TEM POUCO E ACABA LOGO
Curioso observar as diferentes reportagens que recheavam os jornais neste Dia do Trabalho
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Curioso observar as diferentes reportagens que recheavam os jornais neste Dia do Trabalho. De um lado, gritos dos mais diferentes calibres denunciavam a enorme sacanagem que estupra diariamente a grande massa produtiva do país: 1% da população ganha mais do que os 50% menos privilegiados. Marcinho VP faz seu discurso alegando, à sua maneira, que o tráfico é a única opção para os jovens inconformados dos morros cariocas. Os índios que restaram tentam, em vão, reconquistar algo do que lhes foi tomado. Juízes, ministros, prefeitos, governadores e vereadores protagonizam escândalos de corrupção que nos revelam trouxas de carteirinha diante dos avisos que dizem: este ano não haverá adiamento dos prazos para entrega das declarações do imposto de renda.
Do outro lado, enquanto caminhoneiros ameaçam pela milésima vez fechar as estradas de asfalto, pipocam notícias sobre as novidades geradas pela ‘information highway’, capital vindo de todas as partes do planeta é despejado sobre projetos dos mais improváveis tipos e, o mais incrível, falta mão-de-obra e sobram empregos, numa luta inacreditável que fez duplicar, triplicar e em alguns casos, quintuplicar os salários pagos a secretárias, gerentes financeiros e, principalmente, aos chamados criadores de conteúdo como publicitários e jornalistas. É muito simples explicar. Num país onde educação sempre teve tanto prestígio junto aos seus dirigentes quanto o hóquei sobre a grama, a revolução da informação pegou todo mundo de calças curtas.
O paradoxo é: temos um mercado potencial imenso, com dezenas de milhões de pessoas com vontade de consumir e de se informar, conseguimos um nível mínimo de controle dos índices de estabilidade econômica, mas não temos operários suficientes para entregar as encomendas. É que os operários necessários hoje não são mais os índios, os escravos ou os metalúrgicos despreparados dos anos 60 e 70.
Upgrade
Agora, estes operários têm de ter curso superior, MBA, pós-graduação, inglês fluente, terceira língua, informática, tem de ser parte de seu dia-a-dia. De quantos destes dispomos? De pouquíssimos, graças à nossa própria incompetência e nenhuma visão de nação capaz de enxergar a longo prazo.
Hoje, assim, assistimos a uma disputa irracional pelos três ou quatro gatos pingados que ainda não se tornaram sócios de algum megaempreendimento. O que será do nosso potencial quando nossos gatos pingados de diploma já estiverem de posse de seus contratos de ‘stock options’, associados a grandes empresas? Importar mão-de-obra da Índia? Clonar Jorge Paulo Lemann? Pagar madureza para os sem-terra? Pobres de nós, que pagamos todos os dias o preço da ignorância e da maldade das gerações que nos precederam.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu