por Redação
Tpm #22

A busca pela imagem perfeita nos trouxe à era do narcisismo. Como sairemos dessa?

Vem da infância a imagem impecável da rainha má e linda que é capaz de matar para não perder o posto de mais bela do reino. A lição de moral ficou registrada: de nada adianta ser bonita por fora, se, por dentro, você não passa de uma maçã podre. Fomos, desde então, induzidas a ser, além de bonitinhas por fora, também moças de bom coração, como a ancestral Branca de Neve. Hoje, porém, a lógica do conto de fadas soa obsoleta, já que a busca pela imagem perfeita é grande o suficiente para fazer com que você ignore coisas boas que estão na frente do seu nariz por valorizar apenas o que pode ser avaliado por fora.

Encontrar um namorado gente boa não basta. Ele precisa ser cool, para impressionar seus amigos, fashion, para entender as últimas tendências, e culto ao ponto de saber discorrer sobre dúzias de temas de interesse da sua turma. E por falar em amigos, eles também não podem ser quaisquer amigos. Hoje é preciso mais. Eles precisam ser “uma turma de gente muito bacana”, tipo a galera do Friends. Um namorado e amigos que aceitem seus defeitos e que também não sejam perfeitos... parecem não importar tanto. Mas o efeito rebote tarda, mas não falha. Segundo o psicanalista italiano radicado em São Paulo Contardo Calligaris, “aqueles que não conseguem ter relações nas quais você gosta das falhas do outro, e não só do que eles apresentam de melhor, têm uma vida muito solitária”. E quem é capaz de duvidar?

Em nome de uma imagem ainda mais perfeita, como num videoclipe, é preciso, além de cercar-se de elementos humanos que façam da sua vida uma fotografia dos tempos modernos, um corpo perfeito. O que leva muitas mulheres a deixarem de fazer coisas legais, como enfiar o pé na jaca em nome de uma paixão e cabular, por um dia, a aula de ginástica na manhã seguinte. Ou então deixar de conhecer um carinha novo (que poderia até ter um bom papo e um bom coração) só porque ele se veste “mal”. O que conta, afinal, é ter uma imagem que agrade aos outros e buscar imagens, de preferência, semelhantes à nossa. “A interioridade está sendo substituída pelo corpo, por isso o inferno do fitness”, afirma o psicanalista carioca Jurandir Freire Costa.* 

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Entre as mulheres, a busca pela imagem perfeita resvala em estereótipos do tipo querer ficar magra como as personagens dos seriados de TV, apaixonada por um marido tão incrível como o da heroína da novela das oito, eternamente jovem, como a estrela do cinema que aderiu ao botox, musculosa e flexível como a Madonna – rainha da exploração da própria imagem, mas que tem dado cada vez mais demonstrações de estar caminhando para uma vida normal, ao lado de um marido normal e de filhos normais. Afinal, até ela um dia “perderá seus encantos”, como se costumava dizer nos romances antigos. 

Imagem victim

Se você já sentiu os “sintomas” descritos acima, saiba que já pode ser considerada uma vítima do que os psicanalistas vêm chamando de “a era do narcisismo, ou a cultura das imagens e das sensações”. Ou seja, o que você é ou faz precisa ter uma imagem boa. O tempo todo você espera que os outros te aprovem. As coisas mais prosaicas, como um relacionamento legal, amigos que se preocupem com você, parecem não ter mais tanta importância. Nas próximas páginas, descubra o que mais os especialistas em avaliar cabeças e não só corpos têm a dizer sobre a cultura das imagens e como ela pode estar influenciando a sua vida.

Um dos efeitos de viver só de imagem é achar que não se pode envelhecer. Claro, uma imagem boa é sempre jovem. Até a dona de casa do comercial de margarina tem 20 e poucos anos. Para tentar manter-se jovem... O que fazer?

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Uma coisa é ser saudável. Outra é deixar de fazer coisas boas, de que você gosta, só para manter isso. E abdicar assim de vários prazeres. Exemplo: você faz ginástica todo santo dia às seis da manhã. Já tem uma massa muscular invejável e sua bunda está firme como uma rocha. Mesmo assim, você se auto-sabota. E deixa, às vezes, de sair no meio da semana só para não perder sua preciosa aula – responsável pela imagem física perfeita que você idealizou. A professora de ginástica Tatiana Rocco, de 28 anos, já chegou ao ponto de perder dias supostamente felizes na praia por se achar longe do modelo de perfeição que criou para si mesma. “Não tinha coragem de colocar biquíni. Hoje não faço mais isso. Sei que preciso pensar em outras coisas”, diz.

Masturbação sem orgasmo

“Toda a cultura de hoje fala em preservação. Só que para se preservar é preciso renunciar aos prazeres”, diz Contardo Calligaris. Ele explica que nada pode ser excessivo. “A vida de quem só pensa em se preservar é uma masturbação sem orgasmo, porque orgasmo cansa e dá olheiras”, nos assusta Contardo.

