por Karla Monteiro
Tpm #139

De atriz cult a musa da temporada aos 45 anos: ”acho que sou sexy, sim”

Nunca se falou tanto de Dira Paes quanto neste verão: aos 45 anos de idade e 30 de carreira, a paraense que já era reconhecida como uma das atrizes mais versáteis do cinema brasileiro virou o sex symbol da vez ao encarar cenas quentíssimas na série Amores roubados – nada que abale o estilo de vida pacato e o discurso politizado

Numa manhã de verão carioca, sufocante, molhado, desanimador, ela já fez ginástica e volta para casa pilotando o próprio barco. Mora numa casa que mais parece um sítio, numa ilha no canal da Barra da Tijuca. Chega toda cabrocha, brincando com os bichos do seu zoológico particular: cachorros, papagaios, tartarugas, pássaros. Adora animais e conta que a maioria adotou de amigos que por um motivo ou outro já não podiam cuidar. A casa é simples, aberta para um imenso jardim de árvores centenárias. “Moro aqui há 12 anos. Ter céu, árvore e sol foi a realização. Isso me mudou muito. A casa me deu disposição física. Nunca mais tive preguiça na vida”, diz.

Dira Paes é tudo que se pensa de Dira Paes: simpática, divertida, inteligente... E sexy. Depois das cenas de, digamos, tesão explícito com Cauã Reymond em Amores roubados, minissérie da Globo que foi ao ar em janeiro, ela deu o que falar. Quem viu, com certeza, ficou pensando naquilo. E a imprensa surfou no sucesso da personagem. Para Dira, o papel foi um “trunfo”. Consagrada por personagens populares – a Solineuza do seriado A diarista, a Norminha de Caminho das Índias e a Lucimar de Salve Jorge, ela esfregou Celeste na cara do público: “Eu não estava com o cabelo totalmente diferente. Não estava superproduzida. Mesmo assim o público leu a personagem como ele era: uma mulher rica”.

No cinema, Dira já é darling há mais de duas décadas. O primeiro filme foi aos 15 anos, em 1983, A floresta de esmeraldas, do inglês John Boorman. Em 1987 veio Ele, o boto, de Walter Lima Jr. Em 1996, o primeiro prêmio, o de melhor atriz no Festival de Brasília, com Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry. De lá para cá, fez filmes cultuados como Amarelo manga e Baixio das bestas, ambos de Cláudio Assis. E blockbusters como 2 filhos de Francisco, de Breno Silveira. Em 2014, estará em duas novas produções: Saias, de Gustavo Acioli, e Os amigos, de Lina Chamie. Em 2015, lança Órfãos do Eldorado, de Guilherme Coelho. O currículo de Dira é recheado, gordo: 31 filmes, 14 atuações na televisão, entre novelas, séries e seriados, e 24 prêmios.

Vestida com malha de ginástica, cabelo preso num coque suado, Dira anda pela casa berrando ordens a Jupiara, a sua Solineuza. Pede para servir uma água aqui, um café acolá, prender os cachorros. A casa está um pandemônio, com a equipe de produção das fotos ocupando a sala com araras de roupas e malas de maquiagem. Sem vergonha, Dira arranca a roupa, prova vestidos, desfila de um lado para o outro. É vaidosa. Olha-se no espelho faceira, com orgulho do corpinho manequim 38 que Deus lhe deu. Aos 45 anos, mãe de Inácio, 5 anos, casada há nove anos com o fotógrafo Pablo Baião, ela bem sabe o que é que Dira Paes tem. “Acho que sou sexy, sim. Naturalmente. Não faço esforço para isso.”

“Já fiz cenas muito contundentes em filmes como Amarelo manga, Baixio das bestas... As pessoas têm tabu com o nu”

Tpm. Vamos falar primeiro, obviamente, da Celeste de Amores roubados. Como foi fazer as célebres cenas com o Cauã?

Dira Paes. O Cauã é um bailarino. Fizemos um pas de deux. Ele me puxava, me jogava... Rolou um balé mesmo. E rolaram surpresas. Teve uma cena em que eu dei o rosto para ele me dar um beijo e ele me deu um tapa na cara. Abaixei a cabeça para pensar no que eu ia fazer depois daquele tapa. Levantei com um sorriso, uma safadeza. Foi maravilhoso trabalhar com o Cauã.

