por Carlos Nader
Trip #185

Nem sempre as transformações feitas pelos humanos têm boas consequencias para o planeta

Tudo se transforma, mas nem sempre para o bem. A quantidade e a qualidade da transformação gerada pela atividade humana se tornaram insuportáveis para o planeta e para o próprio homem

A noite de entrega do Prêmio Trip Transformadores é transformadora. Pelo menos para mim. Nas três vezes em que fui ao evento, saí bem melhor do que entrei. Num país que cultua uma maledicência cada vez mais histérica, é uma benção calmante assistir a um desfile de pessoas que dedicam a vida a realizar o exato oposto de falar mal dos outros: fazer bem aos outros.

Mesmo que os transformadores premiados pela Trip Editora, como o Lelé, possam ser considerados excepcionais em qualquer país, não é preciso nenhum Lavoisier ou Raul Seixas para perceber que transformar é uma regra central da vida. Tudo se transforma sem parar, independentemente da nossa moral ou vontade. Tudo muda. Todo mundo. Nós mesmos. Nossas ideias. Nossas memórias. Nossos corpos. A cada sete anos, todas as nossas células físicas são substituídas por outras. Não sobra 1 g da mesma matéria que nos constituiu no passado. Somos de fato uma metamorfose ambulante.

E como se nós mesmos não bastássemos, temos também a vocação de transformar tudo que está à nossa volta. Transformamos trigo em pão. Vaca em bife. Chão em milharal. Milho em peido. Luz em Titanic. Ferro em Titanic. Letras em Dom Casmurro. Ondas eletromagnéticas em Playstation. Petróleo em velocidade. Floresta em fogo. Fogo em pão.

Transformamos. E vivemos numa época pródiga em transformações. Nunca antes na história deste planeta houve tanta transformação. Ótimo, se não fosse por um detalhe do tamanho do mundo. A Terra não suporta esse excesso. É simples assim. Nosso problema central é a própria transformação. Toda a questão ambiental pode ser resumida numa frase. A quantidade e a qualidade da transformação gerada pela atividade humana se tornou insuportável para o planeta e para o próprio homem.

FLA-FLU IDEOLÓGICO
O que podemos fazer em relação à quantidade de transformação? Muito pouco. O homem não vai parar de transformar. Não se abole uma vocação cultural tão profunda da noite para o dia. Por acaso retornaremos a algum indigenismo idílico que acredita que se deva passar pela vida como pássaro passa pelo céu, num lindo voo que ao seu fim deixa o ar intacto? Se alguém ainda acredita nisso, está na hora de tirar o passarinho da chuva. Nosso ímpeto transformador, ao contrário, só tende a se expandir nos próximos anos, com o crescimento populacional e o nivelamento econômico.

Mas o que podemos fazer em relação à qualidade da transformação? Muito muito. Podemos concentrar nossas energias em busca de energias mais limpas, tanto para o mundo da matéria quanto para o mundo das ideias. Podemos tentar reciclar nosso ciclo vital, percebendo que a atividade exagerada, impensada, carrega consigo uma pulsão de morte. Podemos entender de vez que intervenções cirúrgicas e racionais nos processos de transformação são muito mais eficazes que o atual Fla-Flu ideológico.

É impossível não soar meio grandiloquente demais quando se fala dessa questão. Mas se o homem tem uma chance é a de aplicar sua belíssima vocação transformadora sobre ela mesma. É preciso urgentemente transformar a transformação.

*CARLOS NADER, 43, é diretor do documentário Pan-cinema permanente. Seu e-mail é carlos_nader@hotmail.com

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