E por que essa vontade de ser jovenzinho para sempre? “Acreditamos hoje que dependemos estritamente da aparência física para sermos amadas, aceitas e bemsucedidas. Essa crença só pode nos apontar um destino funesto. Mesmo as mais belas e bem cuidadas um dia envelhecerão. Estaremos fadadas ao abandon e ao desprezo na velhice? Acho que todas as mulheres sofrem antecipadamente com medo desse momento”, observa a psicanalista Maria Rita Kehl.

Mas não há muito o que fazer praticamente nesse aspecto, certo? Querer ser jovem para sempre, como todo mundo sabe, é impossível (por mais botox que você use). O que fazer então se disso não dá para fugir? “As pessoas pararam de respeitar o ciclo da vida, que é saber que você tem o ápice da juventude, o familiar e o profissional, e depois envelhece e morre”, afirma o psiquiatra Alexandre Sadeeh, do Hospital das Clínicas. Ele vai além: “Tem gente que está enlouquecendo ao esquecer que o corpo tem um tempo”. Brecar a paranóia, ao menos na teoria, parece fácil. “É importante aceitar os limites do corpo”, diz Sadeeh. E vale lembrar aqui, na contramão da modernidade, que houve uma época, nos anos 60, em que Nelson Rodrigues dava o seguinte conselho para os jovens: envelheçam.

Sabe aquela sensação de que um belo dia o seu namorado vai acordar e descobrir que você é uma farsa? A designer paulistana Mila [o nome foi trocado a pedido dela], 33, solteira, caiu nesse truque: “Algumas vezes penso que se começasse a namorar uma pessoa ela ia perceber que eu não sou tudo aquilo, por exemplo, tem vezes que eu sou chata e mal-humorada”.

Mila, como muitas mulheres, pensava que qualquer homem ficaria assustado com suas “falhas de imagem” e, cedo ou tarde, jogaria na sua cara o “problema”. “É mais fácil manter a imagem de longe do que de perto. A proximidade dá medo, pois o outro vai perceber que você não é perfeito. Mas é claro, de perto ninguém é normal. Por isso o casamento se torna difícil. O que dá medo é o olhar do outro”, diz Contardo Calligaris, que completa dizendo que uma pessoa passando na rua tem uma imagem muito mais perfeita do que aquela que acorda ao seu lado todo dia.

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Para Maria Rita Kehl, o problema vai além do ter ou não ter namorado. “Não se trata de ser sozinho no sentido de não estar acasalado, ou não ter uma família, mas do fato de as pessoas se sentirem sozinhas mesmo diante de seu círculo mais íntimo de convivência, porque se oferecem umas às outras só no plano da imagem (corpo, sucesso etc.) e com isso não conseguem ter intimidade verdadeira com ninguém.”

Um bonde chamado desejo

Outro engano, segundo a psicanalista, é a gente achar que precisa estar maravilhosamente bonita para “conseguir um namorado”. “Pensamos que a perfeição física nos torna desejáveis: não é. O ‘objeto’ do desejo não é o que salta aos olhos; ao contrário, é o que se esconde, é um estilo, um olhar, um detalhe da personalidade. Isso não nos faz desejáveis para todos os homens, mas para um ou outro, poucos, ao longo da vida. Precisa mais? Quem não consegue ‘ser’ tudo isso talvez tenha mais sorte: se não pode confiar na sua aparência de outdoor, tem que confiar em seu poder de sedução, nos aspectos interessantes de sua personalidade etc. Acho que as mulheres que não têm a aparência de um cartaz publicitário têm mais chances de ser felizes no amor. Vão apostar menos na imagem e, talvez, sejam capazes de estabelecer relacionamentos mais consistentes.”

Até os homens – aqueles que muitas vezes têm barriga de chope, mas condenam a nossa – se sentem um pouco aprisionados pela “busca do corpo perfeito”. O videomaker e estudioso da mídia Carlos Nader, colunista da TRIP, acredita que “a mulher vive uma escravidão terrível: ela precisa ser bonita. Mas o homem vive outra escravidão: a gente se sente obrigado a só desejar mulheres bonitas, porque isso é o exigido culturalmente”.

