por Luiz Alberto Mendes

Dinho

 

Sou um desses sujeitos que se preocupam. Que questionam, que pensam e tentam concluir (nem sempre com sucesso). Sei lidar com meus males, e mesmo os que ainda não conheço, hei de suportá-los bem. O que me afeta são os males das pessoas. Os males provenientes do fato que temos que decidir para existir. O tempo vive a nos pressionar e por conta disso nem sempre escolhemos corretamente. E, é claro, tudo tem consequências. Não há vazios no ar.

Fui, a bem dizer, e não faço segredo para ninguém, criado nesses lugares que hoje se chama de Fundação Casa. Espaço reservado para menores de idade infratores. Lá conheci muitos meninos que depois iriam figurar nervosamente nos noticiários paulistanos. Um deles sempre me chamou a atenção. O Dinho. Ele tinha uma postura, um modo natural e diferenciado de ser. Destacava-se; seu uniforme estava sempre limpinho e passado. Nós o chamávamos de "neguinho doce", "filhinho de papai", mas brincando; o moleque era valente e perigoso. Chegamos a fugir juntos duas vezes e nos tornamos parceiros. Mas ele começou a se envolver com ladrões de fato (nós éramos ladrãozinhos) que nós, os "moleques de rua", não queríamos aproximação. Os ladrões mais velhos sempre quiseram se aproveitar de nós, tentavam nos usar, andavam armados e queriam que a gente roubasse para eles.

Passamos a maiores de idade e viemos para a prisão por causa de nossas palhaçadas. Dinho não veio conosco. Já estava assaltando bancos e o pagamento de empresas. Veio depois, mas já estava em um patamar muito acima do nosso. Não éramos inteiramente desconhecidos, mas ele fazia parte dos notáveis. Tinha nome de bandido no crime. E dinheiro também. Anos depois ele conseguiu fugir e ser recapturado algumas vezes, perdi o contato com o amigo antigo. Fui encontrá-lo décadas depois. Esquálido, deitado em uma cama no sanatório penal, onde estavam os presos com AIDS. Naquele tempo não havia o coquetel salvador; eles morriam como moscas.

Dinho estava muito mal. Uma diarréia incurável e incontrolável; estava morrendo aos poucos disso. Claro, passei a procurá-lo sempre que podia e ficávamos horas conversando e relembrando passado. Viajávamos, percebi que ele até esquecia de suas dores nesses momentos. Uma vez manifestei minha inveja por ele haver ser um grande ladrão e eu um ladrãozinho pé de chinelo (eu era mais idiota naquela época). Ele olhou para mim e tentou sorrir, zombando. Depois falou: será que eu era tão cego que não via que se alguém invejava alguém ali, esse alguém era ele? Invejava minha saúde; trocaria tudo para ser saudável quanto eu sempre fui. E desatou a falar, assim indignado comigo. Ele tinha em casa dois carros importados e não podia nem se mover direito para dirigir, além de estar preso. Sua mulher era uma tremenda gata que todo homem quebrava o pescoço para olhar, no entanto fazia mais de ano que o sexo dele vivia mucho e sem vida. Tinha dinheiro no banco, propriedades, mas estava preso àquela cama. Caso desse alguns passos, podia ter um crise de diarréia e morrer ali, de tanto se "cagar". Tinha guarda-roupas cheio de roupas de griffe, mas tinha que viver pelado porque não dava tempo de tirar a roupa para usar o banheiro. Por fim, afirmou; você não vê: sou conhecido como bandido, roubei com grandes assaltantes e tudo o mais, mas veja: quem atravessa todas as barreiras para vir aqui me ver? Só você que sempre foi meu amigo de verdade e eu nunca soube dar valor. O cara começou a chorar, eu não sabia o que fazer, chorei também.

Dinho viveu ainda poucos dias e se foi quando só restavam ossos e pele. Senti muito porque naquele pouco tempo de relação, aquele sujeito se tornou meu amigo do coração, quase um pai ou um filho, é inexplicável. Eu o amava e senti sua morte. Demorei a me recuperar. Sabia que a morte era o que melhor podia acontecer a ele, naquela altura dos fatos. No mínimo, iria descansar. Haviam sido quase dois anos de muita dor e intenso sofrimento. Depois da dor, veio o descanso para mim também. Mas logo chegaram outros irmãos em piores condições que ele. Ao fim e ao cabo aquilo virou uma rotina para mim por quatro anos seguidos. Foi a época mais significativa de minha vida, onde aprendi a ser humano.

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Luiz Mendes

06/04/2014.

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