Tesão pela bola

Na copa de 1970, Luiz Mendes estava preso, mas mesmo assim assistia aos jogos pela TV

Às vezes me questiono se sou diferente da maioria das pessoas. Porque não dou a mínima bola para coisas que as pessoas amam de paixão. Futebol é uma delas. Jogar bola é legal, é um excelente exercício, elimina stress e tudo o mais. Mas, sinceramente, não consigo torcer com a emoção mais profunda ao ver os outros jogarem.

Jamais fui a um estádio de futebol. Acho pura perda de tempo. Nunca fui esportista. Não jogo absolutamente nada porque, se perder, já quero brigar. Mas houve épocas em que torci muito, durante os jogos da Copa do Mundo. Aguardava ansiosamente durante quatro anos. Mas só assistia aos jogos do Brasil. Colocava meu coração nos olhos e ouvidos para sentir com precisão. Vibrava, chegava a chorar pela glória do país. Quando tocava o hino nacional, meu coração estremecia e as lágrimas brotavam espontâneas nos olhos. Tempos juvenis em que esfregava uma mão na outra e sentia o pulsar da alma ardorosa.

Tinha 10 anos quando o Brasil foi bicampeão mundial em 1962. Não havia televisão. Escutava pelo rádio aquela vitória e eu, menino, me inflava de orgulho. O céu se encheu de balões verdes e amarelos. O orgulho de ser brasileiro tirou o povo de casa e o levou para as ruas. O Brasil parou para saborear aquela glória. As pessoas, mesmo aquelas que não gostavam de futebol como eu, enchiam a boca para gritar: "Brasil! Brasil! Brasil!". Todo brasileiro participou. Era carnaval de novo. Éramos, de fato, os melhores do mundo.

Em 1970 eu estava preso em um instituto para menores de idade delinquentes. Havia completado 18 anos. Assistíamos aos jogos do Brasil na Copa transmitidos ao vivo pela TV. A cada gol, colocávamos o lugar abaixo. Eram jogos vibrantes, com dribles fantásticos de grandes mestres como Pelé, Jairzinho, Rivelino, Gerson, Tostão, Carlos Alberto e outros. O Brasil ganhava de 4 a 2; 3 a 1; 4 a 1. Quase todo jogo era goleada e show de bola. Aquele era o nosso Dream Team, não tinha para ninguém. Éramos os melhores do mundo.

UFANISMO DETESTÁVEL

É uma pena que os militares quiseram capitalizar aquela vitória, como se fosse do regime ditatorial que eles impunham ao país. Nossos jogadores foram recebidos como heróis. E eram. Concomitantemente ocorria o "milagre econômico" e a chegada dos "anos de chumbo". Era detestável o ufanismo com que os militares pretendiam enganar o povo. As praias do Brasil nunca foram mais douradas do que as de outro lugar.

Vieram outras Copas e, em duas delas, o Brasil ganhou novamente. Mas não mais com o brilhantismo daqueles primeiros atletas que defendiam o orgulho de ser brasileiro e não a grana que iam ganhar. E, mesmo nessas que ganhamos, não foi porque fomos absolutamente melhores, como aconteceu nas três primeiras. Só fomos um pouco melhores, apenas o suficiente para vencer. Nunca mais vi a firmeza de Carlos Alberto ao erguer aquela taça no México em 1970, em nome de todos nós, brasileiros.

As cinco Copas que vencemos provam, sem a menor sombra de dúvida, que temos os melhores jogadores do mundo. Eles estão por aí a brilhar nos solos estrangeiros, podres de ricos. Mas aquele amor, aquele tesão pelo futebol, parece que morreu. Restaram as torcidas organizadas a se digladiarem nas vizinhanças dos estádios e as saudades daqueles heróis do passado que enobreceram a nação e o esporte.

Ainda bem que não gosto de futebol. Mas, com certeza, observarei os resultados, navegarei pelos jogos da seleção brasileira e assistirei ao Brasil nas finais. É irresistível.

*Luiz Alberto Mendes, 56, é autor de Memórias de um sobrevivente, sobre os 31 anos e 10 meses que passou na prisão. Seu e-mail é lmendesjunior@gmail.com

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