por Thiago Araújo
Trip #245

Jornalista relata sua experiência com PrEP e o Truvada, remédio que afasta a possibilidade de sermos infectados pelo vírus HIV, e que está sendo testado no Brasil

Até o dia em que pisei fora do armário, aids nunca foi uma real preocupação para mim. #HIV não era trending topic nos papos com meus compadres universitários, no interior de Minas. Com os avanços da medicina no tratamento dos portadores, e uma certa síndrome de super-homem (a que diz "não vai acontecer comigo"), a preocupação em contrair o vírus, que já era pouca, foi sumindo do horizonte da geração Y. 

A questão que ocupava a minha cabeça, de meus amigos e de nossas namoradas, ao longo daqueles semestres, era: "será que estamos grávidos?". Nunca senti medo de qualquer doença sexualmente transmissível. Terminei a faculdade e me mudei para São Paulo. O namoro acabou, me assumi gay e o medo ocasional de me tornar um pai de família foi substituído pela constante sombra da aids: nunca mais fiz sexo sem pensar que poderia ser infectado. 

Não me orgulho, mas também não me envergonho, de dizer que não sei exatamente com quantos caras fiquei no primeiro ano que vivi em São Paulo. De uma coisa, no entanto, sempre soube: a cada dez caras com quem transei, pelo menos um poderia ser portador do vírus. Dados do fim do ano passado do Ministério da Saúde mostraram que a prevalência do HIV entre Homens que fazem Sexo com Homens (HSH) permanece em 10%. Mesmo assim, não é costume entre nós fazer o chamado controle do risco: perguntar, antes de transar, a todos parceiros e parceiras qual o status para HIV. 

Se alguém lhe perguntasse agora, você saberia responder? Ficaria ofendido? Quando foi a última vez que você se testou?

A primeira vez que ouvi falar em Truvada foi em reportagens da imprensa americana, ainda em 2012 – quando um novo protocolo de prevenção à aids havia acabado de ser aprovado pela FDA, agência regulatória de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos. O remédio não é novo: a dupla de compostos tenofovir e emtricitabina foi sintetizada pela primeira vez pelo laboratório Gilead em 2004, e já era usada desde então em conjunto com outros antirretrovirais para o tratamento de portadores do HIV em várias partes do mundo.

Chamado Pre-Exposure Prophylaxis, em português Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), o novo método atestava que tomar um comprimido por dia do tal remédio impedia, de forma altamente eficaz, a soroconversão de quem não tem o vírus. É como uma camisinha em nível celular, que impede o vírus de se reproduzir em uma pessoa não portadora. Eu queria tomar. Tive a dúvida que muita gente tem: tomar um remédio todo dia para não ter que tomar remédio todo dia faz sentido? Faz. 

O estudo original que propôs a PrEP diária é chamado iPrEx e testou a eficácia do método com não portadores de HIV em seis países, incluindo o Brasil. Entre 2007 e 2009, o estudo contou com 2.499 voluntários de alto risco de contágio, homens e mulheres trans que fazem sexo com homens. Metade dessas pessoas receberam o Truvada, e a outra metade um placebo. Todos foram acompanhados com orientação psicológica e testes constantes para monitorar a saúde. O resultado? Redução de até 44% de novas infecções em toda a amostra. Mais recentemente, estudos como o Ipergay, realizado na França e no Canadá, e o Proud, da Inglaterra, registraram resultados ainda melhores: até 99% entre os que tomaram diariamente o remédio.

Foi então que o Ministério da Saúde encomendou a pesquisa PrEP Brasil. Diferente do iPrEx, que testou a eficácia da profilaxia pré-exposição, o estudo agora investiga o impacto social que a adoção do protocolo teria em nossos segmentos de risco. Os participantes recebem o Truvada e são monitorados há um ano por três centros de pesquisa de ponta no país: o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, a Faculdade de Medicina da USP e o Centro de Referência e Treinamento em DST/aids, esses em São Paulo. Cerca de 550 voluntários nas duas capitais participam da pesquisa desde junho de 2014. Eu sou um deles.

Minha família, amigos e todos com quem converso sobre o assunto me questionam se vale a pena. Devolvo com uma pergunta simples: vocês sabem o que é, sempre, a cada dia, transar com medo?

