Capítulo 20: Quem não tá confuso é porque não entendeu nada

por Milly Lacombe

Deixar as pessoas navegarem por essa jornada maluca que a gente está vivendo com respeito e empatia também faz parte de se libertar. Acompanhe mais um capítulo da história de Milly Lacombe

Perdeu os primeiros capítulos desta história? Leia aqui.

Quarentena, dia 37

– Otávio, pelamor de Deus, que gritaria é essa?

– Te atrapalhei?

– Não, eu não estava mais em reunião há um tempo. Estava no banho e quando saí só escutei você mandando alguém à puta que o pariu. O que pode ter acontecido?

– Tô puto! Puto! Gente burra do caralho

– Quem, meu Deus?

– Um amigo do Marcelo

– Por que você estava falando com um amigo do Marcelo?

– Porque amanhã é aniversário do Marcelo e a gente tava num hangout comemorando

– Quem?

– Os de sempre: eu, Marcelo, João, Cabelo, Marcão. Mas aí convidaram esse babaca que sei lá por que merda entrou no hangout e eu perdi a cabeça

– E o que o cara fez pra te tirar de giro assim?

– Um cretino que de repente começou a dizer que a gente devia era estar todos juntos porque quarentena era coisa de estado totalitário e que a gente não podia aceitar tirarem da gente a liberdade de ir e vir. Quando ele disse isso eu perdi a cabeça e gritei que ele tinha total liberdade de ir pra puta que o pariu. Aí já comecei a achar que não pode mais falar “puta que o pariu” e que eu estava sendo machista e ele começou a argumentar lá as coisas dele e eu já nem ouvia mais. Tá puxado, Marina. Se eu quero argumentar contra o capitalismo, caio no machismo. Se quero argumentar contra o machismo, caio no classismo... Eu tô ficando perdido sobre o que posso falar e o que não posso falar

– Tá difícil, é, meu amor? Eu acho sempre muito lindo quando o opressor vem choramingar e dizer que tá puxado pra ele

– E eu acho sempre muito ridículo quando você me chama de "o opressor"

– Ué. Mas é o que tu é. De cabo a rabo

– Não é o que eu sou. É o que eu represento, tem uma diferença

– Tem sim. Tem razão. Mas se a gente quer debater com sinceridade não tem como você se abster desse papel

– E a partir desse meu ponto de vista de homem branco e heterossexual eu não posso falar mais nada? Não posso reclamar? Não posso dizer que tá confuso pra caralho?

– Pode tudo porque esse é o teu lugar de ponto de vista e é dele que você deve falar, mas fala sabendo que, na maioria das vezes, vai soar ridículo porque você vai ser comparado a quem tá sofrendo por coisas muito mais sérias e há séculos. Na hora que você reclama, é pra esse lugar de choramingo que você vai

– Então como faz, meu Deus?

– Você sai da frente. Você se recolhe. Você escuta mais do que fala. Você tenta elaborar a vida e o mundo a partir de outros pontos de vista, pontos de vista que você nunca nem tentou acessar porque nunca precisou, porque o mundo é teu

– É o que eu faço, porra! E, do jeito que as coisas estão, quem tá apanhando somos nós, os caras que estão junto de vocês nessa briga. Porque o machão que não tá nem aí pra se desconstruir não apanha. Esse tá lá no churras dando tapa na bunda da mulher, dando tiro pra cima e mandando salvar a economia

– Esse babaca é a última fronteira da revolução, Otávio. Deixa esse otário pra lá

– Marina, se a gente se separar eu nem vou mais saber dar em cima de uma mulher. E o medo de ser acusado de abusador?

– Ah, sério, Otávio? Sério isso? Pelo amor de Deus. Olha você tentando reduzir o debate do feminismo a situações fronteiriças de novo! Quem ganha com isso? O machismo de sempre. E tem outra coisa: você sabe exatamente quando deixa de ser flerte e vira abuso. Todo homem sabe. Como todo homem sabe o que é um estupro, mas ainda assim abrem nossas pernas à força e depois dizem que foi só um sexo mais bruto porque, né, estupro é o que os outros homens cometem, não eu. Eu sou um cara maneiro, que só dou uma forçadinha, só isso, porque no fundo, no fundo, ela tava a fim e só estava fazendo um charme. Ah, Otávio. Tu já viveu bastante pra saber do que eu tô falando. Então não se faz de imbecil. Você sabe sim quando é pra parar, quando é pra desistir, quando é pra se mandar, quando deixa de ser flerte e vira abuso

– Marina, eu nunca fiz sexo sem ser consentido com ninguém

– Otávio! Sexo só pode ser sexo consentido. Sexo não consentido chama estupro. Essa frase “sexo consentido” não existe. Acorda!

– Eu não falo mais nada. Quando falo é só bobagem

– Com a palavra, a grande vítima da sociedade: o homem branco cisgênero heterossexual que não consegue se fazer entender

– Ué: e não é isso?

