Capítulo 19: Quem a gente vai ser quando tudo isso passar?

por Milly Lacombe

Tudo continuará igual ou vamos sair mais, abraçar mais, comprar e trabalhar com mais consciência? Acompanhe mais um capítulo da história de desamor de Otávio e Marina, de Milly Lacombe

Perdeu os primeiros capítulos desta história? Leia aqui.

Quarentena, dia 34

– Quando tudo isso vai passar?

– Eu não sei, Otávio. Eu não sei mesmo. Pelo que tô lendo, pior do que a realidade só mesmo as perspectivas. Que foi? Bateu uma bad, é? Tava aí todo tigrão…

– É… Sei lá. Tô lidando bem com essa situação toda, mas tem dias estranhos

– Já sabe pra onde você vai depois que isso passar?

– Não. Não sei. E me machuca muito você falar disso como quem fala em uma reorganização dos móveis da sala depois da quarentena

– Me machuca também, mas o que eu posso fazer? Melhor pensar nisso do que na traição. Pensar nisso me deixa potente, pensar na traição me deixa doente

– Potente?

– É. Vem uma vontade de me recuperar de você. Vontade de começar a gostar de mim de novo. Vontade de ver essa casa sem você. Te olhar é me lembrar da traição. E eu não tô sabendo como existir dentro desse novo estado de coisas. Desmoronou uma imagem que eu tinha de você e ainda não nasceu outra

– Eu não me apaixonei pela Julia, Marina. E nem ela por mim. Foi um encontro de duas pessoas que estavam se sentindo sozinhas e se atraíram

– Ah, nossa, agora me acalmei. Se foi só isso então tá tranquilo. Ah, Otávio, acorda. E foram três encontros, né?

– Três, três encontros. Caralho! Não é possível que o fim da nossa relação seja determinado por isso. Pelo menos vamos encarar morrer a morte certa

– Se não foi isso, foi o quê?

– Foi tudo o que me levou até a traição

– Ah, meu amor. Tem toda a razão. Te peço perdão por você me trair. Assim melhora?

– Para, Marina. Parô, vai

– Ué. É o que você tá sugerindo. Porque se fosse assim eu teria ido pra cama com o Lauro, e eu não fui

– O que tô pedindo é que a gente consiga falar de coisas que não sejam a traição

– Super fácil fazer esse pedido sendo você a pessoa que traiu

– Tá, Marina. Eu sei que tem uma diferença grande entre os papéis que a gente tá interpretando agora. Eu tô sabendo disso, tá? Mas a gente vai ficar nesse debate em looping eterno? Caralho, as coisas não estavam boas. Vamos encarar ou vamos focar na traição e esmiuçar ela?

– Otávio, eu sou a pessoa sendo obrigada a pensar com a ferida ainda aberta. Então pega leve, tá? E, em vez de se perguntar quando tudo isso vai passar, acho que a gente deveria se perguntar quem a gente vai ser quando tudo isso passar? Me parece uma pergunta mais útil

– Nunca tinha pensado nisso. É uma excelente pergunta. Eu vou ser alguém que agora faz ioga e fala umas palavras em russo, por exemplo. E você?

– Eu vou ser alguém com um chifre

– Caralho, Marina! Puta merda. A gente roda, roda e cai na traição. Para, por favor. E outra coisa: junte-se ao clube dos chifrados. Você vai ser bem recebida

– Vou guardar para rir depois que a dor passar, pode ser?

– Vou voltar pra sua pergunta. Eu acho que vou ser um cara que vai gostar de sair mais, abraçar mais, me misturar mais. Vou comprar com mais consciência, certeza. Vou fazer lista de supermercado, vou saber comprar produtos de limpeza…

– Taí um Otávio diferente mesmo. Acho que esse Otávio vai ser mais expansivo e isso talvez reflita no seu trabalho

– E quem sabe eu tenha coragem de nunca mais aceitar fazer um jingle

– Otávio, pelamor. Essa é a tua fonte de renda. Como assim?

– Eu não posso mais me curvar a essa indústria que tá matando a gente, Marina. Se esse vírus não me ensinar isso, nada mais vai ensinar

– Mas você já não aceita trabalhar em campanha de banco privado, em nada que envolva o agronegócio, em nada que envolva a indústria automobilística… O que vai te sobrar? Hoje você poderia estar ganhando fácil uns 200 mil reais por jingle pra esses caras se não fosse esse teu rigor ético

– Ah, Marina, que feminismo é esse que atura manobra ética por dinheiro?

– Eu não trabalho pra esses caras, Otávio. Você sabe que Joana e eu lidamos com esse mercado de um outro jeito. Nossos clientes não são corporações, são pessoas socialmente conscientes, são pessoas negras. Então não me joga nesse balaio aí não

– Marina, o fato de vocês serem mulheres e da Joana ser negra e lésbica não alivia em nada essa guarda baixa que vocês têm diante do liberalismo. A Thatcher era mulher e foi uma primeira-ministra escrotíssima, só mais um monstro liberal

– Ah, vai a merda, Otávio. Joana e eu não somos esses monstros e tudo o que eu tô dizendo é que você poderia ter feito uma meia dúzia de trabalhos para esses caras e hoje estaria menos apertado de grana

– Quero que se fodam esses caras. E eu não preciso de muito na vida. Tá tudo bem comigo se eu tiver meus livros, meu violão, um cantinho nesse mundo e a possibilidade de seguir criando alguma coisa

– Vamos falar desse seu cantinho no mundo então. Para onde você vai quando a quarentena acabar?

– Acho que pra casa da minha mãe, né? Pra onde eu iria?

– Por um tempo, imagino

– Tudo é por um tempo, Marina

– Ah, tá bom, Otávio. Lá vem as platitudes

– Sei lá. Não sei pra onde vou. Pra um lugar longe da cidade talvez. Cansei dessa Necrópole, como diz o Mbembe. E acho que cansei desse assunto. Tá me dando dor de estômago. Quer jogar gamão?

– Acho que faz uns quatro anos que a gente não joga. Nem sei onde tá o tabuleiro

– Mas eu sei porque passei dez dias trancado naquele quarto e fucei tudo. Vou pegar

– Traz uma cerveja, por favor

– Opa

Esta história continua. Acompanhe os próximos capítulos na Tpm.

Créditos

Imagem principal: Manhã Ortiz

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