Você gosta de fazer cenas tão fortes? Não encaro como cenas fortes. Encaro como cenas. Se você coloca um peso, não rola. Já é um trabalho que exige desprendimento e tal. Parece blasé, mas não é. Eu poupo a minha energia. Energia eu tenho que ter na hora. Não dá para ir para uma cena com medo dela.

Não foi a primeira vez que você fez cenas assim. Não, já fiz cenas muito contundentes em filmes como Amarelo mangaBaixio das bestas. Quem conhece o cinema do Cláudio Assis sabe que já fiz coisas bem além. As pessoas têm tabu com o nu. O nu de uma atriz é, entre aspas, angelical. Você acha estranho anjo nu?

Como assim? Não era a Dira que estava ali. Era a Celeste. Sou totalmente diferente dela.

Você fez muitos papéis marcantes na sua carreira. Mas este colocou você num lugar especial, no lugar da grande atriz. Estou enganada? Eu vim da Lucimar, de Salve Jorge [personagem que era mãe da protagonista, vivida por Nanda Costa], que fez bastante sucesso também. Foi um personagem que eu preparei com o maior amor. Conheço as mães que eu estava representando. Todas as comunidades são feitas dessas mães. Mas eu acho que a Celeste rompeu a barreira dos personagens populares que ficaram na memória do grande público. Eu não estava com o cabelo totalmente diferente. Não estava superproduzida. Mesmo assim o público leu a personagem como ele era: uma mulher rica. Comprou. Aceitou. Isso foi o trunfo da Celeste para mim.

O teste da atriz Dira Paes, independente do tipo físico. É. E também acho que a Celeste fez sucesso porque era a mulher atrás dos seus desejos. A mulher que quer o casamento e quer a aventura sexual. A mulher que quer se entender dentro dessa nova organização, onde as questões de gênero estão ficando ultrapassadas. A Celeste faz parte da discussão da mulher contemporânea. Uma mulher indo atrás do perigo, indo atrás do sexo.

Você se acha sexy? Acho que sou sexy, sim. Naturalmente. Não faço esforço para isso. Tenho essa coisa da cabrocha. Olhos amendoados, zigomas salientes, como me disse uma vez um amigo poeta. Sabe o que é zigoma? Essa protuberância das bochechas, minha filha.

 

"A Celeste fez sucesso porque era a mulher atrás de seus desejos. Do perigo, do sexo"

 

Você nasceu em Belém? Eu nasci em Abaetetuba, que é a terra de onde vem a minha família. Traduzindo quer dizer terra de homem forte. Foi um nascimento atípico. Sou o sexto parto da minha mãe. Ela estava grávida de oito meses, já morava em Belém, e foi visitar a minha avó. Era um sábado quando começou a sentir as dores. Meu pai saiu correndo atrás da parteira.

Parteira? Parteira, claro. Ter filho não era um problema para as mulheres. Antigamente era normal parir, acredite se quiser. Hoje que virou anormal. Enfim... Meu pai saiu. Minha mãe, que no sexto filho já sabia das coisas, entendeu logo que não ia dar tempo. Pediu, então, para a minha prima de 16 anos, Fátima, bem assim: “Tu recebes o meu filho?”.

Que lindo, poético. Não é? Minha mãe falou para a minha prima: “Se vier cabelinho, está tudo bem. Se vier pezinho, temos problema”. Mamãe fez força e a Fátima fez uma cara de espanto, de susto. “É pezinho?”, minha mãe perguntou assustada. Fátima respondeu: “Não, é cabelinho”.

Em que dia você nasceu? 30 de junho de 1968. Não sei meu ascendente porque nem minha mãe nem minha prima sabem a que horas eu nasci.

Você teve uma infância selvagem, amazônica, livre? Essa é a ideia que eu faço de Belém. De jeito nenhum. Belém é uma metrópole. Extremamente voltada para uma cultura francesa, por conta da influência da belle époque. Minha infância foi urbana. Todo mundo pensa que Belém é selva. Só nas férias eu tinha esse contato com a natureza do entorno.

