Chegou a hora de combater a obsolescência programada

Em uma natureza em que tudo se transforma, o homem não só inventou o lixo como a tecnologia capaz de fabricar produtos cada vez mais modernos e que duram cada vez menos. Chegou a hora de combater a obsolescência programada

O boom econômico do Brasil dos últimos 15 anos esconde números impressionantes. Somos um país de 190 milhões de pessoas e 240 milhões de telefones celulares. Consumimos 
2,5 milhões de novos carros e 2 milhões de novas geladeiras a cada ano – e esse número continua crescendo. Geramos 370 mil toneladas anuais de lixo eletrônico, o mais alto índice produzido por habitante entre os países emergentes, superando a China e a Índia. É a nossa singela “contribuição” para os 40 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos anuais produzidos no mundo, a maioria repousando em imensos cemitérios tecnológicos de países pobres.

Um dos principais motivos dessas taxas espantosas de poluição é pouco discutido e está envolto numa névoa de teorias conspiratórias: a obsolescência programada. Na linguagem simples, trata-se da estratégia da indústria de bens de consumo de fabricar produtos com uma vida útil curta, predeterminada desde sua concepção, a fim de manter o ciclo de consumo girando rapidamente.

Exemplos da perversidade desse modelo estão reunidos no documentário Comprar, tirar, comprar, lançado em 2010 pela cineasta norueguesa Cosima Dannoritzer. “Essa estratégia está disseminada desde a fabricação de produtos com data para acabar até o estímulo psicológico que a propaganda promove convencendo as pessoas de que elas precisam de coisas novas”, diz a diretora do filme.

O fio condutor do documentário, produzido na Espanha, se baseia no périplo de um cidadão comum que tenta consertar sua impressora, que deixou de funcionar abrupta e misteriosamente. Quando busca assistência técnica, o homem ouve que é mais barato comprar um produto novo do que consertar o que possui. Intrigado, ele sai à caça de explicações e formas alternativas de resolver o problema da impressora. Constata, por fim, que um chip bloqueia o equipamento após cinco anos de uso ou 18 mil impressões. O motivo alegado pela fabricante, ao cabo das investigações do filme, é zelar pela “segurança” do usuário. Ninguém explica, porém, que tipo de risco ele correria ao imprimir a página 18.001.

A obsolescência foi posta em prática pela primeira vez em 1924, quando um lobby promovido pela indústria de lâmpadas definiu que o tempo de duração do produto deveria baixar de 2,5 mil horas para mil horas por lâmpada, a fim de aumentar as vendas. Quem contrariasse a política era punido pelos sindicatos. Em 1940, a meta estava consolidada. “Passamos a desejar coisas que não precisamos. Há uma ideia vigente, hoje, de que o bem-estar está ligado a ter um objeto. Valoriza-se muito a ideia de que ter algo é o que nos define”, avalia Nina Orlow, urbanista da Rede Nossa São Paulo que participa da Agenda 21 local, projeto decorrente da Rio 92, que busca implantar práticas sustentáveis regionalmente – incluindo estudos sobre o impacto do lixo. Num ciclo que se retroalimenta, a substituição cada vez mais veloz de produtos por novas versões acaba levando itens em condições de uso para o lixo.

“Sabemos que uma grande quantidade de equipamentos eletrônicos usados é jogada fora – e acaba indo parar em aterros locais ou, em alguns lugares, é até incinerada. Quantidades menores são destinadas a pequenos recicladores, algumas acabam sendo reutilizadas e outras são desmontadas para uso de cada um dos componentes”, escreve a norte-americana Elizabeth Grossman em seu livro High tech trash: digital devices, hidden toxics, and human health (“Lixo high tech: dispositivos eletrônicos, elementos tóxicos escondidos e saúde humana”, na tradução livre). Lançado em 2002, o livro resume uma situação apenas agravada, dez anos depois de chegar às livrarias.

Apesar de se referir ao mercado norte-americano, a descrição de Elizabeth se aplica perfeitamente ao Brasil de 2012. Segundo estimativa da entidade Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), menos de 10 toneladas de lixo eletrônico são recicladas no Brasil por ano. “Há uma falta de ação dos consumidores em devolver esses materiais para a indústria”, afirma André Vilhena, diretor executivo da entidade. O Cempre é composto de empresas dispostas a encontrar formas de diminuir o impacto no planeta pela venda de seus produtos.

