por Milly Lacombe
Tpm #146

Ela conta aqui como sua imagem foi formada e reflete sobre o prazer feminino e sexualidade

A Deborah Secco de verdade deu seu primeiro beijo na boca em cena e se insinuou nua para as câmeras, e para o Brasil, antes de perder a virgindade. Há mais de duas décadas alternando papéis cômicos, trágicos e altamente libidinosos no cinema e na TV, Deborah conta aqui como sua imagem foi formada, reflete sobre o prazer feminino e sexualidade e garante: “Na minha família a bonita sempre foi minha irmã”



Ela se lembra com alguma dor da primeira vez que teve que tirar a roupa em cena. Aos 18 anos, dirigida por Daniel Filho em Suave veneno, estava no camarim quando o diretor bateu na porta: “Vai para o estúdio só de roupão e sem calcinha”. “Como assim?”, ela pensou, “isso não está no roteiro.” Andando para o estúdio, achou que ia desmaiar de nervoso. Chegando ao local da gravação soube que teria que ficar completamente nua, de costas para a câmera, e então se virar e, andando lentamente, engatinhar sobre o corpo de Jairo Matos, seu parceiro na cena, que estava deitado em uma cama. Em seguida, deveria se sentar sobre ele e parecer feliz, excitada e pronta para se entregar. Quando ouviu “gravando” deixou o roupão cair e, de costas para a câmera, começou a chorar.

Aos 34 anos, Deborah Secco conta o episódio e deixa escapar uma certa aflição, embora consiga rir e dizer que no dia seguinte à cena estava, por recomendação de Daniel Filho, na terapia. Anos mais tarde, ela interpretaria uma das personagens sexualmente mais livres do cinema brasileiro (Bruna Surfistinha) e posaria duas vezes para a Playboy – a primeira delas meses depois de gravar a cena acima. Ainda assim, o ato de tirar a roupa em público continua acompanhado de uma certa hiperventilação.

Filha de um professor de matemática e de uma dona de casa, Deborah nasceu e cresceu em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Quando tinha quase 2 anos, sua irmã três anos mais velha, Ana, morreu enquanto dormia, e a vida de Deborah mudou para sempre. Desde então passou a ser tratada como uma menina de cristal, enquanto os irmãos mais velhos – Ricardo e Barbara – podiam sair, correr e brincar. O medo de que a caçula pudesse deixá-los fez com que ela crescesse em uma bolha. Para piorar, desenvolveu uma série de estranhas alergias, como à água do mar e a mercúrio, e algumas vezes teve que ser levada ao pronto-socorro com a glote já fechando.

Diante de tantas restrições não havia muito a fazer a não ser aprender a brincar sozinha. Antes dos 5 anos já havia desenvolvido algumas técnicas e uma certa fixação por fingir que era outras pessoas e vivia outras vidas. Descobriu que possuía um assombroso talento para chorar e passou a fazer isso para convencer a mãe que tinha, por exemplo, quebrado um braço brincando no quarto. Mais de uma vez, o médico, depois de examinar e radiografar, explicava que não havia encontrado nada errado, mas que diante de tanta dor e de tanto choro achava melhor imobilizar. Na escola, começou a contar histórias sobre uma vida que não era a dela. Para os amigos dizia que era de uma família muito rica que, perseguida na zona sul, teve que se mudar para Jacarepaguá e levar uma vida humilde. Para a diretora da escola disse que a mãe tinha uma doença terminal e morreria em breve. Assustada, a diretora chamou a mãe e perguntou se havia
alguma coisa que pudessem fazer para ajudar. “Me ajudar?”, quis saber a mãe. “Sim. Estamos sabendo da sua doença.”

 

"Eu cresci escutanto: 'A Deborah não pode fazer isso, ela é doente'. Foram anos de análise para descobrir que eu sou uma pessoa corajosa, forte e capaz"

 

Pela casa dizia que seria uma atriz famosa. Jogando adedanha (stop para paulistas) com a irmã, quando o tema era ator/atriz com a letra Descrevia sempre Deborah Secco. A irmã ficava uma fera, dizia que ela não era atriz, muito menos famosa, e Deborah repetia: “Você vai ver como antes dos 25 anos vou ser estrela na novela das 8”. Contratada pela Globo desde 1996, já fez uma dúzia de novelas e seriados, alguns filmes e peças de teatro, e é hoje uma das mulheres mais sensuais da arte dramática no Brasil. Prestes a estrear Boa sorte, filme de Carolina Jabor e Jorge Furtado no qual interpreta uma soropositiva viciada em drogas, Deborah falou com a reportagem da Tpm sobre a infância de menina doente, sobre morte, vida, fama e, claro, sobre nudez, corpo e prazer.

