por Josimar Melo
Trip #143

Trip convidou o principal crítico de gastronomia do país a ficar de jejum durante 72 horas

Meu trabalho, como crítico gastronômico, é descrever a sensação de comer os mais diferentes pratos - os bons e os ruins. Daí minha surpresa ao ser convidado para fazer o oposto: escrever um texto sobre a sensação de não comer nada. Para isso, precisaria, claro, manter minha boca fechada, trancada, soldada por algum tempo. O pessoal da revista propôs que este test-drive de faquir durasse três dias.

Topei. E quer saber? Foi moleza. Embora ninguém acredite muito. "Mas você não está fraco? Não está morrendo de fome? Como é que ainda está de pé, e trabalhando?", perguntavam as pessoas, preocupadas ao saberem que eu só estava tomando água. A Trip chegou a propor que eu tivesse acompanhamento médico durante o feito. Que nada. Fácil. Como diria o personagem de Franz Kafka, no conto "O Artista da Fome" (de 1924), a respeito de um faquir que vivia de exibir seus dotes de jejuar por 40 dias: ". só ele sabia (.) como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Ele não o ocultava, mas não acreditavam nele".

Se um belo dia você toma seu café-da-manhã, mas depois não almoça porque não dá tempo e não consegue jantar porque a geladeira de casa está vazia aí sim você vai sofrer. Essa quebra de expectativa, essa interrupção de sua rotina alimentar, realmente provoca uma fome de leão.

Você passa o dia esperando uma brecha para poder comer, só pensa em comida, e a fome fica, portanto, o tempo todo à espreita. Meio como passar um fim de semana num spa: você fica o dia todo esperando pela hora de comer - e, quando ela chega, você recebe apenas algumas míseras calorias. que só servem para abrir o apetite, e retomar a angustiante espera pela próxima refeição.

Diferente é a situação de quem decide não comer - seja para derrubar um governo, seja para escrever uma reportagem. Você acorda e não come. Põe-se a fazer seus afazeres, e ignora que haverá uma hora de almoço - pois não haverá. Distrai-se com outras coisas. E assim vai. A proximidade com aromas e visões de comida, é claro, atrapalham um pouco a concentração. Assim como, para mim, trabalhar durante o jejum era um pouco incômodo (por exemplo, escrever minhas críticas gastronômicas, tendo que lembrar detalhes dos pratos que comi dias atrás, não ajudava muito). Mas uma vez decidido a não comer (claro que na véspera, à noite, abasteci-me com uma enorme pizza, quase uma garrafa de vinho, depois de um perfumado negroni como aperitivo.) a tarefa não foi difícil. Ainda trouxe benefícios como 2,5 quilos a menos de gordura no corpo, e 3 centímetros a menos na minha silhueta abdominal.

A chave do calmo enfrentamento do jejum está menos no corpo do que na mente: está em ter um objetivo a alcançar . O fato de que um jejum por tempo mediano não implica grande suplício foi-me confirmado pelo médico Ary de Andrade Jr., que clinica em seu consultório no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele esclareceu que:

- Durante três dias de jejum, uma pessoa saudável (que não tenha doenças, como diabetes, pressão alta etc.) consegue viver sem maiores problemas, mesmo sem tomar água.

- Depois de três dias, a ausência de água começa a produzir malefícios, pois a falta de líquidos diminui o volume de sangue circulante, provoca fraqueza, e a falta de urina provoca o acúmulo de detritos no corpo, afetando os rins.

 - Se a pessoa for saudável e tomar água, consegue ficar até 15 dias em jejum. Mas é recomendável, neste caso, tomar soro fisiológico, que contém sais minerais, pois a ausência de eletrólitos (sódio, potássio, magnésio, cálcio) provoca riscos de arritmia cardíaca, câimbra, fraqueza muscular.

- Depois de 15 dias o quadro geral tende a piorar, há uma baixa de energia geral. Aí começa mesmo a verdadeira arte.

Há dietas que prescrevem um dia de jejum semanal - eu mesmo já fiz isso em uma época da minha vida (não era para emagrecer - hoje em dia, nem sei bem por que fazia). Andrade não acha que faça mal, mas não recomenda: "Primeiro, é contra-indicado para quem tenha algum problema de saúde, como diabéticos, filhos de diabéticos, pessoas que sentem sonolência e mal-estar depois de quatro horas de jejum; segundo, está provado que o melhor é o contrário: é comer várias vezes, ou seja, comer fracionado: pouca quantidade várias vezes ao dia. Até para quem quer emagrecer, é melhor do que jejuar. Dietas radicais nunca são recomendáveis".

Por outro lado, minha vivência e pesquisa do jejum revelou-me um dado alarmante (e que, em tese, conta a favor do jejum): está mais do que provado que a forma mais eficiente de viver mais é comer pouco, bem pouco. Não no nível de desnutrição, é claro; mas, quanto menos comemos, menos realizamos a queima de calorias, que provocam estresse oxidativo nas células (produção de substância tóxica durante o metabolismo) e as envelhecem. Parece que abrir mão dos prazeres da mesa, pelo menos na quantidade, nos faz viver mais. Mas cá entre nós: para que eu vou querer uma longa, comprida, enorme vida de semijejum? Minha breve experiência mostrou que até dá pra ficar sem comer. Mas que graça terá se eu morrer bem velho, sem ter vivido?

matérias relacionadas