Capítulo 21: O amor é um salto no abismo

por Milly Lacombe

É na hora em que a vida pede só mais um esforço, só mais um passo para o salto no vazio, que as pessoas desistem. E assim a quarentena de Otávio e Marina, narrada por Milly Lacombe, chega ao 40º dia

Perdeu os primeiros capítulos desta história? Leia aqui.

Quarentena, dia 40

– Eu queria te fazer uma pergunta

– Faz

– Deixa eu me servir de um pouco mais desse vinho. Você quer?

– Não ainda. Mas queria um copo de água, você traz?

– Sem gelo, né?

– Isso

– Aqui

– Fala, Otávio. O que tá pegando?

– Você acha que uma relação aberta teria salvado nosso relacionamento?

– Difícil falar por hipóteses, né? Se meu avô não tivesse morrido ele estaria vivo até hoje. E nem você nem eu nunca vivemos uma relação aberta com outras pessoas, ainda que dizer isso me soe um pouco ridículo, já que comigo você abriu a relação do seu lado e apenas esqueceu de me avisar

– Tá, Marina. Tá bom. Mas vamos pensar junto, pode ser? O que uma relação aberta teria de bom?

– A gente dar vazão ao tesão por outras pessoas livremente. Mas a que custo? A gente se perder um do outro?

– A gente se perdeu numa relação fechada, Marina! Será que a gente teria se perdido numa aberta?

– Não sei e é curioso que o canceriano esteja propondo abrir e a escorpiana relute. Alguma coisa nessa organização de astros está fora da ordem. Mas me diz: é muito difícil assim ficar com uma pessoa só? Parece que sim, né?

– Marina, a gente se atrai por outras pessoas, acontece. Dá pra fingir que não acontece, óbvio, e dá pra mentir também, mentir pra você e para quem tá com você, mas se duas pessoas estão querendo construir uma relação sólida e responsável, será que não pode existir uma espécie de acordo?

– Um acordo neoliberal, é isso? Tipo: tô com você, mas sei que tem mais um monte de coisa aí fora que pode me interessar, então vamos fazer esse trato de ir pra cama com quem a gente quiser, pode ser? É o “eu gosto de você, mas quero ver o que mais tem aí fora pra mim”. Sair em busca do novo, do novo-eterno enquanto a gente mantém esse núcleo duro aqui do “eu e você” por segurança

– Não precisa ser necessariamente isso

– Mas é o que é. Duas pessoas abertas a outras pessoas são duas pessoas que não estão focadas no relacionamento em si. Eu tô falando sem ter uma opinião definitiva sobre esse tema, tá? Mas eu acho que essa entrega entre duas pessoas, essa construção dia após dia de um relacionamento, que envolve muitas desconstruções, muito amadurecimento, esse negócio de o outro ser o seu melhor espelho pra vida, como você chega a esse ponto numa relação aberta? Sei lá, Otávio. Esse negócio de relação aberta me parece adotar uma lógica liberal demais, sabe? Isso de não ser capaz de ficar com aquela mesma pessoa, ir trocando tudo sempre em nome do novo, de mais uma excitação, de mais um delírio. Eu acho bonito duas pessoas que se fecham num relacionamento mesmo com o tesão tendo mudado de intensidade, mesmo tendo dias ruins, mesmo sem ter mais aquele frio na barriga do começo. Será que ir passando pela vida buscando um novo frio na barriga é a receita do sucesso? Não sei. Só sei que me parece adequado achar uma dupla para atravessar essa aventura difícil que é viver

– O que é capitalista é a monogamia, Marina. Ela tá a serviço da propriedade. Por que você acha que tem essa papelada toda pra assinar? É a propriedade privada. É preciso controlar pra quem vai aquela herança, não é mesmo? E uma relação aberta pode ser fechada em duas pessoas que se alimentam emocionalmente, que são leais, que trocam verdades e que se permitem sair com outras pessoas

