por Redação
Trip #227

Seis pessoas contam por que passar muito tempo sozinho pode, SIM, trazer felicidade


Um editor de livros, um mestre budista, um navegador, uma guardiã de reserva marinha, uma big rider e um aventureiro contam por que passar muito tempo sozinho pode, SIM, trazer felicidade


Charles CosacSaí de casa muito cedo, aos 15 anos, e nessa idade morar só para mim ainda não dizia respeito à solidão, mas sim ao fato de eu estar distante de minha família, para onde jamais retornaria. Como isso faz mais de três décadas, talvez nunca tenha pensado no assunto, pois morar só, na minha vida, não foi uma escolha deliberada, foi o destino misturado ao hábito e ao meu temperamento. Não me ocorre uma segunda opção para um homem que não constituiu família, tampouco busca companhia. Ainda que desde sempre tenha havido relacionamentos a distância, morar só também implica a condição de solteirice. Solteirões normalmente residem sozinhos.

Há certa vulnerabilidade no ser só, da qual, quando jovem, sentia-me refém. A solidão também tem um sentido de desocupação e disponibilidade. O ser só recebe ligações de madrugada, pois não há bebê a ser acordado; visitas ou hóspedes súbitos, pois há espaço; até sinceros acadêmicos que não têm onde se hospedar durante suas pesquisas in situ. Ademais, São Paulo nesse aspecto é muito parecida com Londres, Paris e Nova York: há sempre alguém chegando, alguém partindo, algo acontecendo na cidade que atrai um turbilhão de visitantes e afins. Embora tenha me sentido refém, devo aqui dizer que isso não passou de sentimento. Jamais me permiti ser acometido por alguma dessas situações. Com isso, também chamo a atenção de que há grande diferença entre morar só em São Paulo ou, por exemplo, em Niterói (RJ).

Mesmo que contemple essas situações, mesmo que meu corpo habite só há tantas décadas, pensando retrospectivamente, ainda quando residia com meus pais, tios, em internatos, alojamentos universitários, quartos em casas de família, com amigos etc., eu sempre tive a certeza de estar só, uma noção fortíssima do ser-indivíduo que talvez tenha nascido comigo. Portanto todos esses lugares, todos esses endereços de nada significaram. Acredito que meu corpo seja meu lar e minha alma, minha lareira.

*Charles Cosac, 50 anos, é presidente da editora Cosac Naify, em São Paulo.


 

Lama Michel Rinpoche_ Eu fico bastante tempo sozinho quando estou em estudos no Tibete. Mas, no Brasil, só fico sem companhia quando vou dormir. No restante do tempo, estou à disposição das pessoas – para encontros particulares, em grupo, em ensinamentos e reuniões. O que é estar só? Uma coisa é estar isolado fisicamente das pessoas; outra é estar numa cidade em meio a milhões de pessoas, mas sem ter contato profundo com ninguém.

O período mais longo que fiquei fisicamente sozinho foram 50 dias no Nepal, onde fiz um retiro de meditação. Foi uma experiência maravilhosa. Eu meditava 12 horas por dia e o resto do tempo lia. Eu não via e nem falava com ninguém. A comida era deixada num quarto separado. O problema de tentar se concentrar em algo é que a mente fica pulando de um objeto a outro, porque há uma quantidade de estímulos muito grande. O objetivo do retiro é estar livre de estímulos desnecessários. Se você faz um retiro apenas para se isolar do mundo, pode entrar em depressão. Mas, se tem um objetivo claro de autoconhecimento, não.

Muitas vezes a necessidade de estar em companhia decorre de precisarmos de alguém para afirmar nossa identidade. Damos mais importância ao que o outro vai dizer do que àquilo que nós mesmos pensamos. A pessoa coloca um post no Facebook ou uma foto no Instagram e fica na expectativa de quantos vão gostar e fazer comentários. O que é isso? Uma necessidade de reconhecimento. O problema com essas tecnologias é que a gente se conecta com o mundo e se desconecta de nós mesmos, porque a mente está sempre em busca da opinião do outro. Isso aumenta a dificuldade de estar presente, no momento presente, no lugar onde eu estou.

Não é porque a pessoa está em companhia que ela necessariamente está bem. Ela pode estar acompanhada e sentir solidão. Você percebe pelo olhar, pela forma como se comporta. Uma das razões de existir uma visão negativa de quem é visto só é que há uma idealização do relacionamento entre duas pessoas. Mas estar com alguém não é nem a solução nem a causa do sofrimento. Quantas vezes não vemos casais numa mesa de restaurante sem trocar uma palavra, apenas com os olhares vazios voltados para as telas de celular?

