por Teté Martinho
Trip #221

O que as vítimas preferenciais do humor da TV brasileira revelam sobre a nossa sociedade

Pobretões estropiados, presidentes militares, galãs de novela, famílias arruinadas, casais neuróticos, gays, celebridades: ao longo dos anos, o que as vítimas preferenciais do humor da TV brasileira revelam sobre a nossa sociedade

Num país que perde tudo, menos a piada – basta lembrar quantas horas demoramos para começar a rir de grandes ídolos mortos, como Tim Maia e Ayrton Senna –, o que os maiores sucessos do humor de massa nos dizem sobre o Brasil? Da era de ouro do humor de tipos de Chico Anysio e Jô Soares à recente explosão da graça cáustica do grupo independente Porta dos Fundos – passando por formatos cuja longevidade desafia a lógica, como A grande família e A praça é nossa –, em quem temos adorado ver nossos humoristas baterem?

Os pobres e/ou estropiados, como o Bronco, de Ronald Golias, sempre tiveram nossa preferência. Nos primeiros anos da TV brasileira, o personagem dividia com a Velha Surda de A praça (que nasceu A Praça da alegria) a tarefa de entreter a audiência, enquanto o país afundava em atos institucionais cavernosos.

Se não tiveram graça nenhuma, os anos de regime militar ao menos alimentaram pérolas do humor. Entre os tipos que Jô e Chico encarnavam nos anos 70 e 80, sobressaíam-se os que parodiavam políticos em evidência ou faziam alusões veladas ao regime. Anysio criou Salomé, a velhinha gaúcha que passava pitos no então presidente João Figueiredo; Jô, o milico que acordava de um coma com Sarney na presidência (“Me tira o tubo!”) e Sebá, exilado político que vociferava, ao ouvir notícias do Brasil: “Você não quer que eu volte!”. Isso tudo em um tempo em que a Censura era uma ameaça; um dos grandes sucessos do hunorista, o Capitão Gay, quase morreu antes de nascer: havia um coronel em Brasília que tinha Gay no nome, e Jô temia irritá-lo com o personagem.

“Apolooooonio, É você, Apolônio?”Rony Rios, a Velha Surda A Praça da Alegria/A Praça É Nossa(TV Paulista/Globo, 1957)

Rir da ditadura, eventualmente, cansaria. A virada para os anos 1980 e o processo de abertura política trazem à baila novas vítimas e novas formas de rir delas. TV Pirata (1988) batia em ricos e remediados, mas tinha como principal cristo a própria Rede Globo e sua onipresença no imaginário do país; Casseta & Planeta (1992), de verve mais política, inaugurou o “jornalismo mentira, humorismo verdade”. Se o primeiro deriva do teatro besteirol, o segundo é filho do tablóide underground Planeta Diário (1984), que atirava para todo lado, com manchetes como “Wilza Carla explode na Terça-Feira Gorda” e “Sobral mata a cobra e mostra o pinto”.

“Jô e Chico faziam humor de resistência. A Casseta e o Planeta nasceram para fazer um contraponto a isso em um período de redemocratização”, diz Marcelo Madureira.

Ricos pobres e pobres ricos

Nos anos 90, em plena redemocratização, são as mudanças no topo da sociedade brasileira que alimentam o maior sucesso humorístico da TV. Uma família de ricos submergentes, produto acabado da era de incertezas econômicas dos governos pré-real, é a vítima de eleição de Sai de baixo, que turbinou a eterna sitcom familiar com uma boa dose de improviso – era gravado de um jeito algo retrô, ao vivo e com plateia. “A família classe A falida era engraçada na época, assim como hoje a gente ri da ascensão da classe C”, diz a atriz Marisa Orth, que fazia a descerebrada Magda no humorístico.

