UM DIA PREFEITO
Qualquer projeto decente de recuperação de pessoas, famílias ou comunidades, passa inevitavelmente pelo acesso à educação, à dignidade e ao lazer
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Diante da dureza do editorial de primeira página publicado pelo JT recentemente, e, muito especialmente diante do noticiário calamitoso que o motivou, chega a gerar desconforto falar de coisas como lazer e urbanismo.
Uma outra maneira de ver, porém, estimula-me. É que qualquer projeto decente de recuperação de pessoas, famílias ou comunidades, passa inevitavelmente pelo acesso à educação, à dignidade e ao lazer.
Já estão batidas e gastas as estatísticas que provam por aritmética básica que onde há áreas de lazer, esporte e/ou educação, caem sensivelmente os índices de violência, criminalidade e os números de chacinas como as que enchem as páginas dos jornais paulistanos diariamente.
RESSURREIÇÃO
Assim, vejamos: não faz muito tempo mencionei aqui um dos projetos extremamente bem sucedidos da gestão atual do município do Rio de Janeiro. Refiro-me ao parque Antonio Carlos Jobim, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Numa área onde há pouco tempo um cidadão normal corria risco e não se aventurava sequer a uma caminhada, com um passe de idéias simples e bem planejadas, criou-se um dos locais mais agradáveis da cidade. A solução foi muito simples: além de uma garibada nos jardins e na iluminação, uma equipe de pessoas que conhecem arquitetura e urbanismo, projetou e calculou a colocação de pequenos quiosques rodeados de mesas simples e cadeiras confortáveis. Cada quiosque tem uma distância razoável dos vizinhos, o que garante uma certa privacidade e o necessário isolamento acústico, já que convencionou-se e estimula-se (creio que seja exigência, inclusive) a música ao vivo em cada um dos estabelecimentos. Além disso, não sei exatamente como, temos cada quiosque oferecendo pratos de um tipo especial de cozinha a preços baixos. Há o quiosque árabe, o japonês, o italiano e assim por diante. Guardando a distância certa, limitando o número de mesas e cadeiras permitidos a cada um, iluminando com delicadeza e mantendo um bom banheiro público pago (e portanto bem cuidado), a prefeitura não só gerou centenas de empregos para garçons, músicos, cozinheiros etc…, como resgatou uma das mais impressionantes vistas do planeta devolvendo-a à comunidade. Não contente, o local ainda oferece estacionamento com flanelinhas uniformizados, cadastrados e com preço razoável e tabelado, algo em torno de 3 reais.
CADEADOS
Enquanto isso, o paulistano que não tem praia para desafogar a tensão acumulada, nem sequer um horizonte para contemplar, tem de se conformar com seus parques e praças como Villa Lobos, Ibirapuera, Charles Muller, Buenos Aires e tantos outros, invariavelmente fechados ou abandonados e entregues à própria sorte depois que o sol se põe.
A Bienal de arquitetura encerrada domingo deu uma excelente idéia do altíssimo nível dos arquitetos brasileiros de ontem e de hoje. Quem sabe o senhor Pitta, sensibilizado pelo JT e pelas mortes de perueiros, chacinados e afogados nas enchentes, não pede o boné, tira o time e passa a bola para uma junta de arquitetos, urbanistas e educadores. Talvez aquela vaga na Eucatex ainda seja negociável …
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