O importante não é estar sozinho ou com alguém. Quando conseguimos ficar em equilíbrio com nós mesmos, estamos bem – não importa se estamos sós ou com companhia. Por isso, convido cada um a observar a si mesmo e perguntar: eu tenho dificuldade de ficar sozinho? Se sim, que tal dedicar um pouco de tempo para ficar só, sem medo? Estar sempre em companhia muitas vezes acaba sendo apenas uma forma de fugir de si mesmo.

*Lama Michel Rinpoche, 32 anos, é mestre budista da tradição tibetana. Nascido em São Paulo, mora na Itália e passa três meses do ano no Tibete. Estará no Brasil de 11 a 22 de dezembro. Seu site é: centrodedharma.com.br.


 

Amyr Klink_ Desde que iniciei as minhas viagens de barco, em 1984 – quando fiz a primeira travessia solitária do Atlântico sul a remo, indo da costa da África até a do Brasil –, eu nunca me senti só durante a navegação, sempre estive ocupado. Esse não é um mundo para quem é frágil emocionalmente. O cara que não basta a si mesmo não tem competência para a navegação solitária simplesmente porque não dá muito tempo de sofrer de saudades da família ou da namorada.

Minha viagem mais longa foi de 642 dias, no continente antártico e uma escala no ártico, entre 1990 e 1991. Para uma expedição como essa é preciso ter uma máquina que você conheça profundamente e ela tem que ser formidável. É uma demanda extrema em cima de um indivíduo que precisa ter muito autocontrole e equilíbrio. O navegador solitário não dispõe de muito tempo para ficar filosofando. Ele se envolve tecnicamente com a empreitada. É a mesma reflexão de um cara pilotando um carro de Fórmula 1: você tem que cuidar da estratégia, ficar de olho na meteorologia e prestar atenção no seu equipamento.

Qualquer um sabe velejar ou aprende, mas na navegação solitária é necessário ter competência técnica aliada à psicológica. O preparo não é só o desprendimento para se atirar sozinho três meses no mar. É preciso ter controle emocional e habilidade técnica para consertar aquilo que quebra. O navegador depende do seu próprio conhecimento e das próprias habilidades para sobreviver. O exercício de ficar sozinho é muito intenso, nesse caso, porque a embarcação demanda de você o tempo todo.

Quando você controla sozinho uma máquina, está cuidando da sua vida. A pressão é pelos problemas que acontecem pelo caminho. É cuidar para que nada quebre e, se quebrar, para saber consertar. Se a vela está com uma vibração, você nem consegue dormir de tanta preocupação. É uma navegação que treina você a ter controle em meio ao caos. Ao fim de uma jornada como essa, a sensação é magnífica. Sinto um alívio imenso. Mas é uma pressão que vicia: não demora muito e logo vem a vontade de sentir aquela adrenalina de novo.

*Amyr Klink, 58 anos, é navegador com travessias solitárias realizadas entre América, África, Antártida, Ártico e volta ao mundo.


 

Maurizélia de Brito SilvaHá 23 anos trabalho na reserva biológica do Atol das Rocas, uma área oceânica protegida a 148 quilômetros do arquipélago de Fernando de Noronha (PE) e a 270 quilômetros de Natal (RN). Permaneço sete meses por ano executando atividades voltadas ao patrulhamento, à pesquisa científica e à educação, visando a proteção integral do único atol no oceano Atlântico sul.

O fato de estar em um lugar isolado não me faz um ser solitário, pois, além da presença de pesquisadores, tenho sempre milhares de animais terrestres e marinhos que não permitem essa solidão. São quatro pessoas por expedição, que dura 27 dias, e existe uma vida social intensa porque há uma única moradia, onde ficam o refeitório, o dormitório e o acesso à internet por satélite. Ter comunicação com o mundo externo reduziu um pouco o lado selvagem do Atol das Rocas, mas fez com que a segurança e o bem-estar das equipes aumentassem e minimizassem as intrigas e as crises existenciais. Claro que estar no meio de uma natureza tão viva faz com que os dias sejam agradáveis, principalmente porque amo captar imagens, o que, para mim, serve de terapia e amparo emocional. Se o lugar fosse feio, poderia ser diferente!

Já me sinto adaptada às dificuldades como não ter fonte de água potável, a água enviada do continente ser apenas para beber e cozinhar, tudo ser lavado no mar, não ter um banheiro e viver debaixo de alta insolação. O maior desafio não é o de superar as peculiaridades locais, e sim o de trabalhar a espiritualidade e as particularidades emocionais. Tudo se intensifica no confinamento, e não poder resolver determinados fatos externos pode abalar as estruturas. Cabe a cada um se policiar e aprender a peneirar o que realmente é importante e viável para a ocasião. É o que uso como estratégia de adaptação e de sobrevivência para não sofrer tanto de saudades da minha companheira, a bióloga Thais de Godoy, com quem sou casada há 11 anos, da minha família, dos bichos de estimação, dos amigos e de lugares em que às vezes gostaria de estar. Mas essa é a minha vida e eu não saberia viver diferente.

