Ney Matogrosso: nada
é pecado

por Emiliano Goyeneche

É sendo ele mesmo de maneira inegociável que o cantor atravessa o conservadorismo do mundo, não importa a época

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A tensão entre liberdade e opressão sempre esteve presente na vida do Ney Matogrosso, filho de pai militar, ele teve que fugir de casa para conseguir se expressar livremente. A reconciliação viria anos mais tarde: foi a partir de um beijo que trocaram, enquanto o pai envergonhado, ficava olhando ao redor para ver se alguém o tinha visto sendo beijado por um homem. "A partir desse momento, nos beijamos todas as vezes que nos encontramos." 

Já nos anos de chumbo, no auge do sucesso com os Secos e Molhados, recebia diversos recados do Centro de Informações da Marinha para que não se "excedesse". Inicialmente, o show do grupo era livre, depois passou a ser permitido só para maiores de 18 anos. "Eu pensava que, no dia em que classificação fosse para 21 anos, eu entraria nu no palco e segurando o pau."

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Seu último show, Bloco na Rua, com músicas dos anos 70, parece conversar com a situação atual do país, mas ele diz que a escolha das letras não tem nada a ver com isso. É só casualidade: "As pessoas acham que estou me inspirando no Bolsonaro, e nāo estou. Infelizmente, as coisas que tenho falado nos meus dois últimos trabalhos acabaram correspondendo muito com a realidade." 

Trip. Hoje todo mundo quer se posicionar, a democracia e as redes sociais têm um papel importante nesse comportamento, mas por momentos parece que ninguém está ouvindo. Você acha que a música ‘’Fala’’ é importante no atual contexto?
Ney Matogrosso. ‘’Fala” não foi feita para o contexto de hoje. Ela é uma música poética, uma maneira poética de se expressar. ‘’Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto. Se você disser, tudo o que quiser, então eu escuto, fala!". É uma maneira mais singela de colocar os sentimentos. A primeira vez que dei uma entrevista, eu era um total desconhecido. Eu me aproximei da banda Secos e Molhados e começamos a fazer sucesso. João Ricardo dizia que apenas ele podia dar entrevistas e que os demais não podiam falar. Eu não concordei, disse que ele poderia dar entrevistas à vontade, mas que, se alguém perguntar, eu vou ter que responder, porque eu também penso e raciocino. Mas, quando me fizeram a primeira pergunta, eu não sabia o que responder. Então veio uma voz dentro da minha cabeça dizendo: "Fala a verdade, você falando a verdade não deixa rabo para te pisarem. É mais confortável falar a verdade, sempre".

Você é um grande defensor da liberdade. Em algum momento de sua vida você precisou fazer esforços para mantê-la? Eu sempre me expressei livremente, mesmo no auge da ditadura militar, quando pessoas eram jogadas de avião. Eu sempre recebia recados. Inicialmente, o show dos Secos e Molhados era livre, depois, passou para doze, quatorze e dezoito anos. Eu pensava que, no dia em que chegasse a 21 anos, eu entraria nu no palco e segurando o pau. Quando penso nas coisas que fiz nesse palco, penso: "Eu estava louco". Mas era necessário. E quanto mais eles me mandavam recados, mais eu fazia absurdos no palco, mais eu enlouquecia.

Em seu repertório atual estão músicas dos anos 70. Existe uma correlação deliberada com os tempos atuais? Eu escolho a música pela letra, pela palavra. Neste momento, estou cantando grande parte de um repertório dos anos 70, mas não procurei uma correspondência. Eu fiz o roteiro desse show dois anos antes de o Bolsonaro assumir a presidência. As pessoas acham que estou me inspirando nele, e não estou. Infelizmente, as coisas que tenho falado nos meus dois últimos trabalhos acabaram correspondendo muito com a realidade. Mas dizem que temos ‘’antenas’’. Em 2013, quando eu fiz “ Atento aos Sinais”, estavam acontecendo as manifestações por todo Brasil, com todo aquele “quebra quebra”. Parecia que eu tinha feito o show para aquele momento, e não era! Eu não tinha pensado naquilo, não tenho bola de cristal para saber o que vai ou não acontecer. Mas acho que tem essa coisa de captar movimentos que estão nos rondando e falar sobre eles.

