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EUA em desencanto

O fascínio pelo american way of life derrete a olhos vistos. Entre a Copa de 1994 e a de 2026, algo esfriou. O que mudou: o destino, ou a gente?

EUA em desencanto

O fascínio pelo american way of life derrete a olhos vistos / Créditos: Unplash


em 16 de julho de 2026

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Houve um tempo pouquíssimo distante em que se desejava Nova York antes de conhecer São Paulo propriamente. Não falo da Big Apple de carne e osso, com seu metrô imundo e um inverno cruel, mas a da ficção: a turma de Friends e a rotina que fazia a cidade parecer um lugar onde ninguém ficava sozinho, os brunches badalados e a liberdade sexual de Sex and the City, a cena clássica de comédia romântica em que dois estranhos se esbarram numa livraria do Village e têm suas vidas entrelaçadas para sempre. A “América”, como aprendemos a chamar, chegava primeiro pelas telas e só depois, para quem tinha acesso e sorte, pelo carimbo no passaporte.

Para uma geração de brasileiros de classe média criada nos anos 1990, muitos planos tinham o sotaque estadunidense. Era o intercâmbio que devolveria a gente fluente e mais interessante, a foto com o Mickey, a peregrinação aos outlets, a faculdade afamada no currículo, a Las Vegas onde quase tudo era permitido. É exagero dizer que sonhar com a terra do Tio Sam era um pouco regra?

Basta medir a distância entre dois pontos no tempo. Em 1994, o Brasil atravessou os Estados Unidos para levantar a taça do tetra, e o país-sede parecia a cara do futuro: era para lá que todo mundo queria ir. Trinta e dois anos depois, a Copa volta ao continente, dividida entre Estados Unidos, México e Canadá, mas é em solo norte-americano que se joga a maior parte dela. E quem desembarca para a festa, em 2026, encontra agentes do ICE nos portões dos estádios, torcedores barrados na imigração com ingresso pago, seleções de países inteiros impedidas de pisar em campo em paz. 

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Algo se moveu no campo dos desejos. Seja por férias ou planos de vida mais longínquos, os Estados Unidos vêm perdendo o encanto, dia após dia, e em seu lugar cresce uma sensação que beira à vergonha.

No segundo mandato de Donald Trump, os Estados Unidos montaram a maior máquina de deportação da sua história. O ICE, a agência de imigração, passou de um orçamento que orbitava os 10 bilhões de dólares para algo na casa das dezenas de bilhões, virando a força policial mais bem financiada do país. Segundo o Deportation Data Project, iniciativa acadêmica da Universidade da Califórnia que obtém os números oficiais do próprio governo americano por meio de pedidos de transparência, as deportações dentro do território quintuplicaram no primeiro ano; as prisões de rua, aquelas feitas em bairros, na porta de tribunais, em postos de imigração, subiram por um fator de onze. A população detida saltou de cerca de 40 mil pessoas para mais de 60 mil em poucos meses, o maior número já registrado.

Um levantamento do American Immigration Council, organização que defende os direitos de imigrantes, contabilizou, a partir dos próprios comunicados do ICE, pelo menos 23 mortes sob custódia em um único ano, quase o total dos quatro anos anteriores somados. E há um detalhe que desfaz qualquer dúvida sobre a intenção: o governo não escondeu a brutalidade. Secretários posando em tours por presídios apelidados de “Alligator Alcatraz”, perfis oficiais publicando memes e vídeos de detentos algemados sendo embarcados em voos de volta. Marketing às avessas, feito para assustar quem pensa em chegar no país.

Em 2025, o turismo internacional para os Estados Unidos caiu 5,5%, o pior recuo em duas décadas fora do ano da pandemia: quatro milhões de visitantes a menos, mais de 8 bilhões de dólares que não entraram.

Numa pesquisa de 2025 da consultoria Skift, entre os que se disseram menos dispostos a visitar o país, 63% apontaram o clima político como motivo. Não foi o preço da passagem. O World Travel & Tourism Council resumiu com uma frase que parece escrita por quem perdeu a fé: enquanto outras nações estendem o tapete de boas-vindas, o governo americano pendurou a placa de “fechado”.

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Seria confortável dizer que os Estados Unidos já foram um sonho para o mundo e Trump estragou. Não é bem verdade. As fraturas sempre estiveram lá, convivendo com a maratona de Friends. As deportações em massa não começaram nos governos do atual presidente. O custo de vida que expulsa professores e enfermeiras de Nova York e São Francisco há tempos é obsceno. O racismo estrutural, a desigualdade de país subdesenvolvido disfarçada de potência, a violência cotidiana, a saúde pública deteriorada pela junk food e a epidemia de opioides: tudo isso estava no quadro o tempo inteiro, mas talvez fora de foco porque escolhemos mirar os olhos para outros lados.

Mas reconhecer que as rachaduras são antigas não serve para aliviar Trump. Foi ele quem as escancarou e as converteu em projeto de governo, erguendo com orgulho a máquina de crueldade que os números acima descrevem. O que era latente ele fez questão de tornar política oficial.

Por décadas, os Estados Unidos foram a principal ideia de futuro para o Ocidente. Modernidade, desejo, tecnologia, arte, cultura, consumo: tudo tinha endereço lá. Sem termo de comparação, a fantasia não encontrava quem a desmentisse.

Isso mudou. Seul exporta cultura (dorama, K-pop), tecnologia e estética. O Japão virou referência de design e civilidade urbana. E a ironia mais fina de todas: o aplicativo que hoje molda o que o mundo acha engraçado e desejável, o TikTok, é chinês. No índice de soft power da Brand Finance, os Estados Unidos seguem em primeiro lugar, é verdade, com a maior pontuação que já tiveram. Mas a reputação do país despencou para o 15º posto, e a China subiu ao segundo lugar pela primeira vez.

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Convém, contudo, não trocar uma fantasia por outra. A mesma China que encanta com tecnologia e milênios de cultura prende jornalistas, vigia cidadãos e responde por acusações graves de trabalho forçado.

A impressão, aqui do nosso lado, é que hoje soa quase vexatório anunciar em voz alta que se vai passar as férias nos Estados Unidos. Mas vale reconhecer de que lugar essa vergonha fala. Orlando segue lotada de brasileiros tirando foto com personagens. As universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos continuam sendo buscadas por quem pode arcar com seus custos. Miami é destino de muito latino que se adequa mais lá do que cá.

E, por outro lado, enquanto o desejo pelos Estados Unidos esfria, outro desejo é reaquecido por aqui. O mundo voltou os olhos para o Brasil e nós, atrás desse olhar, voltamos a nos olhar com mais orgulho de novo (também é verdade que muitos nunca o esqueceram). Enfim: sabemos do quanto o nosso país anda bem visto mundo afora ultimamente. Se isso contribui para enxergar a grama do vizinho menos verde, ponto pra gente.

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