por Luiz Filipe Tavares

Documentário brasileiro mostra como é a vida em Cabo Polonio, uma praia perdida no tempo e no espaço

No sudeste uruguaio existe uma praia, pequeno paraíso isolado, sem cercas, luz elétrica nem água encanada e onde só se chega a pé ou com um jipe coletivo. Trata-se de uma faixa de terra de 25 mil hectares à beira-mar, onde vivem menos de 100 pessoas e que remonta a um estilo de vida que praticamente não existe mais no ocidente. Assim é o Cabo Polonio, foco do documentário Al Polonio ¡Déjalo Ser!, dirigido pelo gaúcho Paulinho Azevedo em parceria com a mexicana Katia Morales Gaitan. Gravado em apenas quatro dias, o média-metragem está disponível no YouTube e mostra a vida dessa pequena e remota comunidade de pescadores e agricultores que atrai pessoas de vários lugares do globo atrás de paz e tranquilidade - e as mudanças de um lugar isolado que passa de repente a receber turismo.

Conversamos com o diretor do filme para falar sobre o senso de comunidade do lugar, as impressões sobre a vida à beira mar, as vantagens de se viver longe das cidades e a relação entre o povo que ali vive com a terra que adotou como sua. 

Trip - Como você conheceu o Cabo Polonio?
Paulinho Azevedo - Eu sou de Porto Alegre e aqui no Sul muita gente viaja para o Uruguai no verão. Então um grupo de amigos meus foi passar férias no Forte de Santa Teresa, que é próximo ao Cabo Polonio. Eles acabaram passando um dia nesse lugar mais isolado e ficaram maravilhados. E então, no Reveillon de 2010 para 2011 eu resolvi ir para lá com esses amigos. Passamos 10 dias no Polonio e foram férias incríveis.

E qual foi a primeira impressão que você teve quando chegou?
É um choque. Lá não tem trânsito, não tem luz e não tem barulho. Você só ouve a natureza, o vento, o mar e os lobos marinhos. É uma coisa muito interessante, ainda mais para quem, como eu, mora em uma cidade grande.

"Tem gente que nasceu lá, se criou ali e não abre mão desse tipo de vida mais calma. Mas todos estão lá porque querem. Eles não são náufragos nem alienados."

Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre o Cabo Polônio? Por que esse lugar?
Quando me falaram de como era o lugar eu estava começando a trabalhar de fato com audiovisual. Na época eu estava terminando meu primeiro curta então resolvi levar minha câmera para fazer algumas imagens por lá. Mas fui sem nenhuma grande intenção de fazer um filme. Mas quando eu cheguei lá eu conheci a Katia Gaitan, uma socióloga mexicana que trabalha com documentários e que também tinha levado a câmera dela pensando em fazer imagens do lugar.

E assim nasceu o embrião do filme...
Exatamente. Até então eu já tinha conhecido alguns dos personagens que aparecem no filme. Então, com esses contatos e a conversa com a Katia, aproveitamos a oportunidade e fomos perguntar se essas pessoas topariam falar com a gente. E começamos assim. Como o lugar é pequeno, dava pra percorrer o povoado inteiro caminhando. Então enquanto meus amigos iam à praia eu e ela batíamos perna atrás das pessoas [risos]. Foi bem ao acaso que essa viagem se transformou em um documentário.

Como foi a produção do filme? Quanto tempo levou pra ficar pronto?
Foram só quatro dias de filmagem. A produção levou mais tempo porque o material foi para o México para que a Kátia pudesse editá-lo. Ela estava envolvida com outros projetos, por isso levamos um tempo para finalizar o filme. Filmamos nos primeiros dias de 2011 e o projeto ficou pronto agora, no final do ano passado.

"É isso que encanta os moradores do Polonio: a fuga da loucura da cidade grande, do barulho, da poluição e da correria"

Como foi o contato com os personagens? As pessoas de lá tem medo de que o Polônio vire um centro de turismo predatório?
Não senti essa preocupação por parte deles. Claro que teve gente que não quis falar, mas imagino que seja mais por timidez mesmo. Tentamos falar com algumas senhoras que vivem lá também, mas elas não se sentiram confortáveis para falar com as câmeras. Mas os personagens que falaram não tem o menor problema em receber as câmeras. Muitos pelo contrário. Até o Pancho, que é o dono do bar de rock que aparece no filme, disse que ficou feliz em poder falar para mostrar ao mundo que lá existe uma comunidade que quer sim ser preservada. Eles sabem da importância de documentários como esse para a preservação de pequenos grupos como o de Cabo Polonio.

Depois de ter falado com tanta gente, como você vê a relação dos moradores da área com o Polônio?
Eu vejo que tem muita gente que foi pra lá simplesmente por querer ficar sossegado. Lá é um lugar de pessoas que querem fazer uma busca mais interior. Tem gente que nasceu lá, se criou ali e não abre mão desse tipo de vida mais calma. Mas todos estão lá porque querem. Eles não são náufragos nem alienados. Vivem em um lugar que pode ser percorrido de ponta a ponta em quinze minutos e onde vivem menos de 100 pessoas no inverno. É isso que encanta os moradores do Polonio: a fuga da loucura da cidade grande, do barulho, da poluição e da correria.

Vai lá: http://youtu.be/TXmnaBwjey4

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