– Otávio, é normal que quem esteja tentando se transformar passe por situações de constrangimento. Ou você acha que eu e minhas branquices não passamos? O que a gente vai fazer? Espernear? Esse mundo é nosso há tanto tempo, tá na hora de recuar, de escutar e de mudar. Quem não tá confuso é porque não entendeu porra nenhuma ainda. E quem não tá confuso é porque só tá tentando desesperadamente fazer com que as coisas não mudem porque não quer perder as boquinhas, né? Você pode falar o que quiser, mas precisa saber que vai ser responsável pelo que disser. E se corrigir, se for preciso. Você acha que eu não derrapo? Claro que derrapo. Até no machismo. A gente tomou machismo na mamadeira, meu amor. Tá no nosso sangue. Machismo, racismo, classismo, sexismo. Não fui eu mesma que, diante da traição, chamei a Julia de vaca? Como se não fosse você o cafajeste. Precisa se deseducar muito pra gente começar a melhorar. Precisa também entender que tentar reduzir a luta a esse referendo de atitudes pessoais e fronteiriças não vai ajudar. Mandar o cara à merda teria sido melhor do que à puta que o pariu, mas não é disso que se trata a luta. E outra: se você soubesse quanta gente pensa como esse cara aí... E vamos combinar que a solução pra gente passar por esse caos exige umas medidas meio totalitárias, né? Prender todo mundo em casa, estados de exceção, de vigilância constante e autorizada, de submissão voluntária da liberdade em nome da segurança… É a cartilha do totalitarismo. Então, mesmo o cara sendo um babaca, tem aí no que ele disse algumas coisas que podem ser debatidas

– Tem mesmo que debater o que a gente entende por liberdade nessa vida. É a única coisa que pode ser debatida diante do que esse escroto disse. Porque a gente foi ensinado a achar que liberdade envolve isso aí: ir e vir, muitas escolhas de produtos para comprar no supermercado, vários tipos de iogurte e de molho de tomate, muitas empresas aéreas pelas quais voar… Só que liberdade nunca teve nada a ver com isso. Liberdade envolve enxergar o outro, saber que ninguém existe sozinho, que se alguém tá doente na periferia isso me implica, sim. Liberdade é a gente entender que tá todo mundo ligado. Liberdade é responsabilidade, atenção, disciplina. Liberdade exige concentração total, não é uma molezinha. Se as pessoas soubessem disso não estariam achando que ir e vir é liberdade quando o simples ir e vir pode matar gente por aí. Que liberdade é essa? De matar o outro? Liberdade de cobrar 150 reais por uma máscara? De cobrar 50 reais por uma garrafa de água? Porque são essas as liberdades que esse sistema escroto oferece, só essas. Ninguém vai se salvar sozinho de nada, Marina. Ah, vão a merda.

– Otávio, a gente vai precisar ter paciência e entender que tá todo mundo fazendo o melhor que pode. Deixar as pessoas navegarem por essa jornada maluca que a gente tá vivendo com respeito e empatia também faz parte de se libertar. Você mesmo me disse isso no começo da quarentena, me chamou de sommelier da quarentena alheia, lembra? E você tinha razão. Eu estava uma pentelha com isso. Mas aí uma hora entendi que cada um na tá sua própria luta e as pessoas que mais desdenham do vírus são as que mais medo têm dele. Chama negação, tipo aula 1 de psicoterapia. A gente mal controla a nossa quarentena, como vai ser capaz de cagar regra na dos outros? Claro que é um babaca o cara que acha que, no meio da quarentena, pode fazer uma festinha e que tá sussa porque os outros que se fodam. Mas as pessoas estão todas cagadas, cada uma a sua maneira, e esse machão aí é o que mais tá se borrando de medo. Então vamos fazer a nossa parte e torcer para isso acabar logo. Olha, fazia tempo que não te via tão puto assim

– Esse cara me tirou do sério

– Pega teu violão, toca alguma coisa bem nervosa e deixa sair esse ranço, quer? Eu pego uma cerveja e a gente canta. Bora? O que é isso, Otávio? Vai chorar? Por que, meu Deus?

– Não sei. Tô triste. E quando você fala essas coisas e a gente passeia como amantes pela rotina que a gente perdeu parece que eu tô velando nosso relacionamento de corpo presente e isso me desespera. Eu te amo, Marina. Eu não queria que nossa história acabasse

– Otávio, tem muita coisa agora envolvida no fim dessa história. Eu não se fui feita pra passar por cima de uma traição. Não sei mesmo. Eu não queria que essa história tivesse acabado. Mas da noite pro dia você avisa que vai sair de casa, depois fala de uma traição, então meu mundo virou de ponta-cabeça. Eu não sei o que te dizer, não sei o que tô sentindo. Mas não quero ver você chorar. A gente vai ficar trancados aqui um tempo ainda, então vamos tentar fazer com que sejam dias bons na medida do possível, tá? Para, vai. Para de chorar como uma criança

– Me abraça, Marina. Me abraça, por favor

– Vem cá, Otávio. Vai ficar tudo bem. A gente vai dar nosso jeito. Tá bom? Eu prometo. Vou lá pegar a cerveja e o violão

– Já já. Me deixa ficar um pouco aqui, pode ser? Não precisa falar nada, só me deixa ficar um pouco aqui deitado em você

Esta história continua. Acompanhe os próximos capítulos na Tpm.

Créditos

Imagem principal: Manhã Ortiz

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