por Roberto da Matta
Trip #196

Roberto da Matta reflete sobre como limites são as maiores conquistas e os maiores riscos

Não deixa de ser curioso que o ser vivo mais consciente da própria morte, o animal mais certo de que sua única certeza é um limite final e definitivo — a morte —, seja o bicho que mais inventa e questiona limites. Os seus limites e os dos outros. Mais os dos outros que os seus.

A reflexão sobre os limites, sobre o que é suficiente ou bastante para cada um de nós (e consequentemente para os outros), é o resultado de mais igualdade, liberdade, oportunidade, poder de consumo e daquilo que se chama de “modernidade”: de mercado e competição eleitoral e de democracia. Da operação consistente de um sistema que tem no centro o indivíduo-cidadão livre e igual perante a lei. Todas as sociedades que passaram por uma aguda transformação no sentido de maior igualdade, acoplada a uma consciência mais aguda de liberdade, vivem um aparente paradoxo. Como usufruir a liberdade e a igualdade sem ofender os outros e, mais que isso, sem levar o sistema a uma anarquia e a um caos no qual alguns podem fazer tudo, o outro não existe e — como consequência — quem ocupa cargos importantes sobretudo no governo e do Estado acaba virando um mandão (ou mandona) de modo que, em vez de igualdade e limite, temos o justo oposto: uma hierarquia e o enriquecimento dos poderosos por meio daquilo que é o teste mais claro do limite e da igualdade: o sistema eleitoral que os elegeu.


— II —


Neste momento em que o Brasil consolida sua democracia e torna-se um ator global, é crucial discutir esse equilíbrio entre o que aspiramos construir como coletividade mais justa e humana e as leis e normas que agindo sobre todos nós e governando por assim dizer esse jogo democrático que vem sendo jogado faz um tempo considerável, considerando nossa história republicana, limitam os nossos movimentos indicando o que é correto e ético realizar.

Não nos parece uma tarefa fácil conciliar desejos (que geralmente são ilimitados e odeiam controles) e a questão fundamental de cumprir regras, seguir leis e construir espaços públicos seguros e igualitários, válidos para todos, numa sociedade que também tem o seu lado claramente aristocrático e hierárquico. Um sistema que ama a democracia, mas também gosta de usar o “Você sabe com quem está falando?”, que é justamente a prova, conforme disse em Carnavais, malandros e heróis, um livro publicado, imagine, em 1979!

Ali, eu descobri o nosso amor simultâneo pela igualdade e, a seu lado, o nosso afeto pelo familismo e pelo partidarismo governados pela ética de condescendência tão nossa conhecida, que diz: nós somos diferentes e temos biografia; para os amigos tudo, aos inimigos (e estranhos, os que não conhecemos) a lei!

Não há nada mais claro da nossa aversão aos limites do que essa recusa de obedecer a lei, o cargo público para o qual fomos eleitos ou o sinal de trânsito. Uma pessoa, como digo no citado ensaio, que não foi criada para pensar em limites, porque todos somos (ou fomos) filhinhos de mamãe e criados em ambientes onde sabíamos perfeitamente bem quem era superior, quem era subordinado, quem mandava e quem obedecia, não pode funcionar igualitariamente na rua, onde ninguém é de ninguém ou sabe quem são os outros.

A dificuldade em usar com tranquilidade o “Você sabe com quem está falando?” decorre da massificação da sociedade brasileira, que, com o aumento de renda e dos mecanismos destinados a melhorar o consumo das camadas mais pobres, torna todo mundo muito mais parecido e de certo modo obriga tanto o milionário filho de família tradicional quanto o pedreiro, o padeiro, o garçom, o estudante, o operário e o empregado doméstico a entrar numa fila. E, nela, a pensar que somos todos realmente iguais em certas situações públicas porque o limite do outro garante o meu limite.

O resultado dessa tomada de posição, básica numa democracia, é simples, mas muitas vezes ignorado entre nós: a minha liberdade teoricamente ilimitada tem que se ajustar à sua e as duas acabam promovendo uma conformidade voluntária com limites, com fronteiras cívicas que não podem ser ultrapassadas, como a de furar a fila ou a de dar uma carteirada.

Na sua simplicidade, a fila é um dos melhores, se não for o melhor, exemplos de como operam os limites numa democracia. Seus princípios são simples e reveladores: quem chega primeiro é atendido em primeiro lugar. Numa fila, portanto, não vale o oculto. Ou temos uma clara linha de pessoas, umas atrás das outras, ou a vaca vai para o brejo. Quando eu era menino, lembro-me bem como era impossível ter uma fila no Brasil. As velhas senhoras e as pessoas importantes (sobretudo os políticos) não se conformavam com suas regras e traziam como argumento para serem atendidos, passando na frente dos outros, ou a idade, ou o cargo, ou conhecimento com quem estava atendendo, ou algum laço de família. Afinal quem vai deixar a vovó esperando para depois tomar uma bronca em casa? Hoje, sabemos que idosos e deficientes não entram em fila. Mas estamos igualmente alertas para o fato de que um cargo ou um laço de amizade não faz de alguém um supercidadão com poderes ilimitados junto aos que estão penando numa fila por algumas horas. O princípio do quem primeiro chega é primeiro atendido revela uma outra dimensão da democracia e dos limites que deve ser igualmente discutida.

