Dá para ser feminista e assistir pornografia?

por Carol Ito

Feministas de diferentes áreas, da produção de conteúdo adulto à militância antipornografia, debatem esse assunto ainda tão cercado de tabus

Depois de atingir picos de audiência durante a quarentena, o Pornhub, um dos portais de pornografia mais populares do mundo, se tornou alvo de uma petição que já reuniu mais de um milhão de assinaturas pedindo pelo seu fechamento. A organização norte-americana Exodus Cry, que organizou a campanha Traffickinghub, acusa a marca de lucrar com conteúdo ilegal, associado ao tráfico sexual e abuso real de crianças e mulheres. 

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Atrás das Filipinas, o Brasil é o segundo país com a maior proporção de acessos de mulheres no Pornhub – elas representam 39% dos visitantes, de acordo com o relatório divulgado pelo próprio site, em 2019. Mas ainda é difícil para elas assumirem que assistem pornografia por uma série de construções sociais, como explica Sheila Reis, psicóloga e presidente da Associação Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH). "As mulheres ainda se sentem culpadas, envergonhadas, é aquela história de 'vi por acaso' na internet", comenta. Além do tabu, o tipo de conteúdo oferecido, principalmente pelos portais gratuitos, pode não agradar. "No pornô tradicional, a mulher aparece como submissa, coagida. O cara é quem manda e, às vezes, tem um tom de humilhação", diz.

Se por um lado acessar pornografia pode ser um caminho para manter a atividade sexual ativa em tempos de distanciamento físico, por outro, o aumento do consumo implica em discutir sobre os impactos dessa indústria que, em geral, propaga uma visão estereotipada sobre as mulheres e vai na contramão de uma série de debates levantados pelo movimento feminista nas últimas décadas.

Afinal, dá para ser feminista e assistir pornografia? Existe um caminho saudável para esse tipo de consumo? Qual o impacto do pornô na vida das mulheres? Feministas de diferentes áreas, da produção de conteúdo adulto à militância antipornografia, debatem sobre o assunto, que ainda é cercado de tabus e contradições. 

Proibir é a solução?

"A culpa ao assistir pornô aparece porque as mulheres, no fundo, sabem que estão vendo violência, ou, no mínimo, uma degradação da imagem feminina. Sem contar que, quando falamos em pornografia amadora, não temos como saber se a mulher que está ali consentiu com a publicação do vídeo,  muito menos se ela foi vítima de tráfico sexual, está dopada ou é menor de idade", diz Mariana Amaral, profissional de audiovisual e uma das colaboradoras da QG Feminista, coletiva que defende a pauta antipornografia. "Nosso posicionamento, enquanto feministas radicais, é de que a indústria pornográfica propaga um discurso de ódio que reafirma a subserviência das mulheres ao olhar masculino, o que é muito pautado pela violência. O mundo ideal é onde a pornografia não seja produzida, porque a sexualidade tanto de mulheres como de homens pode ser desenvolvida de um jeito natural e saudável", explica. 

“A culpa aparece porque as mulheres, no fundo, sabem que estão vendo violência”
Mariana Amaral, colaboradora da QG Feminista

A ideia de abolir a pornografia vem junto com a crítica à "cultura pornográfica", em que a cultura pop (na forma de músicas, videoclipes, séries e filmes) absorve elementos da pornografia e normaliza seu discurso. "É como se dissessem: já que a mulher não quer mais ser a 'bela, recatada e do lar', ela vai ser valorizada se pornificando, expondo o próprio corpo, usando sua liberdade sexual como liberdade de agradar ao olhar masculino. É como uma resposta às conquistas do movimento feminista, um backlash", explica. 

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Para Sheila, é inegável que o consumo de pornografia, principalmente na infância e adolescência, é capaz de influenciar no desenvolvimento psicossexual, embora não seja possível fazer generalizações: "Se uma garota começa a assistir pornô aos 12 anos, começa a sentir prazer por meio de vídeos que colocam a mulher numa posição de coação e pode entender que aquilo é o natural", diz. "Nada contra o pornô, o que me preocupa é a facilidade no acesso que a internet permite. Muitas vezes, jovens entram em contato com determinadas informações que não têm estrutura emocional para compreender."

"Eu concordo que a maior parte do pornô tem características agressivas e violentas, não só em relação a questões de gênero, mas também de raça e classe. Mas, para mim, falar em proibição de pornografia é ignorância, porque ela vai continuar existindo", diz a atriz e produtora de pornô Dread Hot, que faz uma analogia com o consumo de maconha no Brasil: "É proibida, mas muita gente ainda consome, só que um produto de baixa qualidade. Se proibir o pornô, vai ter gente produzindo clandestinamente". 