– É que eu acho que relacionamentos exigem um tipo de entrega que eu não sei se uma relação aberta é capaz de produzir, Otávio. As pessoas estão com preguiça dessa construção constante que um relacionamento fechado exige, eu acho. A gente não tá conseguindo se focar em nada por mais de 10 minutos, por que a gente se focaria numa outra pessoa por 10 anos? Mas, num relacionamento que pretende ser tudo o que ele pode ser, não tem isso de depois que conquistei tá conquistado. Não te parece estranho que os filmes terminam quando as pessoas casam? Que porra é essa? Esse deveria ser o começo da história. Relacionar, como a palavra diz, é re-laçar. Dar outra vez o laço, dia após dia, em looping eterno. Esse é o fundamento de qualquer relação. Ou deveria ser. Não é apenas uma tentativa de não se desapaixonar daquela pessoa, é você se reapaixonar por ela todos os dias. E acho que a gente só pode fazer isso através das coisas miúdas. É um jeito de rir, um jeito de chorar, um jeito de vestir o suéter, um jeito de beber o vinho, um jeito de abrir a porta da sala, ou de bater a porta da sala… É ver aquela pessoa como ninguém mais no mundo é capaz de ver. Como você chega a esse ponto se entregando a mais de uma pessoa? E mais um detalhe: essa fase só começa quando aquela paixão inicial acaba, meu amor. Porque é nessa hora que você vê que a expectativa inicial que você tinha daquela pessoa jamais será cumprida. E tudo bem, porque isso é a gente percebendo que estava se projetando no outro, que não estava vendo o outro pelo que ele de fato é. É nessa hora que as pessoas desistem, né? Mas essa é a hora de se abrir para o desamparo e se deixar arrebatar pelo outro, pelo que o outro é de verdade. É a hora em que a gente se deixa quebrar por completo para poder se refazer, se recompor, de um jeito inesperado. É o tal do salto no abismo. O salto no abismo não é a paixão; o salto no abismo é o amor, Otávio. E o amor só acontece depois desse completo colapso inicial, ele só acontece quando todas as expectativas iniciais são frustradas e você vê ali na sua frente um outro ser humano desamparado, fragilizado, imperfeito, dividido, contraditório. Ou você acha que me apaixonei pelas suas qualidades? Pelo jeito como você toca violão? Pelo jeito como faz amor? Pela sua poesia? Não! Eu me apaixonei por tudo o que existe de vulnerável em você. Pelos seus deslizes. Pelas suas imperfeições. Pelo jeito destrambelhado que você dirige. Pela sua falta de rebolado quando dança. Me apaixono de novo toda vez que você esquece a letra de uma música e começa com aquele lálálá. Ou quando se mete a jogar futebol com seus amigos sem medo de mostrar que você joga mal pra caralho. É na hora em que a vida pede só mais um esforço, só mais um passo para o salto no vazio, que as pessoas desistem

– Você tem razão. Tem muita razão. Mas tem um outro lado que talvez justifique que as relações não sejam monogâmicas: você entender, na prática, que aquela pessoa não é sua, que você pode perder ela amanhã. Você saber que tudo isso aí que você falou, e que é lindo, é pra valer porque essa pessoa pode ir embora com outra. Talvez seja uma mudança de conceito mais do que prática, sabe? Porque isso já é verdade mesmo nas relações monogâmicas, mas a tal promessa de fidelidade cria uma falsa segurança. Muitos casais que estão em relacionamentos abertos nem saem com outras pessoas, sabia? Eu li isso outro dia. E outra coisa: você conhece um casal que vive uma relação fechada e tá junto há muitos anos?

– Não! Porque as pessoas desistem, é o que tô dizendo!

– Mas será que manter um relacionamento deveria dar tanto trabalho? Será que não deveria ser uma coisa mais leve?

– Não sei se dá pra chamar de trabalho. É apenas uma dedicação, uma atenção. E o que é muitos anos? Mais que 10?

– Isso: 10, 15

– Meus pais, ué

– A gente sabe o esquema lá, né? Teu pai deve ter traído sua mãe aos lotes. Tô falando de pessoas que seguem se encantando

– O que você tá chamando de seguir se encantando, Otávio?

– Sei lá. Acho que é seguir rindo junto. Acho que é isso. Seguir rindo da vida, um do outro e de coisas que só os dois sabem o que é. Acho que um relacionamento pode até viver sem sexo, mas sem riso não vive. Eu acho isso

– Não sei, Otávio. Não me vem ninguém à cabeça. A Joana talvez, mas elas estão juntas há menos de seis anos. Você tá dizendo isso porque a gente tinha parado de rir junto, é isso?

– A gente estava se levando muito a sério, eu acho. Levando tudo muito a sério, na real: a gente, a vida, o trabalho

– Pode ser. Eu ria muito com você antes. Lembra daquele dia na cachoeira na Chapada? Que inseto era aquele que te picou? Eu fiquei entre me matar de rir com tua reação e achar que você ia mesmo morrer como estava anunciando. Meu Deus, que drama grego você protagonizou!

– Marina, doeu para o caralho aquela picada. E eu achei mesmo que ia morrer no meio do mato

– Otávio, você começou a dizer que sua garganta estava fechando sendo que o lugar onde ele picou estava apenas ligeiramente inchado

– Mas eu senti a garganta fechando e fiquei com falta de ar de verdade, Marina

– De pânico! Não da picada

– Quem disse? Eu posso ter sobrevivido à picada mortal de um bicho raro e a gente jamais saberá

– Era um inseto, Otávio, não era uma onça. Durante muitos dias eu lembrava de você gritando e pulando feito um coelho pelo mato e me matava de rir. Aquele casal que estava na trilha um pouco na nossa frente acho que nunca mais te esqueceu

– E o Fumo Bravo?