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O Brasil de hoje é mais conservador do que o dos anos 70, em plena ditadura? Em termos de comportamento é muito mais careta. Mesmo na ditadura, existia uma margem de liberação individual e comportamental que, hoje em dia, as próprias pessoas se encarregam de frear. Temos um pensamento religioso no ar que antes não existia. O Brasil é um país laico, não se deve misturar política com religião. Eu continuo batendo nessa tecla. Fiquei muito impressionado com a fala do ministro Paulo Guedes sobre o AI-5, pois mostra que ele não tem responsabilidade. 

Você tem medo?  Não, não tenho medo não. O que pode me acontecer? Já vimos isso. Medo de quê? Não vou viver submetido ao medo de uma hipótese. Eu não tenho medo de nada.

Muitas vezes, ouvimos que o Brasil não está tão integrado à América Latina e que existem barreiras linguísticas. "Sangue Latino" é sobre isso? O Brasil sempre foi voltado para a América do Norte e a música diz justamente isso. A América sempre determinou o Brasil. Quando estourou o Golpe Militar, havia navios americanos na costa para apoiar o exército brasileiro e nós sabíamos disso. Eu tinha horror de americano. Eu não falo inglês por trauma. Eu lia, escrevia e entendia, mas na hora de falar eu não conseguia, porque na minha cabeça era a total submissão ao império. Eu fiquei com esse bloqueio. É engraçado, quando eu canto "Sangue Latino" hoje em dia, parece que está falando da minha vida, é muito mais representativo hoje do que foi na época. Parece que estou falando de mim mesmo. Sou neto de um argentino com uma paraguaia e descendente de índio, e eu tenho muito orgulho de ter essas combinações no meu sangue.

Sua reconciliação com seu pai aconteceu quando ele assistiu um show seu pela primeira vez e ficou emocionado? Ali não foi o momento da reconciliação, já tinha acontecido, quando eu vivia em condições muito pobres em São Paulo. Eu era hippie, ele se assustou quando chegou na minha casa. Ele deu azar porque me visitou no dia em que eu ia dar uma festa. Meus amigos foram para lá se vestir e colocar flores no cabelo. Meu pai encontrou toda essa gente lá e, quando saiu, disse: “Pra mim é tudo viado e tudo puta!”. Respondi que não era da conta dele. Lembro que depois fui visitar meu pai no hotel e eu estava com uma calça laranja. Ele falou: “Olha, da próxima vez que você vier aqui, não venha com essa calça”. E eu disse a ele que, se ele estava mais preocupado com a cor da minha calça do que com a minha presença, não precisava se preocupar que eu não voltaria mais para vê-lo. Eu devo ter sido um filho muito difícil para o meu pai, porque eu sempre o contestei. Uma vez fomos nos despedir na frente do antigo Estadão, em São Paulo, e eu tive o ímpeto de beijá-lo, afinal eu beijava todos os meus amigos, homem ou mulher. E ele ficou escabreado, olhando ao redor para ver se alguém tinha visto ele sendo beijado por um homem. A partir desse momento, nos beijamos todas as vezes em que nos encontramos. Eu fui o único filho que ele beijou. Na reta final da vida dele, meu pai me pediu desculpas pelo modo como tinha criado os filhos, meninos e meninas. Eu disse que isso tinha morrido para mim, tinha sido passado, que nem pensava mais nisso. Depois disso, fui o filho a quem ele passou a fazer confidências e contar as histórias da família toda.

