabil Bonduki: É difícil prever se o Brasil será campeão antes. Agora, para São Paulo resolver e mitigar seus problemas estruturais, vai levar tempo. Quando o urbanista Kongjian Yu veio ao Brasil, fomos caminhar na beira do Rio Tietê, e ele disse que precisávamos remover toda aquela estrutura viária dali imediatamente. Respondi que os nossos processos não funcionam de forma verticalizada como na China: aqui é preciso ouvir as pessoas, encontrar soluções de reassentamento e construir consensos. Se houvesse um imperador em São Paulo com poder para decidir sem passar pela Câmara, talvez algumas obras avançassem mais rápido, mas o resultado não teria a mesma legitimidade. Só acredito na democracia. Nós só vamos melhorar a cidade debatendo.

[Nota de contexto: Kongjian Yu, arquiteto chinês criador do conceito de “cidades-esponja”, morreu em setembro de 2025 num acidente aéreo no Pantanal, em Aquidauana (MS). Ele estava no Brasil para participar da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo; no mesmo acidente morreram os cineastas Luiz Ferraz e Rubens Crispim Jr. e o piloto Marcelo Pereira de Barros.]

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