por Luiz Filipe Tavares

Compositor e multiinstrumentista capixaba fala sobre novo álbum e perigos do hype

Aos 24 anos, Lúcio da Silva Souza está no olho do furacão da música brasileira neste final de ano. Seu disco de estreia, Claridão, chegou bem recebido como um dos melhores de 2012 e garantiu ao compositor e multiinstrumentista capixaba um lugar de reconhecimento na nova safra da música alternativa do Brasil. Fundindo tradições nacionais com uma musicalidade mais eletrônica, o disco amplia o universo criado por Silva em seu primeiro e autointitulado EP lançado ainda no ano passado.

As ambições do músico só aumentaram nesse meio tempo. Entre o EP e o disco de estreia, Silva assinou com o selo SLAP (da gravadora Som Livre), que lançou Claridão para um mundo muito além da internet, território onde o cantor já havia se estabelecido desde 2010. Com o disco pronto, uma avalanche de resenhas e entrevistas colocaram o nativo de Vitória como “a bola da vez” dsse ano, rendendo cada vez mais shows em mais cidades diferentes.

O som também cresceu. Mais ousado e maduro, Silva foi além e saiu da sua zona de conforto para produzir o disco com suas próprias mãos, mixando via internet com o britânico Matt Colton. Mas só saiu da zona de conforto no sentido figurado, afinal, foi no conforto do lar que o compositor decidiu gravar seu CD de estreia.

Por telefone, Lúcio abriu o jogo para falar sobre Claridão, a cena musical de Vitória, as vantagens de gravar em casa, as ambições musicais, as comparações na imprensa e os perigos de ser “o próximo grande nome” da música brasileira. Os melhores momentos da conversa você lê abaixo.

Antes de mais nada, onde você está agora?
Estou em casa aqui em Vitória. Estive no Rio de Janeiro fazendo shows e voltei pra casa essa semana. Hoje só saí de casa pra ir na minha aula de violino de manhã [risos]. Agora estou de bobeira aproveitando a tarde...

Você é um cara que deve se sentir bem confortável em casa. Até optou por gravar seu primeiro disco aí mesmo...
[risos] É verdade. Adoro ficar em casa. Tenho um miniestúdio aqui que não dá nem para chamar de “home studio”. Escolhi gravar em casa mesmo porque tem essa coisa de não ter hora corrida de estúdio, onde você está pagando a cada minuto. Gravar em casa é bom porquê, se você quiser ficar até de manhã ou se quiser começar a gravar logo cedo, você pode. Você faz o seu horário, o que pra mim é uma enorme vantagem.

Depois de lançar seu EP de forma independente você assinou com o SLAP, que é um selo da gravadora Som Livre. O pessoal da gravadora achou ruim de você gravar em casa? Houve resistência por parte deles?
Conversei com a gravadora durante uns quatro ou cinco meses antes de assinar. Segurei bastante até ter certeza de que eu poderia continuar produzindo o que eu quisesse sob esse contrato. Eles curtiram o resultado do EP que eu já tinha lançado, então eles deixaram eu produzir o disco do jeito que eu queria. O combinado era que, se eu conseguisse um resultado próximo ao que tinha atingido com o EP, eu não teria problemas. Então eles deixaram eu continuar gravando assim mesmo.

Hoje em dia diminuiu essa situação da interferência vinda das gravadoras?
Comigo foi muito tranquilo. Eu imaginava que essa relação com a gravadora seria bem diferente. Pensei que colocariam um produtor manda-chuva dizendo sempre o que eu deveria fazer [risos]. Pelo menos essa era a ideia que eu tinha. O disco acabou ficando bem autoral mesmo, até na capa - fui eu quem escolheu a arte, o fotógrafo e tive a decisão final. Então foi tudo bem livre. Mas eu não sei se essa liberdade acontece com todo mundo.

Conta um pouco sobre o Claridão: como foi seu processo de gravação e quanto tempo levou para ficar pronto?
Comecei a trabalhar no disco em janeiro. Até abril eu ainda estava compondo e gravando demos ao mesmo tempo. Como estava gravando em casa, pude ir compondo, gravando e fazendo arranjos conforme as músicas iam ficando prontas. No total foram uns quatro meses no estúdio. Depois eu fiz a mixagem por email com o Matt Colton, que é um engenheiro de som inglês bem experiente. Trabalhamos juntos por mais uns três meses nisso. Então levei mais ou menos sete meses para completar o disco.

