Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Andar no contra-fluxo pode ser muito interessante. Se não por dezenas de outros motivos, pela simples razão de que, para mim, isso favorece um olhar enviesado a alimentar esta coluna e ‘n’ outras necessidades de pautas que minha profissão exige que brotem em profusão, como cogumelos depois da chuva.
Como na segunda-feira retrasada em pleno meio-dia eu pousava em Guarulhos, de volta de uma rápida viagem de trabalho ao Uruguai, a idéia de encarar as atividades (supostamente) normais daquele resto de segunda, da terça e de meia quarta e já arrumar malas e cuias novamente me parecia digna dos cinco cocares da Funai reservados aos melhores programas de silvícolas.
Assim, graças à minha feliz opção profissional, não só pude ver que a desgraçada marginal do Tietê flui surpreendentemente bem nas segundas ao meio-dia e meia como também consegui optar por um feriado em São Paulo sem a culpa que se abate sobre a maioria dos que, por algum motivo, são condenados a essa ‘pena’.
Não é só a culpa interna sentir-se menor, perdendo o bom da vida – um autêntico ‘loser’ incapaz de parecer, ao menos por um par de dias, com aquelas figuras dos anúncios de cigarros e bebidas, sempre corados e festejando a vida, saltando e correndo sem parar.
O que parece ser ainda mais cruel que a luta interna do ser urbano contra as referências que habitam seu palimpsesto é a cobrança de terceiros. Para a maioria dos paulistanos é vexatório – mais do que isso, inconcebível – não ter uma boa resposta à pergunta ‘vai viajar no feriado?’
É daquelas que fazem a alma dar duas voltas dentro da pele, a visão ficar turva por alguns segundos, numa semi-cegueira provocada pela mais pura e destilada vergonha. Já vi gente sustentar mentiras cabeludérrimas, só para se livrar do incômodo. ‘Vou dar uma olhada nas ilhas Mauritius’, vi responder um desses fracos – sem ligar para o fato de que o feriado caía na sexta; em três dias, mal daria para conhecer o aeroporto do destino inventado e já seria hora de voltar ao batente.
Não importa se o sujeito está sem dinheiro, com preguiça ou se simplesmente está vendo nos jornais que, em virtude do sol e dos quatro dias livres, milhões de automóveis vão se enfileirar nos gargalos da estrada, como bichinhos encantados pela flauta.
A patologia do paulistano enclausurado é tão forte que, mesmo depois de amargar filas históricas em pedágios, em padarias, restaurantes e até no mar, o sujeito ainda volta se gabando. Um conhecido me dizia ontem, orgulhoso, por telefone: ‘Saí às onze da manhã de Maresias, sabe onde o trânsito já parava? Na Serra de Boiçucanga.’ Aquilo parecia, na versão do infeliz, um ponto a mais para valorizar sua conquista desta felicidade que dura quatro dias.
Primo-irmão
O feriado é, aliás, primo da happy-hour, uma espécie de liberação criada para que o resto da vida do sujeito – quase sempre um interminável sucessão de frustrações e tarefas insuportáveis – faça algum sentido. Seja infeliz das nove às seis e meia e depois você pode ser feliz um pouco. Mas só até às nove, porque depois tem de voltar para casa e encarar a infelicidade de novo.
A meia dúzia que ficou na cidade sabe. São Paulo esteve fantástica. Dias de luz forte pela manhã com calor, tarde bonitas com direito a pôr-do-sol de interior, noites frescas, até com um friozinho. Cinemas sem filas, lojas abertas e vazias, pessoas nas ruas andando devagar e olhando para cima, procurando o que não encontraram nos dias ‘normais’ – o tempo passando devagar, como foi feito para passar. Poucos carros, muito vento. Como foi feito para ser.
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