Tpm Como era tratado o sexo na casa de seus pais: era tabu ou falava-se sobre isso?
Deborah Secco Eu cresci numa família tradicional que contava a história da sementinha. Fui começar a entender o que era isso na adolescência, que hoje começa mais cedo, acho que com 12, 13 anos, mas que para mim bateu bem mais tarde. Para você ter uma ideia dei meu primeiro beijo em cena e não na vida real.

Em quem? No André Gonçalves. Eu lembro de dizer: “André, me beija de língua porque como é meu primeiro beijo eu não quero errar quando for de verdade”. Meu medo era na hora que fosse de verdade eu dar um beijo técnico achando que aquele era o beijo certo. Então eu disse: “Me beija de verdade pra eu saber como é”.

Que enorme sacrifício para o André. Eu era megamenina, feia, toda desajeitada... Mas minha mãe sempre foi muito aberta pra conversar disso com a gente, o meu ginecologista é meu tio, primo do meu pai, então sempre fui orientada. Mas eu só fui entender sexo e sexualidade depois da Deborah artista. Virei mulher na televisão antes de virar mulher na minha vida.

Como assim? Em Suave veneno eu tinha que fazer uma cena dançando supersensualmente, e quando o Daniel [Filho] me chamou pra fazer essa personagem eu falei: “Mas eu sou feia, eu sou feia”, e ele falou: “Você é dona de uma sensualidade que você desconhece e exatamente isso é sensual em você”. Um dia tive que fazer uma cena e dançar supersensual em cima de uma mesa. Eu não consegui, e ele cancelou a gravação dizendo para todo mundo: “Vou cancelar a gravação porque a atriz não consegue fazer a cena”. Voltei pra casa chorando e pela primeira vez pensei em desistir, foi a única vez.

Quantos anos você tinha? Dezoito. Eu falava: “Mãe, eu não quero, isso me faz mal, eu não sei o que é isso”. Eu desconhecia a sedução, a sexualidade. Perdi a virgindade depois disso, então eu ainda estava engatinhando e eles queriam que eu fosse uma mulher caçadora de homem; eu não tinha essa maturidade.

Você não tinha nenhum repertório? Nenhum. No dia seguinte fui fazer a cena outra vez e o Ricardo Waddington, que também dirigia a novela, disse que tudo aquilo estava acontecendo porque em Confissões de adolescente eu e o Daniel tivemos um desentendimento. Coisa boba: escolhi fazer novela das 8 e saí de Confissões, e a gente brigou. O Daniel resolveu me perdoar me chamando para Suave veneno, mas nesse dia o Ricardo foi lá no camarim e falou: “Isso é vingança, Deborah” [risos]. Aquilo me deu uma raiva… e fui fazer a cena com essa raiva, daí rolou.

E depois? No dia seguinte foi minha primeira cena nua, e nem sabia que teria que ficar nua. Eu estava no camarim, o Daniel entrou e falou: “Pode ir para o estúdio sem calcinha, vai de roupão”. Eu tremia dos pés à cabeça. Comecei a lembrar que com 13 anos tive que fazer uma cena só de sutiã e foi um drama, demorou o dia inteiro para eu conseguir, passei dois dias sem dormir achando que minha vida tinha acabado. E em Suave veneno era uma cena em que eu abria a cortina nua, virava, ia engatinhando em cima do Jairo Matos e sentava em cima dele. Eu falei: “Não vou fazer.Não consigo” [risos].

 

"Virei um sex symbol, só que não sabia nem fazer amor"

 

Você fez? Não tinha jeito. Mas eu abria a cortina e começava a chorar, abria a cortina e chorava, e nisso a gente demorou 2 horas. O Daniel tirou todo mundo do estúdio e falou: “Deborah, como atriz você não pode ser maior do que a personagem. Você tem que vencer seus limites, deixar a Deborah no camarim. E eu já vi você de sutiã, não tem nada de mais, nem é tudo isso” [risos]. E ele me explicou que o pudor era meu e não da personagem e que eu não podia deixar vazar para a personagem. Foram mais de 2 horas de choro e papo e depois ele me convenceu a fazer análise. E foi ainda mais doloroso porque a cena nua virou a chamada da novela. Ou seja, ali eu virei um sex symbol, só que eu não sabia nem fazer amor. Como é que podia?