A recepção de Claridão te surpreendeu?
Fiquei sim bastante surpreso. Até porque o primeiro EP, apesar de ter sido bem comentado, só teve mesmo repercussão na internet. Isso rendeu coisas legais pra mim, incluindo o contrato com a gravadora. Mas o primeiro disco sempre tem aquela incerteza em volta. Fiquei apreensivo com esse lançamento. Você se preocupa se as pessoas vão gostar ou não do seu trabalho. Não é uma coisa que você faz sem pensar. Não sabia o que esperar do disco, então fiquei muito feliz com a boa repercussão.

 

"O fato de [Claridão] ter mais sintetizadores e mais influências diferentes misturadas me mostra que tive coragem de arriscar"


Qual a maior diferença que você vê entre o primeiro EP e o Claridão?
No primeiro EP eu não tinha uma ideia geral da direção que eu queria tomar com minha música. De 2009, quando comecei a esboçar umas ideias no computador, até 2011, passei por um período onde eu ganhei muita segurança. Depois de um primeiro lançamento você tem mais noção do que você está fazendo. Então na hora de gravar o primeiro álbum eu já estava um pouquinho mais maduro em relação a saber o que eu queria fazer. Sinto que arrisquei um pouco mais neste disco do que tinha feito no EP. O fato de ter mais sintetizadores e mais influências diferentes misturadas sem medo me mostra que tive coragem de arriscar. E fiquei bem feliz com o resultado final.

O disco foi disponibilizado em streaming. Hoje é possível um músico sobreviver sem liberar seus discos na internet?
Eu acho meio impossível. A internet é uma mídia fundamental hoje, talvez até a mais importante. Eu mesmo não sou uma pessoa que ouve rádio. Então o principal meio pra mim é a própria internet. É por lá que eu me informo sobre música e ouço as novidades. A internet é muito importante para ajudar nosso trabalho a crescer.

Como anda o cenário de Vitória para artistas como você que trabalham com música mais experimental?
Acredite ou não, eu nunca toquei em Vitória [risos].

Nenhuma vez? É mais um exemplo daquela velha história de que “santo de casa não faz milagre”...
[gargalhadas] Exatamente. Mas com o CD saindo, essas oportunidades vão aparecer. Já apareceram alguns convites para shows aqui, mas a impressão que eu tenho é que tocar em casa é mais difícil do que tocar em qualquer outro lugar. Gosto muito daqui e morei em Vitória a vida inteira, então tem essa responsa de ter um monte de gente que eu conheço que iria em um show meu na cidade... Imagino que ficaria bem nervoso de tocar aqui [risos].

Lendo as resenhas sobre seu disco eu vi uma questão curiosa: a imensa maioria dos jornalistas fez questão de dizer que seu som não tem nada a ver com o Los Hermanos...
É estranho, não é? Eu estou acostumado com isso. Já fizeram milhões de comparações comigo. Até com o Ivan Lins e com Guilherme Arantes já me compararam! [risos] E o pior é que eu nem tenho influência de nenhum desses dois em questão. Até conhecia as músicas mais famosas deles, mas nunca tive disco deles em casa...

 

"Quando há um hype muito grande em cima de você, aquilo acaba te guiando. As opiniões e expectativas das pessoas acabam te influenciando..."


Essas comparações são normais na imprensa. Mas vi uma diferença nesse caso, já que estão dizendo com o que o seu som não se parece. Você acha que estamos chegando a um momento de ruptura em que as pessoas no mainstream já estão procurando urgentemente a “próxima grande banda”, ou o "próximo Los Hermanos"?
Sim, mas acho que isso é normal também: as pessoas sempre procuram uma coisa para comparar. E como tem muita coisa misturada no meu som, sempre vai ter alguém apontando pra um lado diferente. Já gostei muito dos Los Hermanos. Eles eram uma das minhas bandas favoritas quando eu estava no ensino médio. Eu tive essa fase Los Hermanos, mas com certeza essa não foi minha primeira referência. Eles estão no topo das favoritas no Brasil faz tempo, tudo isso graças ao que eles fizeram com o Ventura. Então é natural que eles sejam um nome tão presente assim.

Você tem medo de ser excessivamente elogiado na imprensa?
Eu me preocupo sim. A música tem um lado da despretensão que é muito legal. Adoro poder trabalhar por diversão. Mas quando há um hype muito grande em cima de você, aquilo acaba te guiando mesmo se você não quiser que isso aconteça. As opiniões e expectativas das pessoas acabam te influenciando e isso não é bom para nenhum artista.

 ***

Veja abaixo o clipe de "Mais Cedo", primeiro single do disco de estreia de Silva, Claridão.

Para ouvir o disco na íntegra:

Vai lá: www.facebook.com/listentosilva

matérias relacionadas