Buraco mais embaixo

por Jr. Bellé
Trip #270

Ele é uma cicatriz, a primeira, mas ninguém quer removê-la. Ele é um cacra da barriga, mas está ligado à mente e ao ego. É a evidência impressa na pele, bem no meio do corpo, de nossa interdependência

Era uma vez um cordão umbilical, que cortado tornou-se um coto, que caído tornou-se umbigo. Essa marca de nascença, cicatriz primeira, a evidência carnal de nosso vínculo com o outro, de nossa interdependência, a mais terna e materna memória talhada na pele, inscrita bem no meio do corpo, pra não deixar dúvida, pra não levantar suspeitas. Seja por sua originária importância vital, pelo impacto na constituição de nossa psiquê ou mesmo por sua posição chácrica, o umbigo é um signo físico que todos carregamos (com exceção de Adão e Eva, diriam os mais ortodoxos) e do qual ninguém quer se livrar – ou você conhece alguém que fez uma cirurgia plástica ou usou algum produto dermatológico para arrancar essa cicatriz do meio da barriga?

Existem procedimentos cirúrgicos para os mais variados tratos estéticos, como moldar o nariz, aumentar os seios, afinar a cintura e também para aplainar, esconder ou apagar cicatrizes. Não há, no entanto, uma cirurgia para apagar o umbigo, nossa cicatriz original. O que existe, ao contrário, é uma operação para reconstruir ou embelezar suas nuances, a onfaloplastia. Segundo o cirurgião-geral especializado em cirurgia plástica Mário Farinazzo, esse procedimento é recomendado quando o umbigo sofreu algum tipo de deformação, o que ocorre com mais frequência depois da gravidez ou de uma grande perda de peso, mas também pode vir de sequelas de um piercing ou de cirurgias por videoendoscopia. “Poucas vezes as onfaloplastias são realizadas de forma isolada, geralmente são feitas junto com outros procedimentos, como a cirurgia plástica do abdome ou a correção de hérnias umbilicais.”

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Do ponto de vista estético, explica Farinazzo, existe uma variação dentro da normalidade do formato do umbigo. “De maneira geral, o umbigo ‘saltado’, muito grande ou o popularmente chamado ‘umbigo triste’, são os que mais incomodam. A programação do que será realizado pode ser discutida com o paciente, mas um umbigo de tamanho médio, com uma concavidade bem definida e arredondada são os pontos-chaves em todas as cirurgias.” Também é preciso verificar a posição correta, pois um umbigo muito para cima, ou muito para baixo, pode causar estranhamento. “O umbigo fica em geral de 15 a 20 centímetros da rima da vagina ou da base do pênis, ou na altura do osso ilíaco, aquele mais proeminente da bacia.”

“Olhar para o umbigo é olhar para a cicatriz que ficou em mim da minha dependência concreta de outra pessoa. É a marca da ligação com o outro”
Iraci Galiás, psiquiatra e analista junguiana

Mas o umbigo não é apenas um rasgo biológico passível de ser remodelado, é também, e principalmente, um registro indelével de que um dia estivemos visceralmente conectados a outra pessoa – e absolutamente dependentes dela. Daí emerge sua importância para nossa psiquê.

O umbigo de Narciso

Quando bradamos, cheios de sinceridade, em nossos filantrópicos e certeiros perdigotos, que alguém só olha para o próprio umbigo, estamos nos valendo do melhor lirismo popular para chamar essa pessoa de narcisista. Ou ao menos esse é o propósito. Se você já foi alvo de tal acusação, uma boa notícia: quiçá você seja, ao menos em termos conceituais, justamente o contrário, um altruísta. Isso porque estamos diante de um paradoxo, como elucida Iraci Galiás, médica psiquiatra, analista junguiana e uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA): “Olhar para o umbigo é, simbolicamente, olhar para a cicatriz de nossa interdependência. É a cicatriz que ficou em mim do corte da minha dependência concreta de outra pessoa, que é o corte do cordão umbilical. É a marca de nossa ligação com o outro, através do arquétipo da grande mãe, que corresponde ao instinto materno”.

Quando olhamos para o próprio umbigo, metafórica e empiricamente, enxergamos ali a memória fendida de um vínculo que nos remete a outro alguém. Vislumbramos, em outras palavras, a saudade de uma conexão carnal, real e absoluta, capaz de nos nutrir não apenas das substâncias imprescindíveis para o corpo, mas também para a alma, capaz de nos acalentar, de nos aconchegar, de nos proteger – e, sem dúvidas, sentimos muita falta disso.