Mas a pressão deles é bem menor que a nossa, não é, não? Além de ter que ser magra, jovem e portar um namorado bacana, a cultura narcisista exige também que você tenha estilo pessoal. É isso que vai fazer você ser aprovada. Ou seja, “você tem que se vestir igual a todo mundo, mas também tem que ser um pouco diferente porque o individualismo é muito prezado”, diz a psicóloga Ana Verônica Mautner. “A moda já foi muito mais imperativa. A questão é que hoje você tem que ter estilo, atitude”, diz Contardo. Em alguns casos, é o seu estilo que vai dizer de quem você “pode ser amigo”. E se você é popular. “Um individualista, muitas vezes, está tão interessado em seu estrelismo, em agradar a todos, que tenta ‘acertar’ todas as suas escolhas de acordo com um ‘Ibope’ imaginário, para manter sua suposta popularidade”, afirma Maria Rita Kehl. A designer Mila parou de fazer isso. “Um dia cansei de freqüentar os mesmos lugares que os meus amigos descolados. O que aconteceu? Fui deixada de lado por muitos.” Será que perder esses “amigos” fez falta?

Se imagem é tudo, a parte mais importante de você é o seu corpo. “A subjetividade está sendo substituída pela plástica do corpo”, afirma Jurandir Freire Costa. Os efeitos colaterais são muitos. A busca por um corpo perfeito, nos casos graves, pode levar a doenças como anorexia e bulimia. Mas pode se traduzir também em sentimentos ruins, como a frustração. “A cultura do narcisismo cria isso nas pessoas, que passam a vida perseguindo uma imagem que nunca vão encontrar”, detecta Calligaris.

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Vale lembrar, de novo, que ninguém aqui está falando que as pessoas não devem cuidar do corpo e abandonar correndo as academias. O problema é ficar só nisso e deixar de fazer outras coisas. “Hoje as pessoas saem do cinema e, em vez de conversar sobre o filme, fazem concurso de dieta”, exemplifica, um pouco revoltado, Jurandir.

Jogo do absurdo

As mulheres supermagras estão nos outdoors, na TV, nas revistas. “A moda tem um componente de humilhação muito grande. A modelo é alguém com uma imagem inatingível, que nenhuma mulher vai conseguir alcançar”, diz Carlos Nader. Para completar o cenário, a gente liga a TV e é bombardeado por situações desconexas, como mulheres magras anunciando coisas que engordam.“Vemos o tempo todo propagandas desse tipo na televisão. Por isso há muitas neuroses ligadas a esse conflito”, afirma a psicóloga Ana Verônica Mautner para quem as academias são “o grande engodo do corpo”.

“As pessoas malham para se sentir incluídas. Mas a academia é um ambiente em que você mal tem contato com o outro. É cada um em cima do seu aparelho. É o ápice do encontro do eu comigo mesmo.” Quem malha em excesso quer ficar sarado. Mas e depois? “As pessoas que se internam em academias ficam 24 horas por dia escravas da perspectiva de ser saudável. Mas a finalidade se perde. O único prazer passa a ser o de se cuidar em excesso”, afirma Contardo Calligaris. A consultora de vendas Angélica Silva, de 28 anos, é um exemplo disso. “Busco a perfeição. Ainda vejo uns defeitinhos no meu corpo. Mas é bom que aí eu posso continuar malhando.” Na contramão dessa rotina do culto ao “eu”, entram atividades que mexem tanto com a cabeça quanto com o corpo.

Na ioga, por exemplo, o corpo perfeito não é a finalidade do exercício. O objetivo da prática é chegar ao tão difundido equilíbrio entre mente e corpo. Já não está bom? O mesmo acontece com alguns tipos de dança, com o pilates e uma infinidade de outras práticas esportivas que começam (talvez como um reflexo da canseira do culto exclusivo do corpo perfeito) a ser inseridas em grandes academias de ginástica.

O que fazer para não ser uma “imagem victim”? Este não é um livro de auto-ajuda. Mas, se você pensar em ter relações de verdade com os outros e deixar de ficar pensando o tempo todo: “se eu fizer isso, o que será que vão pensar de mim?”, talvez seja um começo.

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A produtora de moda Ana Carolina Ferreira, de 24 anos, aceitou esse desafio. Há dois anos, entrou em depressão e engordou 16 quilos. Foi fazer terapia e descobriu que “o importante era respeitar os outros e ser respeitada”. “Cada um é de um jeito. A gente não pode julgar ninguém pela aparência, mas sim pelo que é”, diz Carol, que percebe olhares reprovadores ao seu peso, mas prefere “cuidar da cabeça e ficar bem para depois pensar em emagrecer”. O “respeito” pregado por Carol vai ao encontro do que dizem especialistas. “É importante que a gente passe a valorizar as diferenças, saiba que todo mundo não tem que ser igual. E vale a pena tentar olhar para si mesmo. Não se olhar no espelho, olhar para si mesmo de verdade, para ver o que você deseja e sente.” E também... olhe para o lado. E não só para falar mal da roupa daquela-perua-cafona-que-está-uns-quilos-acimado-peso-e-namora-um-homem-que-usa-pochete.

Créditos

* As declarações do psicanalista foram colhidas em palestra do evento “A vida nos tempos do cólera”, realizada em maio em São Paulo

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