Qual foi sua inspiração para se posicionar sexualmente e para contestar seu pai? Não me inspirei em nada. Sempre achei um absurdo como ele me tratava. Eu sentia que eu era uma coisa. Desde criancinha eu já o contestava. Com dezessete anos, ele me colocou de castigo, eu não aceitei e, quando ele descobriu, foi atrás de mim com um revólver. Meu irmão teve que me avisar que era para eu voltar, porque meu pai estava indo me procurar com um revólver. Quando eu voltei, não queria mais ficar naquela casa. Me alistei na Aeronáutica e transferi meu alistamento para o Rio de Janeiro. Meu pai não permitiu que eu fosse, disse que nunca mais me ajudaria. Eu fui mesmo assim, disse que não precisava dele. Quando ele me encontrava e via que eu era pobre, falava para eu voltar, que ele me arrumaria um emprego. Eu dizia que ele não estava entendendo nada e que não era dinheiro a questão. Era minha vida, minha liberdade, era eu poder viver como eu quero, fazendo o que eu quero e aonde eu quiser. Eu tinha decidido que seria responsável pela minha vida aos 17 anos. E, desde então, sou responsável pela minha vida, tendo o que comer ou não. Eu não era um coitado, eu dizia pra mim mesmo que a escolha de viver dessa maneira era minha. Eu arquei com a minha escolha. 

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Você acha que é preciso romper com as estruturas familiares? Eu acho que todo adolescente tem que sair de casa. Para poder se achar, se encontrar, se definir. Eu saí da minha casa e não carrego culpa de nada, culpa de nenhuma espécie! Eu não devo nada, nem à igreja e nem a Deus. Não tem Deus me apontando o dedo, eu não acredito nisso, eu acredito em um princípio amoroso. Deus, na minha concepção, não é um velho apontando o dedo para mim e falando: “Você deve!”. Eu não devo nada. 

Em algum momento da sua vida, você se aproximou de alguma religião? Não me interessa religião. Eu fui batizado na Igreja Católica, mas não me interesso. Não busco religião, busco autoconhecimento. Frequentei o Santo-Daime por um ano e meio e fiz uma terapia chamada Fischer Hoffman, para saber mais sobre mim mesmo. Acho que todas as dificuldades da vida me deram forças para ultrapassar os obstáculos. E eu acho que a vida é feita disso, momentos mais fáceis, momentos mais difíceis. Eu passei por um momento na minha vida em que todos os meus amigos morreram numa ‘’leva’’ nos anos 80. E eu tive que enfrentar e ultrapassar isso, foi muito difícil. 

Em outros relatos, você diz que se surpreende com o fato de não ter contraído o vírus hiv. Como foi esse momento para você? Eu vivi e não se tinha isso no mundo. Eu tinha liberdade sexual, transava com quem eu queria, essa coisa de camisinha não existia. Camisinha era uma coisa para quem não queria ter filhos, não era meu caso querer ou não ter filhos. E a maior parte dos meus amigos morreram dessa doença. Eu tinha um relacionamento estável e a pessoa morreu da doença, na minha casa. Eu pensei que era impossível eu não ter contraído. Depois disso, fiz um teste e deu negativo, eu não tinha nada. Eu questionei muitos médicos sobre o fato de eu não ter contraído a doença, sendo que eu estava exposto, já que naquela época ninguém era de ninguém, não tinha essa de casamento.

Na sua época era tudo poliamor? Poliamor, eu vivi isso na década de 70! Vivi isso com duas pessoas, moravam comigo um homem e uma mulher e viajávamos muito. Isso na época dos Secos e Molhados. Eu arrastava os dois comigo, mas essa relação não tinha nome, era prazeroso para nós três e não tínhamos que explicar nada para ninguém. 

Você não tinha ciúme? Claro que tinha ciúme! Mas não posso deixar o ciúme tomar conta da cabeça. 

E o amor hoje? Não estou com ninguém, mas não sinto necessidade de estar com alguém. Continuo livre. Aparecem pessoas na minha vida querendo casar. Eu digo: “Pelo amor de Deus, gente! Casar?! Porra!”. Que pensamento atrasado que é querer casar. Eu não quero, nem com homem, nem com mulher, nem com ninguém. Se eu não casei antes, não será agora. Isso seria me prender e eu não quero estar preso e nem prender ninguém. 

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