por Redação

Cutucando consagrados artistas plásticos e críticos, Adriana Duarte, a Xiclet, vem grudando seu nome no circuito das artes de São Paulo. Aos poucos, sua bola enche

Por Gisele Kato Fotos Marcelo Naddeo

Por causa de uma gastrite hoje ela nem masca mais tanto chiclete assim, mas a obsessão do passado rendeu-lhe um desses apelidos que grudam e acabam por substituir o próprio nome. Desde que chegou a São Paulo, em 1997, é como Xiclet que a artista capixaba Adriana Duarte, 37 anos, apresenta-se. E isso, de certa forma, já diz bastante sobre a postura que assume diante do institucionalizado circuito das artes, cada vez menos capaz de arrebatar defensores. Os discursos contrários às políticas de museus tornaram-se quase lugar-comum, mas com doses bem medidas de humor e irreverência Xiclet tem conseguido fazer com que suas ressalvas circulem para além da roda de amigos. Mesmo que, pelo menos por enquanto, sejam de fato as suas amizades o grande impulso para as provocações ao mercado. São das conversas despretensiosas, protagonizadas por um grupo ainda na luta contra o anonimato e o aluguel no fim do mês, que saem os títulos das exposições coletivas organizadas na Casa da Xiclet, na Vila Madalena.

A brincadeira começou em 2002, com a mostra "Eu Quero Ser Nelson Leirner", que acolheu todos os colegas artistas que viviam por lá reclamando da falta de chance para exibir suas peças. A venda de algumas obras e o número de visitantes curiosos entusiasmaram Xiclet, que resolveu abrir mão da privacidade e transformar de vez sua casa em um espaço expositivo alternativo. Vieram "Ela não É Milliet", se referindo à curadora Maria Alice Milliet, e "26a Bienal de Cu É Rola", em cartaz no período da 26ª Bienal de Arte de São Paulo. Todas assim, com nomes absurdos e hilários, e todas escoradas em uma só premissa: a ausência absoluta de regras e seleções. Enfim, tudo na base da amizade.

Os grandes marcos do projeto Xiclet, porém, são mais recentes. Neste ano, ela organizou as duas edições de "Quero Ser Amigo(a) da Lisette", inspiradas no anúncio de que Lisette Lagnado será a responsável pela próxima bienal paulistana. A própria crítica de arte esteve no endereço e a Casa da Xiclet acabou por chamar a atenção do meio mais formal. Até o dia 4, uma homenagem um tanto debochada é dirigida à vizinha Galeria Fortes Vilaça, com a coletiva "Prima Rica – Fica Quietinha preu Gostar de Você". Ainda neste mês ela organizará a 1ª Bienal do Mercusul e, em dezembro, o "El Cid", salão que se rende ao empresário Edemar Cid Ferreira.

Com mais visibilidade, porém, Xiclet esbarra em uma armadilha, com os mesmos dilemas dos museus e galerias que tanto condena. Sua roda de amigos está cada vez maior. A taxa de inscrição que cobra dos artistas, de 100 reais, para manter o endereço e cobrir os gastos das montagens, não serve mais como único critério para a escolha dos participantes. A casa ficou pequena para tantos interessados. E, claro, entre seus novos colegas, há gente sem talento. É. Xiclet está com gastrite.

VAI LÁ: Casa da Xiclet (r. Fradique Coutinho, 1.855, SP, tel. 11 7314-4550). De 2a a 6a, das 11h às 21h (3a, até as 19h); sáb. e dom., com hora marcada

A artista participa de nosso chat, dia 18, às 18 h. Clique aqui para saber mais.

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