Milly Lacombe: O que a gente faz com tanta raiva?

por Milly Lacombe

Muito antes de mergulharmos nessa situação já havia quem vivia o fim do mundo todos os dias. O primeiro passo nessa harmonização da raiva talvez seja refletir sobre o que é, afinal, violência

Quem está prestando atenção na conjuntura está inundado de raiva. Não há, aliás, como ser brasileiro consciente de nossa história e não sentir muita raiva. Nem precisaríamos de uma pandemia, muito menos de uma administração fascista durante uma pandemia, para nos enfurecer. Basta encarar a verdadeira história da fundação desse país – que nasceu de muitos extermínios e genocídios, e se transformou em um projeto de ódio – para sentir raiva. Mas o que fazer com ela? Passar o dia assistindo vídeos de racistas, nazistas e fascistas apanhando não pode ser a solução (eu já fiz isso, não mudou muita coisa). 

“O problema é que a raiva não consegue nem existir em paz porque ela está temperada com medo e desespero”
Milly Lacombe

Audre Lorde ensinou que a raiva é afeto fundamental mas que, para que ela não nos devore, precisamos organizá-la. Desde que li Lorde me pergunto como organizar essa emoção em mim. Todos os dias acordo em busca dessa sabedoria. Abro os olhos e minha raiva está por todos os lados, fragmentada em um milhão de pedaços pelo quarto. Saio catando o que consigo, fecho os olhos e medito. Funciona, sempre funciona, mas antes do almoço preciso repetir a ação para não enlouquecer. Se conseguíssemos organizar nossa raiva bem organizadinha – essa que anda tão abundante – seríamos muito mais fortes. 

O problema é que a raiva não consegue nem existir em paz porque ela está temperada com medo e desespero. Se a raiva pode funcionar como força vital, o medo e o desespero paralisam. Raiva, medo, desespero: fechar os olhos, respirar, meditar; começar de novo.

Estamos entrando naquela que talvez seja a noite mais sombria e fria de nossas vidas. É natural ter medo e se desesperar. O noticiário é devastador. Não há sinais de melhora – pelo contrário. Para onde correr se tudo ao redor está desmoronando? Antes da gente, outras gerações e outras tradições, tiveram que enfrentar o fim do mundo. E se eles conseguiram, conseguiremos também.

LEIA TAMBÉM: Quem estiver concentrado na vacina não estará enxergando a imagem completa

“Separar violências, e etiquetar aquelas que o sistema não chama pelo nome, é um passo na organização da raiva”
Milly Lacombe

O primeiro passo nessa harmonização da raiva talvez seja refletir sobre o que é, afinal, violência. Violência é dar murros em racistas, sem dúvida, e é também quebrar vidraça de banco em manifestação. Assim como é ter seu celular roubado no sinal e a casa de veraneio assaltada no fim de semana. Mas estamos falando aqui de um tipo de violência muito específico. Uma que envolve atirar pedra em racista e desferir murros e pontapés em fascistas. Da violência contida em cada tijolo da base do sistema não se fala.

Não se fala da violência de, em nome do lucro, não disponibilizar ao cidadão e à cidadã uma quantidade mínima de ônibus para irem e voltarem do trabalho. O que já seria violento em tempos normais vira delinquência quando a situação é de pandemia: o trabalhador precisa se amontoar em um mesmo veículo, respirando vírus para cá e para lá, transformado o ônibus em uma câmara de gás.

Não se fala da violência de um governo que oferece um valor absurdamente ridículo como auxílio emergencial alegando estar quebrado mesmo tendo, no começo dessa mesma pandemia, oferecido um trilhão ao sistema financeiro.

“Não se fala da violência contida na opressão, na exclusão, na exploração. Essas não são vistas como violências, mas como contingências”
Milly Lacombe

Pouco se fala da violência do policial que aborda o vendedor ambulante já aos chutes. Não se fala da violência de um sistema que em situações de catástrofe nacional como essa que vivemos aceita que o mercado regule livremente o preço de máscaras que podem salvar vidas, ou o do cilindro de oxigênio. 

Não se fala da violência contida na opressão, na exclusão, na exploração. Essas não são vistas como violências, mas como contingências. Então quando as vozes em minha cabeça dizem “violência não leva a nada” outra parte de mim argumenta: “de que violência você está falando?”. 

Separar violências, e etiquetar aquelas que o sistema não chama pelo nome, é um passo na organização da raiva. E vamos precisar fazer isso se queremos sair mentalmente sãos no final desse túnel. Estamos vivendo o fim de um mundo, e essa tarefa nunca foi fácil nem nunca deixará de ser um desafio – esse é o desafio da nossa geração.

LEIA TAMBÉM: "Dois mil e vinte foi deserto. Dois mil e vinte um é caminhada, é deslocamento", escreve Milly Lacombe

Minha mãe conta que durante três anos de sua infância ela precisava sair correndo de casa quando as sirenes tocavam indicando bombardeios sobre Fondi, a cidadezinha em que ela vivia na Itália. Ao som das sirenes, minha avó pegava os filhos pelas mãos e iam todos para os abrigos subterrâneos. Ás vezes por mais de um dia. Comiam ovo cru ou pão velho quando havia o que comer. Minha bisavó se recusava a sair de casa dizendo que preferia morrer sentada em sua cadeira de balanço do que fugindo. 

