Uma luz sobre nossas mazelas
As palavras de Soninha jogaram luz sobre um daqueles cantinhos embaixo do criado-mudo da sociedade
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Concordo com o Gilberto Dimenstein e considero Soninha Francine uma educadora. Sua opção por um programa educativo, em detrimento da fama, do glamour de uma emissora teen musical e dos altos cachês de publicidade, por si, já deveriam lhe garantir essa condição. Quem assistiu ao agora extinto RG presenciou um esforço sério e ininterrupto no sentido de não subestimar quem se propõe a ficar diante de um aparelho de tevê. Com recursos limitadíssimos, Soninha e sua equipe se viravam para conseguir convidados e temas para debates relevantes, que seguramente supriam as valas deixadas por um sistema educacional, que ainda deixa dúvidas sobre merecer tal nomenclatura.
Não bastasse todo seu trabalho diário pela educação, ao dar, talvez ingenuamente, seu depoimento a revista semanal, deixando claro o não-incentivo ao uso da maconha, passando a anos-luz da apologia, mas declarando usar esporadicamente, Soninha foi muito além da discussão sobre a descriminação da maconha (que uma infinidade de pessoas ainda confunde com a legalização). As palavras de Soninha, segundo ela editadas na capa de forma desleal, causaram verdadeira comoção nacional, por jogarem luz sobre um daqueles cantinhos embaixo do criado-mudo da sociedade, para onde varremos nossas mazelas, que, na escura e humilde ignorância, se reproduz e fortalece. É claro que nos programas de televisão, nos escritórios de advocacia, nas faculdades, nos jornais, nos açougues, nas diretorias de multinacionais, no ramo hoteleiro e até na Presidência da República, há gente que fumou ou fuma maconha, buscando alterar seu estado psíquico e lidar com o peso da existência, assim como faz quem bebe sua caipivodka, seu uísque, acende seu Free, se imaginando um saxofonista de ‘cool jazz’. Será que devemos crucificar e demitir todos eles, ou falar sobre o assunto?
Esses dias a Globo exibiu, em horário nobre, um depoimento de conotação racista. Todos os dias a tevê, em programas que vão da Praça é Nossa ao Programa do Jô , dispara piadas de tom abertamente preconceituoso contra homossexuais. E assim o Brasil vai se apequenando.
Reproduzo, abaixo, prova conclusiva: depoimento de uma profissional brilhante, pessoa de qualidades raras e extremamente carinhosa, prestado à reportagem da revista Tpm. Não se trata de alguém reclamando do patrão que a demitiu ou do promotor que a persegue. Mas de uma garota falando com a própria mãe.
‘- Mãe, preste atenção: eu sou gay. Não sou solteirona. Sou gay!
Faz um ano e meio que ‘saí do armário’ para minha mãe. Faz um ano e meio que ela saiu do carro e me deixou falando sozinha em plena Avenida Santo Amaro. Faz um ano e meio que me evita, que nem do tempo falamos. Não há como colocar em palavras a falta que minha mãe me faz. Sempre sonhei com o dia em que finalmente me abriria com ela e viraríamos melhores amigas. De quem é a culpa quando o relacionamento mais visceral que existe, o de mãe e filho, não dá certo? O que exatamente pensam os pais que preferem fechar as portas para um filho gay a tentar entendê-lo? Será que a incondicionalidade do amor materno só vale para os filhos héteros? Como faz o filho para entender a mãe que não o aceita como ele é?
Fato é que continuo acreditando no dia em que voltaremos a ser amigas. Como éramos quando eu, ainda pequena, fazia questão de voltar para casa com uma flor para ela. Quando ela passava noites em claro para cuidar da minha febre. Quando ela ia assistir aos meus jogos de vôlei e era a torcedora mais vibrante do ginásio. Quando não precisávamos falar do tempo.’
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