por Isabella Lanave

Aos 54 anos, Tanoné é uma das 20 lideranças indígenas femininas no Brasil. Ela sabe de sua missão: "As mulheres estão tomando a frente"

Foi em meio às serras da Chapada dos Veadeiros que foi realizado no mês passado o Encontro de Culturas, evento que existe há 16 anos em Goiás e reúne diversos povos indígenas, quilombolas, pequenos produtores e artesãos do Brasil inteiro. Dentro do encontro, na 10ª edição do Aldeia Multiétnica, espaço de intercâmbio cultural entre indígenas e não-indígenas, uma única cacique mulher, entre as sete etnias presentes, acompanhava seu povo.

Seu nome é Ivanice Pires Tanoné, 54 anos, da tribo dos Kariri Xocó. Originalmente de Alagoas, ela vive com cerca de 70 pessoas de sua etnia em uma área conhecida como Terra Indígena do Bananal, no perímetro urbano de Brasília. Desde que chegaram, há quase 30 anos, Tanoné luta muito para conquistar um pedaço de terra para sua tribo. Por esse motivo, em 2005 foi escolhida para ser cacique — uma das poucas lideranças femininas indígenas do Brasil.

Segundo Tanoné, o caso ainda é raro — hoje são cerca de 20 mulheres indígenas caciques no Brasil – pois, para seus ancestrais, a mulher devia abaixar a cabeça para os homens. “Elas não podiam sair de casa sem o marido, que é quem manda em tudo”, diz, e arregala os olhos enquanto se corrige em voz alta: “Mandava!”.  "Agora, as mulheres tomaram a frente e eles [os caciques] estão muito brabos com a gente."

Tanoné conta que nas reuniões na tribo em que as lideranças femininas vão estar presentes os homens preferem não ir. "Eles dizem: 'eu não vou, não vou porque é uma vergonha. A mulher sabe mais do que eu?'"

Tanoné foi casada por 25 anos, mas afirma que agora seu compromisso é com seu povo. Não quer casar de novo para não ficar "suja", diz. "O homem traz bons momentos, mas também suja a carne e eu não quero viver na carne, quero viver no espírito. E pra viver no espírito você tem que renunciar àquilo que você mais gosta." Homem em sua vida, hoje, apenas como irmão, parente ou amigo. 

De vestido florido com shorts de lycra por baixo, cabelo amarrado, óculos na cara e brincos de pena, a cacique saudava todos os visitantes da Aldeia Multiétnica com um carinhoso “Bom dia, meu filho”. Enquanto isso, preparava o café com uma biju de leite condensado com coco, a famosa tapioca. Como a biju é pouca, a cacique pede para que esperem o momento de todos comerem juntos.

Mal termina de tomar o café, já começa os preparativos para o almoço. Sentada com uma bacia no colo, começa descascando as mandiocas. “Existe mais de um tipo de mandioca e elas são bem diferentes. Igual às mulheres e como o homem. Tem homens que são iguais aos animais, outros, iguais crianças. Eu gosto das crianças”, reflete.

Ser mãe é uma grande responsabilidade para a cacique. “Ou você ensina o caminho certo para seus filhos ou eles vão se perder", diz. Ao tocar no assunto, porém, fica nítido que, para ela, trazer uma criança indígena ao mundo hoje é sinônimo de sofrimento. "Sinto que o genocídio de 500 anos atrás está começando de novo", fala com lágrimas nos olhos. "Já tenho 18 netos, bisnetos, tataranetos e talvez eu não consiga mais ver eles nascerem. Choro porque é isso que carrego dentro de mim. A carne não é nada sem o espírito."

Para Tanoné, a cidade traz, em sua maioria, muita coisa ruim para os índios. "Estamos perdendo nossa cultura tribal para a mídia”, ela diz, ressaltando a importância de serem resistentes com suas crenças, língua, danças e rituais. "Os nossos parentes mais tradicionais tem uns 100 anos de contato com o homem branco, outros, 150. Mas ainda tem aqueles que nem são conhecidos: esses estão mais seguros do que nós!", garante.

Uma outra pessoa que acompanha a nossa conversa pergunta onde ela encontra colo quando está sozinha. "Meu colo é o grande espírito", ela diz. "Fujo pro mato, levo meu cachimbo, meu isqueiro e lá eu tenho o colo do pai, não preciso de mais colo nenhum. Esse é o grande espírito."

Créditos

Imagem principal: Isabella Lanave

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