Toda vez que deixavam os abrigos a cena ao redor era ainda mais angustiante: havia menos cidade de pé e mais mortos no chão. Outro dia minha mãe me disse que uma de suas brincadeiras mais comuns era a de correr atrás das carroças que passavam na porta da sua casa com cadáveres empilhados e brincar com seus pés inertes, mexendo eles para cá e para lá. Para ela, minha avó e minha tia, essa realidade durou três anos. Elas não podiam imaginar como sairiam daquela situação, até que um navio trouxe todas para o Brasil e um novo mundo foi descoberto.

Essa é apenas a história do fim de um mundo, uma que está em meu sangue. Com ela eu aprendi que toda história de fim de mundo acaba com a descoberta de um novo mundo. Há outras histórias de fim de mundo, e elas seguem acontecendo todos os dias – com ou sem pandemia – na periferias e nas favelas de nossas cidades.

LEIA TAMBÉM: Todas as colunas de Milly Lacombe

Muito antes de mergulharmos nessa situação já havia aqueles e aquelas entre nós que viviam o fim do mundo todos os dias: violência policial, violência miliciana, violência racista, violência classista. Toda vez que um jovem morre nas nossas periferias tem um mundo que morre com ele. A diferença agora é que ficou impossível não percebermos o que acontece a poucos quilômetros de nossos confortáveis condomínios – e teremos que fazer alguma coisa a respeito. O silêncio não é moralmente aceitável (alô, Ivete).

Essa noite sombria na qual estamos entrando pertence a todos nós. Nós, a classe dominante, demos vida a esse horror compactuando com um projeto de ódio eurocentrado e colonial. Estamos nos vendo no espelho e a imagem não é bonita. Agora, na beira desse caminho cheio de escuridão, só nos restar atravessá-lo. Haverá dor, lágrimas, perdas e tristeza. Mas sairemos do outro lado.

O líder dos movimentos indígenas Ailton Krenak conta que na tradição Guarani a palavra nhe-rrê (não consegui saber como escrever corretamente a palavra então coloco aqui apenas a pronúncia) quer dizer ao mesmo tempo “hálito” e “o respiro”. Nhê-rre é o ato de inspirar e expirar, é o hálito da vida, explica Krenak. Nhê-rrê, portanto, é também a fala, a fala como manifestação da vida. É um chamado para celebrar a vida como um dom, como essa perpétua troca com o meio. Podemos fazer isso pelo canto, pelas rezas, criando caminhos de cura.

LEIA TAMBÉM: "Se você entrar nessa do otimismo, o amanhã já foi para o mercado", diz Ailton Krenak

Que lástima não termos absorvido esses saberes – tão nossos – durante nossa educação formal. Que lástima termos contado a história do Brasil pelos olhos do colonizador, ensinados a amar as formas de vida que nos dizimaram e a odiar aquelas que, em nosso nome, resistiram e resistem há 500 anos. Tanto ódio desorganizado fez com que chegássemos onde estamos hoje.

“Não é possível, nesse ponto do caminho, enxergar qualquer saída. Mas elas existem”
Milly Lacombe

Estamos doentes. Doentes de vírus, de fome, de medo, de isolamento, de saudade, de solidão, de desespero. Não é possível, nesse ponto do caminho, enxergar qualquer saída. Mas elas existem. E essa é a exata hora para fazermos o que o filósofo e professor Vladimir Safatle ensina: desconfiar da nossa ideia de possível. “Porque ela diz muito pouco. Ela diz simplesmente quais são as condições atuais da experiência”. De uma experiência que muda a cada instante.

Esse é o momento – para continuar com Safatle – de movimentar afetos que vão além do medo. Afetos como o desamparo, por exemplo. Afirmá-lo para então, a partir do nada, criar novas possibilidades para o tudo. Hora para “reler sabenças, encontrar, encruzilhar, encantar o que padece de desencanto, produzir afetos cruzados, temperar o tempo; não é o eu ou o outros, mas o eu e o outro” (Luiz Antônio Simas).

LEIA TAMBÉM: Luiz Antônio Simas, o pensador das ruas e encruzilhadas 

Todo fim de mundo está grávido de um novo mundo. E isso vale para a gente a nível pessoal e também enquanto sociedade.

Hora para que a gente se recolha, refunde nossas subjetividades, ouça as vozes desses saberes outros que nos foram negados, que quase foram exterminados. Hora para que a gente se impregne de encruzilhadas e se invista de encantamentos, para que a gente se livre desse Brasil institucional do homem branco poderoso e assente um país que represente todos, todas e todes. Hora para acreditar no impossível porque, como ensina Safatle, tudo o que hoje parece perfeitamente possível um dia foi impossível.

Vamos sair dessa noite sombria. E esse vai ser o dia em que veremos juntos e juntas a aurora mais bonita de nossas vidas.

fechar