Aí você virava a indiazinha? Sim, era praia de rio, igarapés, Amazônia mesmo. Aprendi a nadar em igarapé. A natureza é muito potente no Pará. Belém é uma cidade envolta por duas baías, cercada por mais de 50 ilhas habitadas. Eu tenho uma ligação muito grande com a minha terra, com tudo que ela representa. É o que eu chamo de Brasil primeiro, Brasil da descoberta.

Na infância você já tinha algum desejo de ser atriz? Tenho irmãos mais velhos, né? A diferença de mim para a minha irmã mais velha é de 12 anos. E aí veio uma escadinha. Minha irmã era a primeira aluna de medicina. Meu irmão passou no vestibular em segundo lugar para engenharia civil. Outro irmão foi para a engenharia elétrica. Depois veio assistente social, músico e eu, que queria ser engenheira também. Eu me formei em inglês com 15 anos.

Engenharia? É, eu queria ser igual ao meu irmão. Mas aí um dia um professor me disse que a Embassy Pictures estava filmando em Belém e procurava uma menina com o meu tipo físico. Fiquei com aquilo na cabeça.

Mas o seu tipo físico é o de todas as meninas daquela região, não? Então... Cheguei lá com a minha irmã e encontrei 300 Diras. O diretor fez uma seleção visual primeiro, não sei como. Depois entrevistas. O Flávio Tambellini era o primeiro assistente e estava ali para traduzir. Só que eu falava inglês. Antes de o Flávio traduzir já saí respondendo. Mandei logo um “Diura”, com sotaque americano. O diretor gostou e me mandou para um teste de vídeo.

Quantos anos você tinha? Ia fazer 15 anos.

Qual era o filme? The emerald forest [A floresta de esmeraldas] e o diretor era o John Boorman. Depois do teste de vídeo, ele me falou: “Você está no filme”. Mas eu ainda tinha que pedir para os meus pais e tal.

Qual foi a reação dos seus pais? Lembro-me da frase do meu pai: “Você vai aguentar os seus colegas da escola depois?”. Era papel de índia, né?

E sua mãe? Minha mãe veio comigo para o Rio de Janeiro. Fizemos a preparação aqui e filmamos dois meses em Paraty e um mês em Belém. Minha mãe era uma mulher superarticulada. As pessoas fazem uma ideia errada de quem vem do Pará. Essa coisa humilde, sem educação, sem cultura... Eu preciso quebrar com isso. Não é nada disso. Estudei no melhor colégio, tive uma formação intelectual sólida.

O norte do Brasil carrega esse estereótipo. É. Se você vem de Curitiba, ninguém pensa isso. Se vem do norte, logo acham que você saiu de lá com uma matulinha, num pau de arara. Isso é muito equivocado.

Foi a sua primeira vez no Rio? Não, segunda. Ficamos hospedadas quatro meses no Copacabana Palace. O filme fez muito sucesso na França, foi para Cannes.

Você decidiu ser atriz a partir daí? Eu me senti em casa naquele habitat. Mas ainda não tinha a consciência da atriz. Gostei da aventura, do estilo de vida.

Você voltou para Belém para estudar, seguir sua vida? Sim, tinha perdido o ano no colégio e precisava recuperar. O filme estreou, foi uma farra, foi maravilhoso. Para mim, aquilo tinha esgotado ali. Mal sabia que eu tinha encontrado o meu caminho de vida.

E como você tomou consciência desse caminho? Fiz vestibular para bacharelado em física. Queria que os meus pais soubessem que eu era capaz. Mas eu já sabia que não ia fazer faculdade. Decidi ao longo do ano, com muita reflexão interna, morar no Rio.

Como foi a chegada ao Rio? Rolou uma coincidência maravilhosa. Minha irmã médica veio fazer um curso aqui no mesmo ano. Então tive uma estrutura familiar. Fomos morar em Copacabana. E eu fui para a Casa das Artes de Laranjeiras, a CAL.

Você caiu nas graças do cinema nacional bem rápido. Sim, meu primeiro filme brasileiro foi Ele, o boto, de 1987, dirigido pelo Walter Lima Júnior.


"Se você vem do norte, acham que você saiu de lá com uma matulinha, num pau de arara. É muito equivocado"


Você queria fazer televisão? Eu queria ser atriz. Não tinha uma aspiração novelesca. Nunca fui deslumbrada com televisão. Tive um encaminhamento natural para o cinema. Isso me fez muito bem, até o final da Embrafilme [empresa estatal que produziu filmes brasileiros entre 1969 e 1990, quando foi extinta]. Quando o cinema deu essa parada, eu pensei: e agora?

