por Diogo Rodriguez

Fotógrafo carioca retrata as cidades com murais de grafite e pessoas que encontra na rua

O fotógrafo carioca Gabriel Mendes começou cedo na carreira. Desde criança acompanhava os pais, colegas de profissão, em ensaios de moda (no caso da mãe) ou em fotorreportagens (com o pai). Já mais velho, virou assistente dos dois e definiu seu destino, concretizado quando foi a Nova York estudar cinema e fotografia na Parsons School of Design (http://www.newschool.edu/parsons/).

Logo no começo de sua estada, no segundo semestre de 2001, presenciou e registrou um dos maiores eventos do século XXI, o atentado terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center. Conseguiu sua primeira exposição com o resultado dessa iniciativa corajosa. Oito anos depois, já de volta ao Brasil, Gabriel resolveu investir em projetos que são talvez um fruto da mistura das afinidades de seus pais. Serve de exemplo, a série "Trocadilhos urbanos".

Mendes fotografa murais de grafite em cidades como São Paulo, Rio, Los Angeles e Nova York. Seu diferencial é que além de retratar os desenhos, Mendes convida passantes a posar para ele, criando retratos completos das cidades em questão. Para fazer isso, ele tem critérios (como explica melhor na entrevista): procura pessoas que tenham algo a ver com os desenhos usados como pano de fundo, seja porque as roupas combinam com o mural, ou pela "atitude" delas.

Entre indas e vindas para Nova York e Rio, ele foi escolhido como o fotógrafo responsável pelo projeto Hoje mais sete, no qual vai retratar 50 personagens envolvidos com a Olimpíada de 2016, entre atletas, políticos e pessoas comuns, todo ano até o evento. O projeto já rendeu uma pequena polêmica, por causa de uma foto do prefeito Eduardo Paes "surfando" na mesa de seu gabinete.

De sua cidade natal, Gabriel Mendes falou à Trip sobre seu método de trabalho.

"Tenho sorte de muitos grafiteiros [como osgêmeos] me ligarem ou mandarem e-mail quando fazem um mural novo"

Como funciona o "Trocadilhos Urbanos"?
Primeiro eu acho o mural e fica na frente dele esperando alguma pessoa interessante passar. Paro ela e convido a posar para mim. Sempre tento escolher pelas cores [que ela veste] ou pela atitude, pelos traços físicos, alguma coisa que tenha a ver com o mural.

Você fica muito tempo esperando alguém passar?
Em Nova York não, é muito fácil, é um zoológico humano. Em questão de minutos passa um rastafári, um árabe com turbante, um oriental, passa tudo. Em São Paulo, Los Angeles, Paris, Berlim, Lisboa foi muito tranqüilo também. No Rio, chamei amigos e pessoas conhecidas. Isso mudou um pouco o projeto. Naquela foto do cara pulando com o jacaré é um amigo meu. Isso eu nunca poderia fazer com uma pessoa na rua, seria muito mais difícil. O legal de ficar rua é o inesperado, você não sabe quem vai passar, mas o bom de fazer com um amigo é ter controle, você pode elevar a foto a outro nível.

Como você escolhe os murais?
Por achar legal, pela minha opinião. Por isso, em aprofundei muito no tema, conheci os grafiteiros em Nova York, todo mundo viu meu trabalho porque ele foi publicado , teve exposição. Hoje em dia eu tenho sorte de muitos grafiteiros me ligarem ou mandarem e-mail quando fazem um mural novo. Isso tem acontecido muito.

Quais artistas já te ligaram?
Em São Paulo, o Speto, osgemeos; no Rio, o Flash Beck, em Nova York tem Tats Cru, do Brooklyn. Fui ficando amigo do pessoal.

Essa moça nua na frente do mural, como você produziu?
Achei ela na rua [risos]. Brincadeira. É uma amiga minha maluca que topou fazer. Foi na Vila Madalena, no beco do Batman, que é na rua, mas não tão exposto. A gente fez rapidinho.

Na série "People" tem uma foto do Thierry Henry [atacante da seleção francesa]?
É sim. Fotografei num trabalho em Nova York e usei o retrato para a minha série.

O que é necessário para ser um bom fotógrafo?
Depende do tipo de foto que ele faz. No meu caso, gosto de fotografar pessoas. Tenho que saber lidar com o ser humano, deixar as pessoas confortáveis na frente da câmera. É o talento humano, saber se relacionar. Isso é um lance que não se aprende na faculdade, você nasce. A parte técnica você pode aprimorar, câmera você pode comprar. Tem que ser aberto, cara-de-pau, muita auto-confiança porque você está fotografando celebridades, astros de rock.

