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VÁ!

Se a uma certa altura você se deparar com uma bifurcação, com dois caminhos possíveis, vá!

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Não é das experiências mais fáceis, passar o ano novo num porto. A tendência natural a passar a régua pela própria vida , que costuma bater nessa época, qualquer que seja a situação, amplifica-se naturalmente na presença do mar. Mas é num porto como este onde me encontro agora que o balancete individual atinge a plenitude do seu potencial.
Ouvi outro dia uma frase que, se não tem fundamento cientifico, serve assim mesmo para intrigar: Um ser humano que habita hoje uma das grandes cidades do Ocidente processa mais informações em um dia do que seu correspondente na idade média processava durante toda a vida. A idéia de estarmos limitados hoje apenas e tão somente pela própria imaginação, é tão fascinante quanto assustadora. Nela esta contida toda a maravilha do que se pode obter de um mundo para o qual a geografia é cada vez menos imprescindível, e, na mesma medida, toda a angustia e a ansiedade geradas por tudo aquilo que se poderia ser, ter e sentir, mas que nossa estrutura física e psicológica não é capaz de abraçar.

Agora que o milênio de fato é novo, parece ainda mais claro que a era do ‘progresso’ a qualquer custo ficou para trás. Pessoas e empresas que antes dispunham-se a dedicar décadas ao vôo cego do aumento das reservas daquilo que imaginavam ser riquezas, estão, voluntariamente ou não, trocando os próprios softwares e repensando toda a lógica que até agora parecia inquestionável. Mas essa tentativa de teorizar sobre o assunto fica sem sentido num porto. É que aparentemente, quase toda população embarcada, seja nos veleirinhos pequenos que carregam famílias inteiras, seja nos passageiros e tripulantes de barcos enormes, já passou por toda essa reflexão, tirou as conclusões lógicas, empacotou meia dúzia de pertences, e lançou-se ao mar. Há na maioria dessas pessoas uma certeza estampada na face, exatamente oposta à duvida que se vê tatuada no inconsciente da maioria dos que estão na suposta terra firme das grandes cidades, perseguindo ‘progresso’. Pelo que se pode ver, a simples decisão de dizer não, de forma voluntária e consciente, a milhares de possibilidades, se lançando de forma inteira e reta a apenas uma delas, uma viagem na qual o objetivo é ir, e não necessariamente chegar, provoca a supressão da tensão que ronda quase todas as pessoas com alguma condição de refletir sobre a vida.

Dizem que nos Estados Unidos, um jogador de beisebol foi tido como idiota durante anos por causa de uma declaração: segundo se conta, o sujeito teria dito um certo dia depois do jogo: Se a uma certa altura você se deparar com uma bifurcação, com dois caminhos possíveis, vá! Depois de aguardar por 60 constrangedores segundos por uma continuação do pensamento, o repórter confuso saiu contando a historia em tom de anedota. Só recentemente, o sujeito teve sua frase entendida, e de tonto oficial passou a sábio da vez.

Talvez um dos mais curiosos e contemporâneos aspectos desse assunto seja o fato de que, invariavelmente, tomar um caminho determinado, abrindo mão de todos os outros possíveis, não significa deixar cem possibilidades em favor de uma, mas descobrir milhares que se abrem a partir do caminho novo escolhido. E a tal escolha nem sempre se da a partir de uma reflexão ou de algo que se possa comandar.
Li outro dia em algum lugar, a historia de numa senhora inglesa chamada Anita Roddick. Num certo dia, seu marido partiu da casa do casal em busca da realização do sonho de sua vida: fazer a cavalo a distancia entre Buenos Aires e Nova Iorque. A ‘viagem’ do marido tinha apenas um significado concreto: Anita passou a ter de garantir não só a própria, mas a sobrevivência das duas filhas. A solução imaginada por ela, foi abrir uma pequena loja de cosméticos perto de sua casa, colocando em potes um creme que costumava fazer para seu próprio uso.
Foi a semente da The Body Shop, uma busca cujo objetivo nunca foi faturar 1 bilhão de dólares por ano, mas partir, seja qual tenha sido a motivação, para a própria viagem.

Um ano realmente novo para todos que acompanham este diário de bordo semanal.

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