Você se achava bonita? Me achava feia, então não fazia sentido. E as pessoas me convidavam pra fazer revistas, posar nua. Na minha família a bonita sempre foi minha irmã; ela tem 1,76, eu tenho 1,64, ela tem olho verde, eu não, ela tem peitão, eu não… tanto que a minha analista falou: “Vai botar silicone porque isso virou um problema pra você maior do que a relação com sua irmã” [risos].

Aí veio a PlayboyPor causa dessa novela, e acho que por causa dessa cena. Eu era uma menina de classe média baixa, ninguém na família era artista, ninguém tinha o menor conhecimento para tudo aquilo. O Daniel foi a pessoa que me ajudou nesse momento.

Isso libertou você, sexualmente falando? Esses personagens me ajudaram a entender um pouco a coisa toda. Não precisei viver coisas porque minhas personagens viveram por mim. Ainda não é fácil ficar nua na frente de uma equipe, não é agradável tirar a calcinha, isso ainda me dá um arrepio, ainda me deixa insegura, ainda me faz parar e respirar e pensar: “Você não está aqui. Essa não é você, essa é a Bruna”. Comecei a aprender que as personagens me libertariam de limitações, e me possibilitaram viver coisas que eu não me permitiria viver antes delas, e com isso quebrar tabus.

Que tipo de criança você foi? Caseira. A gente morava no que era para mim uma casa enorme, com árvores, piscina… Meu irmão tinha o sonho de ser nadador, e a minha mãe levava ele às 4h30 da manhã para a aula de natação, depois levava a gente para o colégio, no balé. Lembro que fui gravar um Faustão com o Gustavo Borges e ele olhou pro meu irmão e falou: “Você é o Ricardo Fialho? Caraca, sou seu fã”. Aí eu olhei pro meu irmão e falei: “Ricardo, por que que você parou, cara? Você era o ídolo do Gustavo Borges!”. Mas ele cansou, e hoje é paizão.

E sua mãe incentivava esses sonhos? Tive uma irmã mais velha que morreu quando tinha cinco anos e eu, um ano e meio. Foi um erro médico, ela teve alergia a um antibiótico. O médico não quis fazer logo a traqueostomia. Eu cresci ouvindo minha mãe dizer: “Realizem seus sonhos, não deixem pra amanhã”.

Deve ser estranho viver essa ausência tão presente. E o mais louco é que eu vim logo depois dela e sou muito parecida. Teve vezes que a produção da novela pedia foto minha pequena e minha mãe mandava foto da Ana achando que era eu. Acabei ficando no quarto da Ana, usando as roupas da Ana, dormindo na cama da Ana… A gente não tinha dinheiro pra jogar tudo fora e comprar tudo novo então teve que ser assim, e rolou essa supertransferência.

E como isso se manifestava no dia a dia? Eu cresci escutando: “A Deborah não pode fazer isso porque a Deborah é doente”, “a Deborah não pode comer isso porque a Deborah passa mal”, “a Deborah é fraquinha”… foram anos de análise pra descobrir que eu sou uma pessoa corajosa, forte, capaz.

Deborah de cristal. Para piorar eu nasci alérgica. Um dia na praia eu entrei no mar e comecei a empolar inteira, fiquei sem respirar e toca para o hospital. Teve a vez que eu lotei meu corpo de mercúrio cromo para fingir que estava toda machucada e testar meu poder de convencimento sobre meus pais e deu outra reação alérgica e a glote foi fechando. Tudo isso colaborou para a imagem de fraquinha. Em Confissões de adolescente [seriado que foi ao ar pela TV Cultura no começo dos anos 90 ] eu tinha que jogar futebol e o dublê era minha irmã porque eu não sabia fazer nada. Um dia o Daniel [Filho, que dirigiu a série] gritou: “Pelo amor de Deus, deixa a Deborah fazer um gol, ninguém fica na frente dela”, e mesmo assim eu não consegui.

Como assim você se encheu de mercúrio para testar seu poder de convencimento? Eu digo que não sei quando virei atriz porque nasci atriz. E sempre tive muita facilidade para decorar. No inglês me passavam de nível antes de eu aprender porque eu decorava o livro, aprendia a pronunciar e enganava os professores. Hoje meus irmão falam fluentemente e eu não sei falar nada [risos].

Quando você entendeu que tinha esses talentos? Nunca tive amigos, sempre brinquei de interpretar coisas sozinha. Tinha dias que eu dizia: “Hoje vou chegar no colégio e falar que eu sou filha de pessoas muito ricas, mas que estão com medo da violência e por isso vieram morar nesse bairro mais tranquilo”.