Esse instinto maternal mencionado por Iraci, segundo o pensamento junguiano, não é exclusividade das mães, mas de todos os cuidadores primários da criança, sejam eles os pais, tios, a babá, a avó. Ou seja, são aqueles que tomam conta da criança, que por ela zelam e com ela estabelecem laços de empatia. “Para Jung, a mãe é um arquétipo, é o primeiro modelo de intersubjetividade. Mesmo antes de falar, a criança manifesta, através do choro, por exemplo, que está com fome, com dor, sono, com algum desconforto. E a mãe ou os cuidadores primários vão aprendendo a interpretar aquela linguagem pré-verbal e atendê-la. É a partir deles que começamos a formar nossa autoimagem.”

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A matéria-prima de nossa autoimagem, portanto, é justamente essa intersubjetividade – a dizer, as trocas que estabelecemos com todos que manifestam esse instinto maternal quando ainda somos bebês. “A subjetividade da criança é a subjetividade do outro. Mas isso acontece na vida toda: a autoimagem está muito baseada em como a gente se vê, e isso depende de como a gente é visto, como os outros nos veem. Faz parte da nossa natureza essa interdependência, é fundamental para a identidade.” O umbigo, neste cenário, é a cicatriz eterna que prova o quanto nossa espécie é dependente da intersubjetividade, o quanto estamos à mercê do outro não apenas na infância: precisamos de alguém para validar nosso sucesso ou fracasso profissional, para nos sentirmos amados ou queridos, para nos apercebermos necessários. “É a partir disso que criamos nosso narcisismo saudável, algo que se faz a vida toda. A cada novo papel, um novo umbigo.”

Mas o papel do umbigo vai ainda mais além da psiquê e da biologia. É, também, um ponto cármico, um nó de energias para inúmeras tradições religiosas e culturais. É nessa região da barriga que se concentra a energia vital – o ki dos japoneses, o chi dos chineses e o prana dos indianos. De acordo com a professora de kundalini ioga Sridevi Gabriele Oliveira, criadora da Cura do Feminino, existem diferentes tradições no estudo dos pontos de energia, o que leva a pequenas variações na interpretação de suas funções, posição e cor. “A minha tradição principal, o kundalini ioga, diz que no ponto do umbigo fica o terceiro chacra, onde está nosso poder pessoal, que pode ser ligado ao hara, da tradição chinesa, um ponto de vitalidade que diz respeito a nossa radiância no mundo, a nossa capacidade de nos projetarmos e realizarmos algo.”

Os chacras não são independentes, trabalham juntos numa sutil coordenação. O desequilíbrio de um pode ser o desequilíbrio de todos. No caso do terceiro chacra, é possível que desencadeie uma baixa no nível de vitalidade e traga problemas intestinais, como diarreia e constipação. “Apesar do sistema nervoso estar ligado ao sexto chacra, um desequilíbrio no terceiro pode causar problemas no sistema nervoso, pois há ligações com o intestino, onde existem muitos neurônios. A pessoa com esse chacra forte tem uma mente forte, com alta capacidade de organização. Um desequilíbrio pode trazer medo, ansiedade e um desejo por controle excessivo.”

Pode parecer estranho, mas Sridevi Gabriele tem razão. Nosso intestino possui milhões de neurônios em suas paredes (o que, claro, é pouco se comparado aos bilhões na cabeça) e os mesmos neurotransmissores encontrados em nosso cérebro – a maior parte da serotonina do seu corpo, aliás, é fabricada no intestino. Entre essas duas massas pensantes existe uma eficaz rede de comunicação, descoberta relativamente recente da ciência que vem abraçar um milenar conhecimento oriental. Assim sendo, uma perturbação no terceiro chacra pode indicar problemas no sistema digestivo (fígado, estômago, pâncreas) e também no sistema nervoso.

Na tradição do kundalini ioga, o elemento do chacra do umbigo é o fogo, sua cor é amarela e está ligado a Lakshmi, a deusa da prosperidade. “Por isso se diz que quando este chacra está equilibrado, a pessoa terá uma boa relação com a parte financeira, realização profissional, ou seja, há uma conexão com o campo material.” 