*Maurizélia de Brito Silva, 47 anos, é chefe da Reserva Marinha do Atol das Rocas.


 

Maya GabeiraA natureza do meu trabalho exige que eu fique sozinha boa parte do tempo. O surf é um esporte individual, que nos faz passar horas no mar. Quando vou surfar sozinha é um pouco solitário, e confesso preferir quando surfo com amigos, primeiro pela companhia e, segundo, por estimular a evolução no esporte.

As viagens também muitas vezes são um pouco solitárias, devido aos lugares onde encontramos as melhores ondas. Quanto mais difícil o acesso, menos gente e maior a probabilidade de acharmos uma onda sem crowd. Então, muitas das vezes passamos muito tempo em praias isoladas, com culturas bem diferentes.

Para mim, particularmente, sinto uma solidão devido ao pequeno número de surfistas mulheres que pegam ondas grandes. Acabo viajando sempre com homens, o que me deixa sempre numa posição “diferente”. O que também dificulta é a quantidade de viagens que faço ao longo do ano e o fato de me dividir em três residências: Los Angeles, Brasil e Havaí. Isso já é algo muito peculiar, e dificilmente tenho pessoas com quem posso conviver a maior parte do tempo.

A vantagem para mim é que posso utilizar o meu tempo da melhor forma possível quando estou sozinha. Acabo focando muito os meus treinos, o que ajuda nas conquistas como atleta. Às vezes sinto que o isolamento pode ser muito benéfico para a rotina de treinos, mas tem que haver um equilíbrio. Não posso chegar a um nível de desgaste em que perco a motivação e me sinto muito isolada e sozinha. Busco equilibrar períodos de treinamento e viagens com períodos em que passo mais tempo com a família e os amigos, para reenergizar. Acho isso importantíssimo e fundamental para o sucesso.

Mas acredito que, na verdade, estar sozinho não é se sentir solitário. Mesmo quando estou sozinha mantenho contato com as pessoas mais importantes na minha vida. Elas me acompanham por Skype e e-mail, o que me tranquiliza e me motiva para seguir o meu caminho e atingir os meus objetivos.

*Maya Gabeira, 26 anos, é surfista. Por cinco vezes ficou em primeiro lugar no Billabong XXL, principal premiação mundial de ondas gigantes. Em 28/10, quebrou o tornozelo ao pegar onda em Portugal, mas se recupera bem.

 


Filipe Masetti_ Há sempre algo desconfortável a respeito de pensar que se está só.

Durante os últimos 16 meses, desde que eu saí da cidade de Calgary, no Canadá, passei muito tempo viajando sozinho, com meus pensamentos e o som do vento soprando. Eu e meus cavalos ficamos muitos dias sem ver nenhum ser humano. Foi muita solidão.

Mas estar sozinho na estrada é algo terapêutico para mim, é minha maneira de estar em contato comigo mesmo. A experiência permite algo que normalmente nunca temos tempo de fazer: uma longa conversa consigo mesmo. Sei que essa ideia parece meio louca, mas é extremamente recompensante. Depois de alguns dias conversando somente com os meus cavalos, eu comecei um diálogo interno. Você é feliz, Filipe? O que está acontecendo com sua vida agora? Como você gostaria que fosse seu futuro? Foram algumas das questões que fiz enquanto atravessava as montanhas rochosas. As respostas às vezes são difíceis e só vêm com o tempo, mas, quando tempo é tudo o que você tem, elas acabam emergindo.

Passar por longos períodos de solidão me fez desejar a conexão com outras pessoas, me fez descobrir que a vida não significa nada sem alguém para dividi-la. Quando eu estava atravessando uma montanha no sul do Wyoming só, eu cheguei numa cidadezinha desesperado para falar com alguém. Como por milagre apareceu na minha frente a casa de um senhor idoso que morava sozinho. Nos dois dias seguintes, fui tratado como seu neto e ouvi todas as suas histórias como se ele fosse o meu avô. Nós dois precisávamos um do outro. Eu nunca vou esquecer desse encontro.

*Filipe Masetti, 26 anos, é um jornalista brasileiro que saiu do Canadá a cavalo para cruzar a América rumo ao interior de São Paulo. A viagem, que teve início em julho de 2012, percorrerá 16 mil quilômetros. Batizada de Journey America, a aventura pode ser acompanhada em: www.outwildtv.com/expeditions/journey-america

Depoimentos a Lia Hama, Felipe Maia e Camila Alam

matérias relacionadas