– Ai, meu Deus. O Fumo Bravo, como eu pude esquecer?

– Era aquele meu corretor maluco do celular que mudava as palavras como bem queria…

– E eu lendo sua mensagem: “Vou chegar no voo das duas no Fumo Bravo” sem entender nada do que você queria dizer. Achei que era um código

– Por que o corretor mudou o nome do Aeroporto Santos Dumont pra Fumo Bravo jamais saberemos

– Mas melhor do que ele mudar foi você não rir disso na hora. Você só mandou uma outra mensagem e não fez um comentário sobre o Fumo Bravo

– Eu estava tentando não perder o voo, correndo feito um maluco

– Por muitos anos o Santos Dumont passou a ser Fumo Bravo pra gente, lembra?

– Ô. E você falava Fumo Bravo e ria como riu na primeira vez

– E o dia que você ficou preso no banheiro daquele bar lésbico em Botafogo que a gente adorava ir com a Joana? Você chutou a porta tão forte que quebrou três dedos e teve que sair de lá no colo daquela lésbica muito maior do que você

– Inesquecível aquela mulher. Ela me pegou como se eu fosse uma folha de papel

– Por que a gente nunca mais voltou nesse bar?

– Não sei dizer. Tinha um bolinho de camarão maravilhoso, né?

– Não era empada?

– Não! Era bolinho

– Eu lembro de comer empada de camarão lá. Ou era bolinho?

– Bom, tanto faz. Quando tudo passar vamos voltar lá?

– Nós dois e nossos novos amantes?

– Ah, para. Por favor, para.

– Mas é meio inevitável pensar nisso, né? Se bem que fazer algum tipo de plano futuro é tão maluco que pode até soar como resistência agora

– Sabe onde também quero ir? No Bar do Omar. Tô sonhando com esse dia

– Ah, nem me fala. Que vontade de sair andando por aí, sentar numa mesa ao ar livre, tomar uma cerveja bem gelada depois de ter entrado no mar num dia de sol… Nem eu sabia que estava com tanta vontade. Quando será que vai ser isso? Hoje faz 40 dias que estamos aqui dentro sem sair nem um minuto. Quarenta dias sem ver o céu…

– Quem sabe a gente vai sair mais cedo do que você imagina?

– Quem sabe… Bom, vou lá fazer o jantar. Hoje é por minha conta

– Eba! O que vai ser?

– Você vai saber quando vir

– É irritante o tanto que você conjuga o verbo ver de forma correta

– Né!

Marina e Otávio jantaram um risoto de beterraba que Otávio repetiu três vezes e depois foram para a cama. Eram três e quinze quando Otávio abriu devagar a porta do quarto dela, entrou e se ajoelhou no chão bem perto do rosto de Marina dizendo baixinho:

– Marina, levanta

– Meu Deus! Quem morreu?

– Ninguém morreu. Quer dizer, muita gente, infelizmente. Mas não é nada disso. Levanta e vem comigo

– Onde? Que horas são?

– Três e pouca

– Três e pouco!

– Marina, sério, agora vai me corrigir dormindo?

– Onde eu vou com você no meio da madrugada e da quarentena?

– Coloca qualquer roupa e vem

– Otávio, eu tô com sono. Não quero ir a lugar nenhum

– Vem, por favor. Te espero na sala

Marina chega à sala descabelada, com um short jeans e um moletom velho. Otávio pega ela pela mão e desce as escadas. Na rua, ainda de mãos dadas, eles chegam à praia. Andando devagar pela areia, Otávio olha o céu e aponta para que ela também veja a lua praticamente cheia. Ele começa a tirar a roupa:

– Vem, Marina. Vamos mergulhar

– Mergulhar? Tá maluco? A água deve estar tipo pedra de gelo

– Sou eu que não gosto de água gelada, lembra? Você ama. Vem

– Que maluquice, Otávio. Meu Deus. E as toalhas? A gente vai morrer de frio, ficar gripado, achar que é a Covid...

– Vem logo antes que alguém delate a gente pra polícia. A toalha tá no seu pé, você nem viu que eu trouxe

– Vamos correr então pra dar uma esquentada porque tá foda

– Vamos! Bora pra água!

Marina rompe atrás de Otávio, os dois mergulham e voltam correndo. Enrolados nas toalhas e tremendo de frio, começam a andar apressados para o apartamento.

– Sabe como chama isso que a gente fez, Marina?

– Privilégio branco

– Também, sem dúvida

– Irresponsabilidade social e emocional?

– Certamente, mas não só

– Como chama isso, Otávio?

– Estupidez poética

Marina ri e não escuta quando Otávio, um pouco atrás dela, diz baixinho:

– Agora a gente tem mais uma história pra contar pros nossos filhos

Esta história continua. Acompanhe os próximos capítulos na Tpm.

Créditos

Imagem principal: Manhã Ortiz

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