Ser atriz era um sonho? Quando brincava de adedanha e tinha “atriz com d” eu escrevia Deborah Secco. Minha irmã falava: “Você não é atriz!”. Eu dizia: “Nenhuma regra da adedanha fala que só vale ator famoso, e eu sou atriz porque nasci atriz!”.

No Boa sorte (filme que estreia em outubro) você interpreta uma mulher com Aids que tem que encarar a morte. Você pensa na morte? Com o filme eu descobri minha finitude, acho que foi o primeiro contato com o meu fim. A gente vive como se não soubesse que vai morrer e eu vivia assim. Aí, na época das filmagens, comecei a listar o que eu queria fazer antes de morrer. Fui a um hospital de crianças terminais, conversei com elas e elas me mostraram que, assim como elas, eu também não tenho como saber quanto ainda vou viver. Elas têm razão.

O que mudou em você? Uma das meninas me falou: “Se arrepende menos do passado e deseja menos o futuro”. E comecei a pensar assim.

Como foi se preparar para viver um personagem com Aids? Eu procurei o doutor David Uip, que hoje é secretário de Saúde de São Paulo e que foi o primeiro infectologista a descobrir um caso de Aids no Brasil. Expliquei a ele sobre o filme, disse que não queria tratar o assunto com irresponsabilidade e pedi que ele me ajudasse. Uma das coisas que ele me disse foi que, na hora que ele dava a notícia de que um paciente tinha Aids, era supercomum detectar neles uma serenidade, um tipo muito específico de força.


E viver uma prostituta em Bruna SurfistinhaTive muita dúvida se devia fazer esse filme. O Marcus [Baldini, diretor] achava que eu era muito midiática para o papel, e ele tinha razão. E eu não sabia se seria uma boa para minha carreira. Então liguei para todas as pessoas em quem confiava: Guel [Arraes], Jorge Furtado, Daniel Filho, e todos: “Não faz, não faz, não faz”. Minha mãe: “Não faz”. O Roger [Flores, ex-jogador de futebol e marido na época]: “Não faz”. Mas alguma coisa dentro de mim dizia: “Faz”.

E como você convenceu o Baldini? Marquei uma reunião em casa e recebi ele e o produtor fazendo o papel da Bruna. No final ele disse: “Cara, é você. Juro que não queria, mas agora tô te olhando e é você”. E a gente fez uma parceria incrível, ele é sensacional. A gente conversava sobre as cenas e ele teve a grandiosidade e a generosidade de entender que se era para me entregar eu precisava ter essa confiança, ver o corte etc. Vou ser fã do Baldini até o fim da vida.

Teve que emagrecer para o papel? Eu tinha acabado de casar [com o Roger] e estava muito magra. Me disseram: “Nessa mulher magra ninguém paga nem um real” [risos]. Então engordei 8 quilos.

“Fiquei tão magra para viver a Judite, em Boa sorte, que meu porteiro dizia: ‘Me diz o nome dessa doença para eu colocar na lista lá na igreja’”

Como se sentiu? Ótima! Eu sei que não sou esse corpo, e sei que não vou ser bonita para sempre. Aliás,
tenho planos de ficar bem enrugada e velhinha e careca, porque a família é toda careca. As pessoas dizem: “Ah, falar isso é fácil porque você tem esse corpão”. Mas não é isso. Para fazer o Boa sorte eu perdi 11 quilos, fiquei horrorosa. Meu porteiro dizia: “Me diz o nome dessa doença para eu colocar na lista lá na igreja”. Depois tive que me preparar para outro papel e engordei 14 quilos a mais do que o meu peso normal.

E continuou numa boa? Então… Fui fazer um Vídeo show e logo depois de ir ao ar começaram a subir a hashtag no Twitter e no Facebook #deborahgorda. Virou trendtopic, as pessoas diziam: “A carreira dela acabou”, “essa não faz mais nada”. E eu estava me sentindo bem, estava feliz. Mas aí começaram a me dizer que eu não podia estar bem porque estava gorda. Como assim? As pessoas acabam convencendo você disso. Eu emagreço e engordo pelos papéis. Sozinha não faria regime e acho que ficaria gordinha e feliz, mas têm os trabalhos e o mundo impondo mil regras. Nessa profissão engordar ou emagrecer é moleza, difícil é encontrar o personagem emocionalmente, mas disso ninguém fala e ninguém dá valor.

E tantas exposições, tantos nus, tantas cenas que valorizam o prazer do homem e não o da mulher. O que você acha disso? Acho que a gente poder contar a história da Bruna é um alerta para as mulheres. Uma coisa que diz: “Não se permitam isso”, sabe? Quem viu o filme talvez tenha entendido que não precisava fazer sexo por obrigação ou ter que passar por situações só para agradar o namorado.