Mas nem tudo são flores nessa mandala chácrica, particularmente quando Narciso, uma vez mais, vem dar as boas-vindas ao seu próprio umbigo: “O terceiro chacra também está bastante ligado ao ego. Se não estiver em harmonia, se estiver com excesso de energia, a pessoa pode sofrer com a arrogância. O ego estará muito grande e haverá dificuldade para abrir o próximo chacra, que é o do coração. A pessoa tem muito fogo, muita força de realização, mas não abre o coração, o que traria compaixão, paz, capacidade de pausar entre as realizações, traria o amor ao próximo. Assim, ela ficará presa em si mesma”. O oposto também pode ocorrer. A baixa energética no terceiro chacra impacta na autoconfiança, resultando em timidez, vergonha e vitimização.

Digerindo tudo

A visão do kundalini ioga vai ao encontro da ayurveda, a medicina integrativa desenvolvida há milhares de anos na Índia e praticada até hoje. Para a ayurveda, o universo é composto por cinco elementos: éter, ar, fogo, água e terra. Nesse sistema, o umbigo está relacionado ao elemento fogo, ou agni em sânscrito, e influencia diretamente nossa digestão e metabolismo. No entanto, também diz respeito à saúde mental e emocional, como explica Renata Leão, jornalista, terapeuta ayurveda e instrutora de meditação. “O agni é um indicador de como está o seu sistema como um todo. Se ele estiver desequilibrado, sua saúde – física, mental e emocional – também estará.”

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Segundo Renata, com as toxinas estocadas no organismo devido à má digestão, a pessoa fica pesada, densa e não consegue raciocinar com clareza. “O David Frawley, que é um dos mais importantes médicos de ayurveda da atualidade, fala que quando o agni está ruim, o corpo fica letárgico, a mente fica turva e as emoções, nubladas. E isso tudo é possível sentir com a mão, colocando-a na região do umbigo, sentindo se está quente, frio, inchado, com gases. Medidas simples de melhora na alimentação, na rotina e no estilo de vida podem mudar esse quadro, trazendo de volta para a pessoa a energia vital e o entusiasmo pela vida.”

Nessa região, ela acrescenta, há também um importante ponto de concentração de energia vital que impacta diretamente a saúde. O nabhi, nome desse ponto em sânscrito, é o principal centro energético da digestão e esforço físico. “A região do umbigo diz muito – para não dizer tudo – sobre o estado de uma pessoa”, afirma Renata.

Seja através do fogo do agni ou das conexões do terceiro chacra, seja uma perdição de Narciso, a rosa dos ventos do ego, a bússola central do corpo ou nossa primeira e indelével cicatriz, o umbigo esconde muito mais mistérios, significados, potências e energias do que poderiam supor suas delicadas curvas revestidas de pele.

Por isso, da próxima vez que olhar para seu umbigo lembre-se de que ali, junto contigo, está o outro, o fogo e o ego.

Umbigo

Por Lenine e Bráulio Tavares*

Umbigo meu nome é umbigo/ Gosto muito de conversar comigo/ Umbigo meu nome é espelho/ Não dou ouvidos nem peço conselhos/ Umbigo meu nome é certeza/ Só é real o que convém à realeza/ Umbigo meu nome é verdade/ Eu sou o dono do mundo, 
o rei da cidade

Umbigo meu nome é umbigo/ Eu sou mais eu, dê cá um close no narciso/ Umbigo meu nome é umbigo/ Me peça tudo, só não peça para ter juízo/ Umbigo meu nome é umbigo/ Não sei de nada além de mim: o amor é cego/ Umbigo meu nome é umbigo/ Vivo na sombra e água fresca do meu ego

Umbigo meu nome é umbigo/ Quem está contra mim também está comigo/ Umbigo meu nome é guru/ Eu caí do céu foi pra mandar em tu/ Umbigo meu nome é umbigo/ O mundo perde o freio, e eu nem ligo/ Comigo só não vai quem já morreu/ Umbigo meu nome sou eu

Eu vou andando, e quem quiser que acerte o passo/ Faça o que eu digo, eu me concentro no que faço/ 
Se um dia o mundo pegar fogo eu salto antes/ E dou adeus a seis bilhões de figurantes

*A música “Umbigo”, acima, foi lançada no álbum Falange canibal, de 2002, o quinto disco de Lenine, e feita em parceria com o escritor e compositor Bráulio Tavares.

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