Quantos filmes você tinha feito até aí? Acho que fiz uns 12 filmes.

Você ficou sem trabalho? Aproveitei o hiato para fazer faculdade, bacharelado em artes cênicas, na UniRio. E também fiz Aliança Francesa. Não ficava parada. Fiz todos os cursos que eu tinha vontade de fazer. A formação acadêmica foi definitiva para a minha personalidade. Um teste de quem é você. Você quer mesmo esta profissão? Então rala aqui quatro anos para ver se é isso mesmo. Absorvi o curso de maneira muito profunda.

Você se formou já na retomada do cinema nacional. É. A retomada foi em 1994. Fiz Corisco e Dadá, fiz uma novela da Globo, o remake de Irmãos Coragem, e, em 1995, ganhei o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília. A retomada me trouxe muitos filmes importantes e contundentes. Trabalhei muito, trabalho muito.

E a TV, como entra nesta história? Em 2004, fui fazer um piloto da série A diarista. O piloto era da Glória Perez. Ela é um pé de coelho na minha vida.

Plim! Sucesso. Sim. A diarista ficou no ar três anos. Nessa época, fiz também 2 filhos de Francisco, outro estouro. As pessoas puderam perceber a atriz nos seus dois polos, na comédia e no drama. Isso foi muito bom para mim.

Outro grande sucesso foi a Norminha, da novela Caminho das Índias. Você faz muito bem o papel de mulher fogosa. Seu tipo físico influenciou muito os papéis que você fez? Eu sou cabocla, tenho essa mistura amazônica, sim. Mas acho que não. Acho que os papéis vieram por causa da atriz, não por causa do tipo físico.

Você prefere fazer humor ou drama? Humor é bem mais difícil. No humor, você tem que ter um balacobaco, um telecoteco a mais. Exige muito mais concentração.

E este lugar? Sua casa é uma casa de campo dentro do Rio de Janeiro. Por que a opção de morar tão isolada? Vim para cá há 12 anos. Eu morava em Botafogo e comecei a sentir necessidade de sol na minha vida. Só que eu não tinha grana para investir numa casa na zona sul. O [ator] Roberto Bontempo, então, me falou que morava numa ilha na Barra da Tijuca. Fiquei curiosa, vim visitá-lo e me apaixonei. Vendi meu apartamento em cinco dias e comprei aqui. Não tive dúvidas, só certezas.

O que mais chamou sua atenção? As árvores: caramboleira, mangueira, jabuticabeira, coqueiros de 60 anos. É um privilégio. Ter céu, árvore e sol foi a realização. Isso me mudou muito. A casa me deu disposição física. Nunca mais tive preguiça na vida.

Você ama bichos? Amo. Esta casa sempre teve bichos. Tenho muitos bichos que ganhei de vizinhos, herdados, entre eles uma tartaruga de 40 anos, a Betinha. Depois ganhei outra tartaruga, a Tatá. Um dia eu vi a Betinha em cima da Tatá. Betinha não era Betinha, afinal. Por isso acho que as questões de gênero estão ultrapassadas, temos que romper com isso imediatamente [gargalha].

Você nunca gostou de balada, de vida urbana? Sou uma pessoa de amigos. Em 2000, fizemos uma reunião de atores que queriam se reciclar, a Refinaria de Atores. Contratamos a Camila Amado para aulas de teatro. O Roberto Machado, para aulas de filosofia. O Lucas Ciavatta, que deu curso de ritmo. E o Amir Haddad, que deu teatro livre. Alugamos uma casa em Santa Teresa e fizemos isso durante dois anos. Dessa experiência tenho amigos que eu chamo de os amigos completos. Nunca fui da balada. Mas essas pessoas se tornaram a minha turma, a gente se frequenta.

Você engravidou com 38 anos, uma idade em que a mulher está com o relógio biológico em frenesi. Você queria muito ser mãe? Reencontrei o Pablo [Baião, fotógrafo] em um set, em 2005. Vamos fazer nove anos de casados. Desejei ter filhos antes, mas não era uma questão. Era um desejo não realizado. Com o Pablo aconteceu naturalmente. O sangue só cruza quando tem que cruzar.