Talvez, mas ainda tem o cara que deixa a mulher em casa e vai para o puteiro. Enquanto me preparava para fazer a Bruna conheci um cara fofinho e vi que ele usava aliança. Cheguei nele e perguntei: “Por que você tá aqui [no puteiro]?”. E ele: “Para não trair minha mulher”. E eu: “Mas você tá traindo”. “Claro que não! Seria trair se eu anotasse o telefone de uma menina na rua, marcasse de ir a um motel… isso aqui não é trair.” Aí ele me disse que saía do trabalho estressado e precisava relaxar antes de ir para casa. Ele acreditava que fazendo isso poderia dar à mulher o que ela merecia e, assim, conseguia não bater nela. Oi? Perguntei: “Mas você não consegue viver sem bater nela?”. E ele: “Deveria, mas ainda não consigo”.

Você acha que o cinema foca mais no prazer masculino? Acho que não. Lembro de cenas de sexo com prazer feminino. Titanic, por exemplo. A mão da Kate Winslet no vidro embaçado… tem alguns momentos no cinema em que a mulher foi superbem servida [risos]. Essa mão no vidro simboliza tudo: é você saindo do corpo, e o orgasmo é uma quase morte. Você para de sentir tudo e depois volta.

Mas ainda tem muita mulher que nunca gozou. Quando comecei a entender o que era o orgasmo eu ia ao ginecologista e falava: “Não consigo ter orgasmo com penetração”. Demorei para entender como fazer.
Mas eu não aceitava não ter o orgasmo. Pensava: “Mas, gente, cadê esse negócio que não acontece?”. Então, se tem mulher que não está conseguindo, tem que ir atrás, tem que encontrar essa felicidade. Porque eu acho que nenhum homem é completamente feliz sem dar prazer à mulher que ele ama.

Como você se refere a sua vagina? Nunca chamei de nome nenhum. Quando era criança minha mãe falava “limpar a pepeca”. Depois comecei a falar “vou fazer higienização íntima”. Boceta eu não falo. Acho feio. Vagina é uma palavra complexa, são muitas sílabas se comparar com cu [risos].

Você quer casar, ter filhos, família? Se eu te falar que não quero é mentira. Sempre sonhei com a família almoçando domingo numa mesa grande. Mas se não der certo não deu. Hoje eu sei que isso aí só vale se for de verdade. Não vou fingir só para cumprir o que acham que é uma obrigação social.

“Ainda não é fácil ficar nua na frente de uma equipe, tirar a calcinha. Me faz respirar e pensar: ‘Você não está aqui. Essa não é você’”

 

Você se dá bem com seus ex? (Deborah foi casada com o diretor Rogério Gomes e com Roger Flores. Também namorou o vocalista Marcelo Falcão e os atores Marcelo Faria, Dado Dolabella e Erik Marmo). Não tenho mais contato com eles, mas gosto demais de todos, e todos me deram muitas coisas boas e me ajudaram a ser quem eu sou. Deve ser muito louco odiar quem você um dia amou.

Como é mudar de ambiente: namorar boleiro, cantor… Me fascinam esses universos que não conheço. No primeiro ano com o Roger eu fui para todo canto, mas depois eu dizia: “Esse jogo sim, esse jogo não”, “nesse jogo eu vou ser xingada, melhor não ir”. A mesma coisa com o Falcão: ia a alguns shows e não a outros. Fui para o Catar porque o Roger estava jogando lá, pirei lá. Entendi as roupas, entendi que era uma coisa para representar igualdade social, que os homens também andam igual, e achei isso o máximo. Com o Roger, quando o time perdia, a gente não podia sair de casa por três dias. E eu não conseguia ver ele bater pênalti sem ajoelhar. No Catar era fácil porque só tinha eu no estádio.

E hoje? Está sozinha? Pela primeira vez na vida, sim. Depois de anos de análise entendi que a ausência do
meu pai, que se separou da minha mãe quando eu tinha 12 anos, me fez buscar essa figura masculina para ficar em casa. Eu não achava que podia ficar sozinha e a verdade é que está sendo incrível. Tipo: aprendendo a ser só. Tem vezes que penso em me relacionar, mas imediatamente vem: “mas tá tão bom assim…”. Tive tanto medo de viver sem essa figura masculina que agora estou numa fase de autoconhecimento e está delicioso. Se deixarem sou capaz de ficar 20 dias sem sair de casa.

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