por Arthur Veríssimo
Trip #214

Arthur Veríssimo encontra Touro Moreno, pai dos medalhistas Esquiva e Yamaguchi Falcão

Sempre em busca de novos limites de virilidade, Arthur Veríssimo ruma ao encontro de Touro Moreno, pai dos medalhistas Esquiva e Yamaguchi Falcão. E também de outros 16 filhos

No pequeno município de Serra, Grande Vitória (ES), todo mundo conhece a lenda de que, em uma de suas muitas brigas, Touro Moreno se engalfinhou com mais de 20 marinheiros na zona portuária e se livrou de todos. Touro Moreno é Adegard Florentino, 75 anos, pugilista das antigas, pai dos medalhistas olímpicos Esquiva (prata) e Yamaguchi Falcão (bronze) e de outros 16 filhos e filhas. Pois, em meio às celebrações da chegada dos dois boxeadores famosos à região, com direito a desfile em carro aberto e bajulações de políticos, estávamos nós próprios indo em direção ao bairro de Jacaraípe, em Serra, para encontrar o mito e conhecer seu clã.

Fomos recepcionados com muita animação pela chuva, que ia e voltava na capital capixaba. O tempo não se firmava. Após uma hora de trajeto de táxi, chegamos à casa da família Florentino Falcão. Fomos recepcionados por Deusa, uma das filhas de Touro Moreno, que nos atualizou sobre o status de nosso personagem: “Ele deu uma saidinha”. A família almoçava na cozinha quando, de repente, fomos abalroados por alaridos de muitas vozes. Como num passe de mágica, surgiram simultaneamente nossos heróis olímpicos, Esquiva e Yamaguchi.

Pareceu uma boa oportunidade para perguntar a eles sobre Touro Moreno como pai e sobre os ensinamentos que ele legou. Afinal, sem exageros, o patriarca pode dizer que tem grande responsabilidade pelas medalhas londrinas. Ali mesmo, no quintal de casa, Touro ensinou os primeiros golpes para os filhos. Com algumas cordas, foi ele quem demarcou um ringue no gramado dos fundos e repassou aos pequenos Yamaguchi e Esquiva as técnicas que utilizara em sua própria carreira de boxeador. O sparring era uma bananeira. Não à toa, assim que chegaram em Vitória, as medalhas foram diretamente para o peito de Touro Moreno. O pai, é bom lembrar, tem um feito e tanto na carreira: não perdeu (empatou) com Waldemar Santana na década de 1960. Alguns anos antes Waldemra havia nocauteado ninguém menos que Hélio Gracie, o patriarca da mais importante dinastia de lutadores do Brasil.

Mas Yamaguchi se esquiva (rá) do assunto e prefere falar sobre o quão decepcionado está com as autoridades e os “novos amigos”. Seu irmão Esquiva solta um “direto” dizendo-se farto de tantas homenagens e eventos, quando os tão falados apoios financeiros não apareceram. Meus olhos percorrem discretamente as condições da família. Todos vivem em apertados cômodos, e o telefone de contato do pai dos medalhistas é um orelhão localizado na esquina da rua. Yamaguchi e Esquiva têm toda razão em sua crítica.

Mas agora vem um jab: “A gente não suporta político querendo se dar bem em cima do que conquistamos”, diz Yamaguchi. “Quando precisávamos, eles não davam a mínima. Agora vivem batendo na nossa porta com muitas promessas e querendo sair em fotografias. Estamos cansados de tanto lenga-lenga.” E sobre o pai? “Ele é tudo!”, concordam. “Sempre torcendo, incentivando e batalhando. Um verdadeiro guerreiro Jedi, ganhando ou perdendo.”

Percebo as qualidades e características de macho alfa que reverberam nos genes de todos os filhos de Touro Moreno. Todos são determinados a atingir resultados e sucesso. Nossa conversa aquece com a presença da mulher de Touro, dona Maria Olinda Falcão Gomes, 49 anos e mãe dos 11 filhos desse segundo casamento. Ela está em êxtase diante dos filhos vitoriosos e derrama-se em elogios para seu companheiro, Touro: “Ele é um grande homem, compreensivo, além de ter profetizado tudo isso que está acontecendo na vida dos nossos filhos. Estamos casados há 34 anos e já passamos muita humilhação. Meu Touro nunca baixou a guarda diante das dificuldade e estamos vivendo este momento fascinante em nossas vidas. Conforme os anos foram passando, a profecia de Touro Moreno virou realidade. Ele sempre afirmava que os meninos seriam campeões e trariam medalhas olímpicas. Que homem determinado e disciplinado...”.

 

“Nossa vida sexual continua ativa. Normalmente, fazemos amor de duas a três vezes todas as noites e, de manhã cedo, ainda tem o complemento”

 

O entra e sai é incessante. Depois de um par de horas sendo alvo da hospitalidade da família Falcão, entra o aguardado Touro Moreno. O homem é um caldeirão borbulhando adrenalina e testosterona, ejaculando vitalidade e alegria. Nossa conversa é toda entrecortada pela atenção aos netos, brincadeiras com os vizinhos e assuntos domésticos. Todos querem a atenção e o carinho do patriarca. Ele tem alguma coisa de capitão de navio, pois controla todas as decisões, ângulos e arestas. Seu nível de autoestima é elevadíssimo e, como exemplo típico de macho alfa, é um líder nato.

Quero saber qual é a fórmula mágica da força seminal e virilidade de Touro Moreno. Ele me lança um olhar enviesado e metralha: “Minha vitalidade vem da alimentação que faço desde pequenino. Feijão, café, fubá, arroz e os ovos das galinhas caipiras são o básico da minha dieta. Fujo dos agrotóxicos. Mesmo vivendo com muitas dificuldades sempre comemos legumes e verduras orgânicas. Na horta que há em meu quintal sempre teve inhame, tomate, bananeira e outros temperos. Até a Ana Maria Braga quis saber o que eu como!”.

Touro quer farrear com este repórter. Analisa meus movimentos e lança alguns cruzados e sua famosa manivela. Faço algumas esquivas e fujo de seus golpes devastadores. Touro se surpreende. Nesse momento contabilizei o valor das aulas e treinos que tive com Miguel de Oliveira no século passado. Senão, estaria até hoje no chão da sala em Serra.

Sou conduzido pelo fluxo até a sala de visita. Mostro para ele uma edição antiga da Trip (fevereiro de 2004), com uma entrevista que fiz com o lendário boxer cubano Teofilo Stevenson. Touro emociona-se. Conta que seu filho Estivan teria o mesmo nome que Stevenson, mas, no cartório, decidiram de súbito abreviar o nome. Aproveito o momento de intimidade para perguntar sobre sexo. Touro comenta que começou com a mulherada aos 12 anos. Sempre foi viril e garante que continua mandando ver até hoje. “Arthur, temos uma vida sexual que continua ativa. Normalmente fazemos amor de duas a três vezes todas as noites e, de manhã cedo, ainda tem o complemento matinal.” O Touro continua furioso!

Dona Maria sorri e confirma a performance diária de seu amado. Uma multidão de amigos, curiosos e familiares se aconchega nos cômodos da casa. Nosso tempo estava esgotado. A família agradece e se despede de nossa equipe. Já de saída, escuto ao fundo Touro dizer a um grupo de pessoas que sempre ensinou seus filhos a nunca desistirem de seus objetivos e metas. Os machos alfa amam o sucesso e são viciados em adrenalina. Touro Moreno é um grande representante dessa espécie.

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