Refiro-me ao fato de que a fila anda (ou deve andar!). Ela é construída, como tudo que é governado por regras simples e conhecidas de todos, pelo princípio da rotatividade. Se “a fila anda”, ela faz com que o último acabe em primeiro e quem estava na frente seja obrigado a sair depois de ter sido atendido. Mais: se ele (ou ela) quiser voltar, vai para o “fim da fila”. Ora, isso não é um belo exemplo dos limites que tornam todos iguais, fazendo-os primeiros ou últimos e, consequentemente, tornando o primeiro e o último relativos? Numa hora e em dado lugar sou o primeiro, noutro sou um cara comum e apenas sigo as normas gerais da cidadania. Mas sei — e esse é um ponto capital — que, mesmo em primeiro lugar ou no último, tenho limites, tolerâncias, direitos sem dúvida, mas um monte de deveres. Uma vez atendido, cedo lugar a um outro que faz o mesmo com o seguinte e assim, meus amigos, a fila da democracia anda!

Tal como num jogo de futebol ou numa disputa política liberal e competitiva, a fila requer conformidade com as regras, com os limites impostos pela disputa, bem como um mínimo de honradez diante delas. Se entro na fila, espero que todos honrem o meu e os seus lugares. Isto é: o meu senso de limites é despertado pelo senso de limites dos outros. Se, numa disputa política, um partido não segue as regras e compra políticos e votos, então o sistema de disputa fica abalado ou deixa de existir. Todo jogador quer vencer, todo atacante quer o gol da vitória, mas ele não pode vencer quebrando as pernas dos seus

adversários.

Do mesmo modo e pela mesma lógica, ninguém pode ser sempre o primeiro da fila (e nem o último), como ninguém pode ser campeão para sempre. Se isso acontece, ou seja, se um time campeão mudar as regras para ser campeão para sempre, então o futebol vai pros quintos dos infernos. Ele simplesmente acaba com o jogo como uma disputa. Na disputa, o adversário não é um inimigo, do mesmo modo que, numa fila, quem está na frente não é um superior. O poder ilimitado e congelado ou fixo em pessoas ou partidos, como ocorre nas ditaduras, liquida a democracia justamente porque ele usurpa os limites nos quais se baseia a fila. Justamente porque ele acaba com a disputa e a esperança banal, mas básica, de que a fila anda e que amanhã podemos ser campeões! O fim do rodízio do poder que obriga o respeito aos limites de todos é a raiz dos autoritarismos que são hoje impensáveis no Brasil. Sem ele, a oposição e a esquerda não estariam no poder honrando e ajudando a provar que, onde há disputa, alguém vai perder ou ganhar.

— III —

Termino com uma história que é, de fato, uma parábola que fala tanto de democracia quanto de capitalismo, com seu poder de despertar inveja e aristocratizar pelo dinheiro.

Conta-se que, numa reunião na mansão de um milhardário americano, o escritor Kurt Vonnegut Jr. (autor, entre outros, do incrível Matadouro 5) perguntou ao seu colega Joseph Heller (autor do não menos perturbador Ardil 22): “Joe, você não fica chateado sabendo que esse cara ganha mais num dia do que você jamais ganhou com a venda de Ardil 22 no mundo todo?”. Heller respondeu: “Não, porque eu tenho alguma coisa que esse cara não tem”. Vonnegut olhou firme para ele e disse: “E o que é que você pode ter que esse sujeito já não tenha?”. Resposta do Heller: “Eu conheço o significado da palavra suficiente”.

Ora, é justamente esse suficiente que nos torna resistentes tanto ao poder do dinheiro como fim valor absoluto, capaz de suspender limites numa sociedade de iguais, quanto a uma dimensão muito importante da vida. É ele que permite valorizar o que somos e temos, o modo como vivemos, os nossos prazeres e escolhas. É essa reflexão sobre o que nos basta que nos faz ver a olho nu que ninguém pode ter (ou tem) tudo. E, se ninguém pode ter tudo, todos temos alguma coisa.


A ideia de suficiência e de limite, portanto, traz de volta uma dimensão humana importante e não conformista. A dimensão que assegura por linhas tortas, é certo, que nenhum ser humano pode ser belo, bonito, rico, saudável e feliz ao mesmo tempo. Os reveses da vida, que nos fazem estar sempre no fim ou no início da fila, que nos dão a impressão de impotência ou onipotência, têm muito a ver com essa reflexão que pouco fazemos no Brasil. A saber: o que queremos do nosso país e deste mundo? O que precisamos e em que quantidade ou escala? Será que sendo quem sou eu não tenho mais do que o mais rico dos ricos ou o mais poderoso dos poderosos? Afinal de contas, a igualdade na diferença é uma alternativa para estilos de ser. Não se pode negar o valor do dinheiro, mas não se pode aceitar que o dinheiro seja tudo e que o amor, a compaixão, a honestidade, a honradez e a alegria de viver em harmonia consigo mesmo sejam inferiores à riqueza ou ao poder. Afinal de contas, o que seria da vida sem esses pequenos-grandes prazeres e gozos que são de fato o seu sal e a sua pimenta? Vale a pena ser infeliz com uma grande conta bancária, ou ser feliz com uma conta bancária? Ou, quem sabe, viver sem ir ao banco?

Porque, afinal de contas, o limite não está apenas nas coisas externas, ele está em todos nós — mortais complexos destinados ao gozo e ao sofrimento neste maravilhoso e único vale de lágrimas, nesta interminável fila que, andando, nos obriga a dialogar com os nossos limites e com o lado ilimitado de cada um de nós.

*Antropólogo, escritor e professor da PUC-RJ. Autor de vários ensaios sobre sociedades tribais e o Brasil, como Um Mundo Dividido; Carnavais, malandros e heróis; O que faz o Brasil, Brasil; Relativizando: uma introdução à antropologia social, todos editados pela Rocco. Seu último livro, Fé em Deus e pé na tábua, é um ensaio sobre o trânsito no Brasil. DaMatta tem uma coluna semanal nos jornais O Estado de São Paulo, no Globo e Diário de Fortaleza

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