Como aconteceu naturalmente ? Vocês não planejaram? Não, aconteceu naturalmente mesmo. Descobri em Belém. Tinha passado uma semana na Ilha de Marajó. Lá na ilha senti uma coisa mais elevada. Quando cheguei a Belém, falei com minha irmã mais velha: “Mana, estou desconfiada de que estou grávida”. Ela me levou a uma colega dela, também médica. E, quando ligamos para saber o resultado, a moça disse: “Parabéns”. Só isso. Eu me lembro dos gritos, da choradeira na minha casa.

O que mudou com a maternidade? Tudo. Mudou muito para melhor. Tenho um ganho natural de dez anos de vida por causa do nascimento do Inácio. Rejuvenesci a minha alma. O Inácio trouxe outro objetivo, outra parada. E meu cabelo ficou melhor, minha pele ficou melhor. Só ganhei.

Qual foi o momento mais difícil da sua vida? A morte da minha sobrinha [em 1992] e a morte do meu pai [em 2012]. A perda das pessoas que você ama... A sensação que vem depois do luto... Você tem que entender de novo a sua história sem aquelas referências. Família tem uma força muito grande para mim. Eu me arrependo de não ter largado tudo e não ter ficado com a minha irmã quando minha sobrinha morreu. Ela morreu quando eu tinha 23 anos.

Você tem um belo altar no jardim. Você é muito católica? Minha mãe é muito católica. O que eu gosto é dos santos. Os santos existem. Eu acho que santo é aquela pessoa que abre mão de si para fazer o bem sem ver a quem. Amor incondicional, altruísmo. Não entendo hoje a sociedade sem o terceiro setor, por exemplo. Sem essas pessoas que colaboram com o Estado.

Mas por que Nossa Senhora Aparecida? Vi a imagem no centro do seu altar. Minha mãe teve sete filhos. E dizia que não podia dar conta de todos, que tínhamos que ter nosso advogado. Minha advogada, como sou a pretinha da família, é a Nossa Senhora Aparecida.

 

"Precisamos parar com essa bobagem de tachar as pessoas politicamente ativas de engajadas, ecochatas etc. Odeio quem diz que não gosta de falar de política"

 

Você falou de terceiro setor, de engajamento. Você acompanhou as manifestações de junho do ano passado? Claro. O povo clamou por mudanças fundamentais: reforma política, reforma agrária, reforma do legislativo... O que estava se falando ali é que o brasileiro não aguenta mais corrupção. Corrupção é crime hediondo. Eu, sinceramente, acho que precisamos ficar cada vez mais alertas. E, principalmente, precisamos parar com essa bobagem de tachar as pessoas politicamente ativas de engajadas, de ecochatas etc. Odeio gente que diz que não gosta de falar de política. Gosta de falar de que, então?

Você votou no PT? Eu votei no PT. Mas nunca votei por partido. Já votei no PT, no PSOL, no PV. Já tenho todos os meus candidatos para as próximas eleições. Eu os conheço pessoalmente, dou palpite. Não vou declarar voto aqui porque não quero influenciar ninguém. Mas posso falar quem eu admiro. Tenho uma profunda admiração pela política do Marcelo Freixo, do Chico Alencar, do Jean Willys. Se existissem uns dez desses, estaríamos bem.

Maconha é o assunto do momento. Qual a sua posição? Sou a favor da liberação das drogas, de todas as drogas. Pelo menos acabaria com as prisões superlotadas. Acho uma hipocrisia as cadeias brasileiras. Se fizermos um paralelo entre cadeia e organização social do país, vemos que é a mesma coisa.

Você é militante, faz algum trabalho social? Sim. Há dez anos fundamos o Movimento Humanos Direitos. Damos visibilidade a causas ligadas aos direitos humanos, principalmente trabalho escravo. Não acredito na evolução sem terceiro setor. ONG virou uma coisa pejorativa, isso é absurdo. Ninguém pode exigir sem fazer nada. Com a internet, aliás, acabou a desculpa da falta de tempo. A coisa que mais fazemos no Humanos Direitos é mandar cartas. Quem não pode escrever um e-mail?

Você tem tempo para tudo, parece. Tudo. Preguiça não é comigo.

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