Minha família, amigos e todos com quem converso sobre o assunto me questionam se vale a pena. Devolvo com uma pergunta simples: vocês sabem o que é, sempre, a cada dia, transar com medo? As reportagens que li sobre o tema e os médicos com quem conversei relatam que a PrEP tem funcionado também como mais uma ferramenta de empoderamento para nossas populações estigmatizadas, marcadas pelo vírus. Além disso, casais sorodiscordantes (em que um membro possui o HIV e outro não) se sentem mais confortáveis no sexo, e no futuro mulheres poderão ter uma nova opção para prevenir o HIV também.

Efeitos colaterais como tonturas, diarreias e dores de cabeça foram de fato registrados em alguns casos, sempre nas primeiras semanas de tratamento até o organismo se acostumar com o medicamento. Eu mesmo nunca senti nada. Alguns amigos, sim. Um outro efeito, esse de longo prazo, seria um desgaste dos rins – mesmo efeito que qualquer remédio de uso crônico pode causar. Frente a isso, todo paciente de Truvada e outros medicamentos de uso prologando – calmantes, inclusive – faz exames regulares para monitoramento. É o que eu e os voluntários fazemos na pesquisa. Inclusive para outras DSTs também.

Desde que entrei no estudo, tenho acesso a um pote com 30 comprimidos por mês e tomo todos os dias. Em outubro, durante meu processo de inclusão, fiz uma imensa bateria de exames, conversei com psicólogos, médicos e trimestralmente retorno ao Hospital das Clínicas para aconselhamento, mais exames, questionários, novos potes de comprimidos, além de lubrificante e preservativos. Sim: camisinhas. Desde o início sou lembrado constantemente de que o medicamento não é um substitutivo e sim um método de prevenção complementar para um momento específico da vida. 

Sempre ouvi relatos de caras que não conseguem fazer sexo com camisinha: alguns têm alergia, outros não conseguem ereção e tem quem simplesmente odeie mesmo. Não é o meu caso. A diferença é que, entre heterossexuais, a maior preocupação continua sendo uma gravidez indesejada. O que percebi nesses nove meses é que o objetivo da PrEP é também que quem tem acesso aos comprimidos reveja comportamentos sexuais, o próprio e o dos parceiros. Com esse depoimento talvez eu faça você rever o seu. Faça o teste. Saiba o seu status e o de quem você transa. Independente da orientação, identidade, fetiche, time, whatever sexual você seja.

O Brasil está em posição única no mundo para dar mais um salto no combate a aids. Graças ao nosso premiado sistema de distribuição gratuita de anti-retrovirais extremamente capilarizado, o governo estuda incluir a PrEP como parte do acervo gratuito de prevenção a doença. Segundo Fábio Mesquista, diretor nacional do Departamento de DST, aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, os próximos passos para dar acesso ao método já foram dados. Além do Gilead, outros laboratórios fizeram seus pedidos para a inclusão da PrEP nos registros de seus medicamentos por aqui – inclusive genéricos. 

"Cientificamente não se discute mais se funciona ou não funciona. A evidência é óbvia. Funciona. Estamos pesquisando a aceitabilidade e a viabilidade da distribuição", diz Fábio. Com os primeiros resultados da pesquisa previstos para o fim deste ano, uma série de comissões com especialistas técnicos devem produzir relatórios para regulamentar a comercialização dos compostos no Brasil já em 2016. "Os preços variam, mas é um custo-benefício extraordinário", garante. Se tudo caminhar como previsto, seremos possivelmente o primeiro país do mundo a implantar o método como política pública. 

Já para a coordenadora do PrEP Brasil, Beatriz Grinsztejn, da Fiocruz, nenhuma estratégia de prevenção sozinha é capaz de controlar a epidemia no país. É aí que entra a PrEP, como mais uma arma nessa batalha. "Até o momento, com pouco mais de um ano de estudo, o PrEP Brasil não registrou nenhuma soroconversão". Novas inclusões de voluntários foram feitas até o mês passado, e até o fim do ano serão divulgados os primeiros resultados oficiais do estudo.

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