Outro pornôs

Dread Hot entrou para o camming (exibição sexual on-line por câmera) em 2016 e depois passou a fazer vídeos amadores junto com o companheiro, conhecido como Alemão. O sucesso conquistado em portais de pornô gratuito motivou a abertura a própria produtora, a Fever Films, em 2019, focada em pornografia alternativa. "Não gosto de usar o termo 'pornô feminista' porque a maioria das pessoas não entendem o que é o feminismo, acabam nem se interessando. Eu gosto de falar que é um pornô para todos, só que mais sensível, abrange os valores cinematográficos, tem roteiro, personagens bem construídos", explica. "Eu ainda faço pornô mainstream, sim, mas não é o que eu curto. Eu faço porque é um acesso para as pessoas chegarem aos meus conteúdos, conhecerem outros trabalhos, mudar o tipo de consumo. É uma postura política."

"A gente vê a pornografia dita feminista como um nicho de mercado, criado para tentar agradar um pouco mais o público feminino. Por mais que seja feito de uma forma mais respeitosa, acaba indo para os mesmos sites, então a pessoa que assiste o pornô feminista também vai assistir o pornô violento", diz Mariana. "Falar em pornô feminista é como falar que a indústria têxtil não explora os trabalhadores porque uma mulher foi lá e fez uma camiseta escrito 'feminismo'. É uma revolução muito grande que precisamos fazer para consertar esses problemas, rever o queremos para as próximas gerações."

“Para mim, falar em  proibição de pornografia é ignorância, porque ela vai continuar existindo”
Dread Hot, atriz e produtora de pornô

Giovana Bombom, atriz e produtora de pornô há cinco anos, dirigiu o filme Sexy, Bitch - Um poema pornô (2019). Ela conta que sofreu uma série de abusos ao longo de sua trajetória trabalhando com algumas produtoras do mercado mainstream. "Sempre me criticavam por conta do meu cabelo, por ter o corpo natural. Em algumas gravações, pedia para parar porque estava me machucando durante a cena, é constrangedor, é broxante. Aquele prazer que você vê no vídeo, em geral, é fake", conta ela, que encontrou um cenário mais acolhedor trabalhando com a produtora de Brad Montana (ainda no segmento mainstream) e com a XPlastic, de pornô feminista: "Entendi que eu não tenho que me rebaixar e fazer o homem quer. Hoje, tenho um empoderamento muito forte que me traz segurança. Quero ser vista como eu sou, uma mulher preta, nordestina, que conhece seu corpo, seus fetiches e gostos".

Para a cineasta Lívia Cheibub, produções que não repetem os padrões da indústria pornô podem ser ferramentas de autodescoberta. "Na adolescência, eu consumia pornô e me incomodava muito ao ver que as mulheres não sentiam prazer nos filmes. Ainda assim, conseguia encontrar um vídeo ou outro em que via mulheres gozando e isso foi super importante para mim. Até os 20 anos, não sabia o que era o clitóris", conta. Lívia é diretora de Landlocked (2018), um filme que ela prefere associar ao pós-pornô (movimento que une arte e pornografia como forma de questionar a indústria tradicional), ao invés de chamar de pornô feminista. "Quando você vai vender o filme, as pessoas usam os termos 'pornô feminista' ou 'pornô para mulheres' porque estão em alta. Eu quis fazer um filme que fosse mais palatável para mulheres que não se masturbam, não assistem pornografia e têm vergonha disso. Mas os homens também podem assistir, por que não?"

O jeito é falar

Para as mulheres que estão sozinhas em casa na quarentena, a questão do consumo ou não de pornografia pode ganhar novos contornos, de acordo com Sheila: "Se esse período está servindo para que elas entendam que podem ter, sim, uma intimidade com elas mesmas por meio da masturbação, é um avanço imenso. Mas é uma descoberta que não para por aí, não pode ser sempre uma válvula de escape, uma anestesia, tem que ir pro mundo real. O problema é que não estamos no 'mundo real'".

“Quero ser vista como eu sou, uma mulher preta, nordestina, que conhece seu corpo, seus fetiches e gostos”
Giovana Bombom, atriz e produtora de pornô

Não existem respostas fáceis quando se discute a experiência sexual virtualizada, que não é construída no encontro com o outro. O consenso é de que conversar sobre sexo e as infinitas formas de sentir prazer deveria ser algo mais presente na vida de meninas e mulheres, que acabam recorrendo à pornografia para tentar entender a própria sexualidade. "Quando se fala em educação sexual nas escolas ou mesmo em casa, pensam que é falar de pornô para as crianças. Pornografia é um dos últimos pontos a serem abordados. Primeiro, a gente fala sobre corpo, sensações, prazeres, o que nem sempre está ligado com pênis e vagina, nem mesmo com relações sexuais. Mas a gente ainda está brigando com isso no século 21", reflete a psicóloga.

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