Consumir menos, produzir melhor

Esse cenário prova a necessidade de nós, consumidores, reavaliarmos a maneira como consumimos o que a indústria nos oferece. “A economia não irá funcionar por muito mais tempo dentro dessa lógica”, afirma Cosima. Algumas iniciativas têm surgido nesse sentido. Uma delas, pautada pela biomimética, propõe a criação de processos produtivos e de consumo mais orgânicos. A teoria foi detalhada em Cradle to cradle: Remaking the way we make things (“Do berço ao berço – refazendo a maneira como fazemos as coisas”), livro do arquiteto norte-americano William McDonough e do químico alemão Michael Braungart. A dupla propõe que a indústria seja ecoeficaz.

Ou seja: não basta usar matérias-primas “menos piores” no impacto ao meio ambiente. Mas, sim, adotar saídas ecossustentáveis que tornem o produto ainda mais atrativo ao consumidor, sem gerar resíduos não reaproveitáveis. Isso aumenta a satisfação do consumidor, o tempo de uso dos produtos e permite que, ao fim do uso, eles retornem ao ciclo produtivo de forma orgânica, sem poluir. Como exemplo, o próprio exemplar físico de Cradle to cradle: feito de um papel especial, impresso com tinta não tóxica, o livro pode ser dissolvido num polímero de alta qualidade e, assim, facilmente reinserido na cadeia produtiva. Ou mesmo virar adubo.

A ideia de descartar produtos com boas condições de uso está disseminada, desde a fabricação de novidades com data para acabar até a propaganda que nos convence a comprar tudo de novo

“Estou muito animado com o crescimento da aceitação e adoção que nossa visão está tendo”, diz Braungart. “As pessoas estão mais familiarizadas com materiais como esses e estão mudando o foco de seu trabalho. O foco está superando a meta de vender produtos e caminhando para a oferta de serviços.” 
O químico vai além e provoca: por que não vender, em vez de um par de sapatos, o serviço de proteção aos pés? Isso tiraria, segundo ele, o foco do produto e permitiria ao fabricante criar soluções passageiras e mais eficazes. E que pudessem, ainda, ser reincorporadas à cadeia produtiva. “A lógica de ter uma equipe de marketing preocupada em convencer o consumidor a comprar um par de sapatos atrás do outro é estúpida.”

A proposta de Braungart e McDonough, ainda que um tanto utópica, está em linha com o que se discute no mercado de reciclagem de eletroeletrônicos hoje. No centro das discussões está a logística reversa: os fabricantes tornam-se responsáveis por fazer com que os seus produtos, quando descartados, sejam reciclados e aproveitados no processo de fabricação de novos gadgets. No Brasil, alguns grandes fabricantes oferecem a opção ao consumidor. É possível, com alguma burocracia, devolver seus equipamentos antigos a quem os colocou no mercado.

O governo, por sua vez, regulamentou a questão em 2010. O então presidente Lula sancionou, em agosto daquele ano, a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Pela lei, que passa a vigorar em 2014, os diversos setores da economia devem oferecer produtos, da embalagem à sua composição, que sejam facilmente reincorporados à cadeia de produção. À indústria eletroeletrônica, cabe colocar em pleno funcionamento um sistema que permita ao consumidor devolver o produto que não quiser ou puder mais usar, para que seja reciclado. O desafio, que ainda inclui a participação dos governos estaduais e municipais, é estimular a população a reciclar esse material – sobretudo o lixo eletrônico.

Essas iniciativas, tímidas, ainda estão longe de resolver o problema. Mais do que leis, é preciso uma mudança na mentalidade do consumidor. “O Brasil não tem escala de reciclagem de eletroeletrônicos e acaba exportando parte do material que recolhe para outros mercados”, afirma Vilhena, do Cempre. Quem determinará a intensidade e duração dessa revolução, porém, é a indústria. Isso, claro, se ela estiver disposta a abandonar a obsolescência como estratégia de negócios, e passar a oferecer produtos com um prazo prévio em sintonia com uma natureza que não produz lixo.

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