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XENICAL BROTHERS

Não se viam, na década de sessenta, tantos brasileiros com quilos de sobra

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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No fim de semana, atraído pela propaganda boca a boca que dava conta de um conjunto de cinemas de alta qualidade, fui ao SP Market, um shopping center
na região de Interlagos. Os cinemas de fato, justificam a aventura. Apesar da decoração medonha do hall de entrada, com carpetes, se bem me lembro estampados, que vão até o teto e balcões repletos de estrelas prateadas, as salas tem telas enormes, ar condicionado perfeito, cadeiras reclináveis e confortabilíssimas e uma inclinação do piso que permite sentar atrás de uma girafa sem ser incomodado. À exceção de alguns idiotas falando alto, o que certamente não é culpa de seus proprietários, as salas oferecem condições ideais para se deixar levar pelas imagens do filme escolhido.
Quanto ao shopping, nada além da segurança e do bom estacionamento merece ser louvado. Trata-se na verdade de construção das mais simples e pobres,
com estruturas de aço gigantescas suportando um enorme quadrado de alumínio e vidros sob o qual se colocam Vila Romana, Pernambucanas e outras casas
buscando atender o público que os publicitários classificariam como B e C.
Já que o desprezo pela arquitetura, patologia que parece afetar a grande maioria de nossos construtores, administradores e governantes, não inspira maiores comentários, resta olhar as pessoas, quase sempre fonte interessantíssima para o atento observador. Casais de mãos dadas, famílias jovens de moletom, gangues de três amigos do interior com calças justas de boca estreita e botas de caubói xavecando balconistas, vendedores humildes arrumando vitrines de lojas de calçados, um jovem negro beijando uma garota ruiva ao lado dos telefones públicos, seguranças de terno jaquetão de número errado com rádios pretos na mão direita. A vida flui no templo do consumo enquanto os fiéis absortos deixam-se levar pelas luzes e cores da praça de alimentação…
Uma das pessoas que me acompanhava na viagem antropológica aliás, observa a quantidade de gordos e gordas. Segundo ele, não se viam na década de sessenta, tantos brasileiros com quilos de sobra. De fato, era fácil notar sob os moletons e camisas xadrez, pneus sobressalentes, culotes avantajados
e bundas desproporcionais.
Lembro-me agora das filas no próprio cinema para adquirir os baldes de ‘pop corn’ cheios de manteiga e sal, importados dos Estados Unidos, verdadeiras
bombas de colesterol, infarto e hipertensão.
A tal ‘praça de alimentação’, expressão que sempre me remeteu a uma espécie de cercado cheio de animais resignados ruminando em silêncio, era sem qualquer dúvida, o mais agitado espaço, com famílias e grupos de amigos esbaldando-se em pratos de estrogonoff fast food, frituras do Mr. Pastel, shakes e big burgers do McDonalds e sanduíches de rosbife cor de rosa do Arby’s. Uma rápida pesquisa naquele ambiente por certo demonstraria que ninguém tem a menor noção daquilo que está ingerindo. Como tenho frisado aqui, a
inteligência e a cultura física praticamente tem sido desprezada pelos responsáveis pela educação do brasileiro. É mais que óbvio que a cadeira de nutrição deveria ser obrigatória nos cursos de todos os níveis. Se não por critérios educacionais, por uma questão de saúde pública: O recente relatório da OMS coloca as complicações cardíacas entre os dois maiores causadores de óbitos do planeta. Jornais e
principalmente revistas, talvez mais motivados pelas vendagens altas do tema que por vocação educacional, de qualquer forma, têm feito importante papel
na divulgação das cartilhas básicas da nutrição, mas é pouco. Muito pouco.
Hoje pela manhã, recebi a visita de duas figuras da maior simpatia. Eram entregadores de uma loja descarregando mercadorias. Depois do esforço da desova, Rufo e Calha, como se auto-denominam os dois negros gordos e bem humorados, entraram de volta na Fiorino, lançaram mão do celular e ligaram para a lanchonete ao lado da empresa onde trabalham.
‘João, tamo chegando aí em vinte. Vai preparando dois x-calabresa com bastante maionese. Mas é maionese à parte pra gente ir colocando com a colher. Sem miséria, hein…’

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