Você se lembra de alguma situação em que disse "não acredito que fui tão cara-de-pau"?
Eu faço cinema também, sou fotógrafo e diretor. Quando voltei de Nova York, abri minha produtora no Rio. Um dos meus primeiros projetos foi o longa do Flamengo, Penta-Tri, o primeiro longa da história do clube. Nas finais do Campeonato Carioca, eu não tinha credencial para o jogo e invadi o campo, filmei tudo, dei volta olímpica com os jogadores, fui pro vestiário depois, isso tudo sem credencial, na atitude. Se você acha que merece estar lá, todo mundo acha que você tem que estar lá.

Ninguém te parou?
Não.

 

E em quais outros projetos você está envolvido?
Tem um legal que estou fazendo que se chama "Hoje mais sete". Eu fui escalado no começo do ano pelo Paulo Borges, do São Paulo Fashion Week. No Fashion Rio, em janeiro, teve uma competição entre fotógrafos e ele escolheu dez. É um projeto de sete anos. Fizemos um levantamento de 50 pessoas que estão trabalhando para a Olimpíada de 2016 no Rio. Dessas, 25 são atletas e 25 são prefeito, governador, arquiteto, médico da seleção, o vendedor de amendoim, o taxista todo mundo envolvido. Acabei ganhando a competição - foi difícil, com Bob Wolfenson, Christian Gaul - e ele acabou me escolhendo. Vou fotografar essas pessoas até 2016. O que é legal é que tivemos que fazer um estudo enorme sobre quem são os atletas que vão competir em 2016. Não é o cara que está no auge agora, é o cara vai estar no auge daqui a sete anos. É uma molecada de 15, 16 anos, no máximo vinte e poucos. Ficou muito interessante e estou feliz de poder fazer isso por mais seis anos. A gente pegou uma menina de halterofilismo que tem quinze anos, ela vai crescer muito, ficar forte, mais madura. A gente fotografou o João Havelange, que tem 93 e terá 100 em 2016. É um projeto de longo prazo e vai ser legal ver as fotos todas depois. O resultado do primeiro ano teve uma exposição gigante no Fashion Rio. Eram cinqüenta fotos com dois metros cada uma. Foi a maior exposição que eu já tive.

E você vai fotografar esses 50 todo ano?
É, uma vez por ano durante sete anos.

Essa foto do prefeito do Rio, Eduardo Paes, em cima da prancha foi espontânea?
Foi. Cheguei no escritório dele, que é bem careta, nada para fazer uma foto interessante. Olhei para o canto e vi uma prancha de surf e falei "tem que ser isso". Ele começou fazendo as fotos com a prancha na mão, meio garotão, mas eu falei "ta muito clichê". Me apoiei na mesa dele e perguntei: "Prefeito, será que essa mesa agüenta a prancha?". Ele falou: "Agüenta, agüenta". Ele é todo malandrão, o prefeito, fala palavrão pra caramba. Falei: "Bom, será que agüenta você e a prancha?". Ele ficou olhando pra mim [e disse]: "Quer saber? Foda-se. Vamos fazer, vai, vai". Nem pensou muito. Eu tirando as fotos e ele amarradão, como se estivesse pegando um tubo. Sempre que eu vou fazer foto de gente importante, minha assessoria de imprensa tira foto de eu trabalhando. Me fotografaram fotografando o prefeito e saiu no jornal O Globo, na coluna do Ancelmo Góes, superlida aqui no Rio. Ele esculhachou o prefeito. No dia seguinte foi uma enxurrada de e-mails para O Globo, falando "porra, nosso prefeito devia estar preocupado com o transporte, com a saúde, e ta aí surfando na prancha". Um jornalista chamado Artur Xexéo faz no fim do ano uma votação para o "mala do ano". Depois dessa foto ele chegou em segundo lugar, quase em primeiro pelo fato de ter surfado na mesa do gabinete, coitado [risos]. Dois dias depois dessa foto, fui fotografar o governador Sérgio Cabral. Ele disse: "Não vai fazer nada comigo, não, hein? Não vai me botar em cima da mesa, não to com prancha, não to com nada.". A dele saiu um pouco mais careta. 

Vai lá: http://gabmendes.com

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