'Ô da poltrona'Renato Aragão em Os Trapalhões(Globo, 1977-1995)

Prova viva da própria fala, ela encabeça o núcleo cômico da novela Sangue bom, que acaba de estrear na Globo, no papel da filha de um feirante que enriqueceu. Mas nem por isso acredita em grandes mudanças no humor feito na TV brasileira. “Sai de baixo era commedia dell’arte, um gênero do século 16. A árvore de Natal é a mesma. O que muda são os enfeites”, ri.

Coisas de casal

Na virada do milênio, em clima de democracia, estabilidade econômica e “liberdades individuais” garantidas, o que desponta como motivo de riso é, mais que a política ou a economia, a neurose conjugal, praga que une ricos, pobres e classe média numa identificação em larga escala. Os normais (2001), sitcom modernizada, promove uma mudança sutil no foco da graça. “Há dois tipos de humor. O que ri dos outros e o que ri de si mesmo. Os normais era do segundo tipo”, diz Alexandre Machado, cocriador, com Fernanda Young, da série e de O dentista mascarado, que marca a estreia de Marcelo Adnet na Globo. 

Bater nos outros, contudo, não sai de moda. Longe disso. Pânico, sucesso radiofônico que chega à TV em 2003, aposta num pastiche poderoso que ressuscita o humor de tipos, abrasileira as tiradas nojentas do programa americano Jackass e manda chumbo grosso contra nosso deslumbramento diante das celebridades. “Brincamos muito com esse culto aos famosos e com a ideia de que o sucesso ($$) transforma o ridículo em respeitável”, diz Emílio Surita, cabeça do programa.

"Eu faço a cabeça do João Batista ou não me chamo Salomé"Chico Anysio em Chico Anysio Show(Globo, 1982-1990)

Sucesso de audiência, Pânico desafia não só o bom gosto, mas o formato humorístico tradicional. “Estamos no horário mais competitivo da TV e temos obrigação de ser populares, mas nem por isso deixamos de brincar com a percepção do telespectador. Misturamos realidade e ficção, personagens e gente real. Temos um time irrequieto e sem medo de errar”, diz Surita. “Eu, particularmente, não gosto, mas acho que programas como o Pânico ajudam no processo de amadurecimento do público brasileiro em relação à comédia televisiva”, acredita Alexandre Machado. “Eu quero mais é que eles explodam todos os limites.”

Censura branca

O panorama do humor televisivo atual mostra que ainda há público para os tipos caricatos de Zorra total e A praça é nossa, o humor familiar de A grande família, e novidades como o CQC (2008), formato argentino que aposta em constranger políticos, religiosos e artistas. Mesmo assim, sugere uma certa crise de criatividade na TV, atribuída por muitos humoristas ao que consideram uma nova forma de censura: a moral do politicamente correto, reforçada por leis como a 9.504, que proíbe sátiras a candidatos em época eleitoral, e pela ameaça de processos por ofensa.

A campanha contra agressões (real ou supostamente) cometidas por humoristas coincide com a organização da sociedade civil e o avanço das defesa dos direitos das minorias, mas sugere exageros de parte a parte.

“Essa patrulha do moralismo também tem fins lucrativos. Hoje fundar uma ONG em defesa dos anões caolhos gera dinheiro e é preciso justificar esse dinheiro. Essas representações sociais são muitas vezes questionáveis, veem preconceito em tudo”, diz Madureira.

“A criatividade humorística foi manietada pela autocensura do politicamente correto. A comédia de hoje parece algodão-doce”, diz Elias Thomé Saliba, professor de teoria da história na USP e autor de Raízes do riso (Cia. das Letras).

O surgimento de uma geração de comediantes “de pé” e a disseminação dos esquetes caseiros em vídeo, viralizados na internet, estão contribuindo para renovar o humor brasileiro – e pôr mais lenha nessa discussão sem fim. Um dos comediantes revelados pelo stand-up, Danilo Gentili foi acusado de crime de racismo pelo Ministério Público por uma piada que rimava negro e macaco. “Todo mundo fala de Chico Anysio e Jô Soares como se fossem santos, nesse sentido”, lamenta Gentili. “Mas eles faziam piadas sexistas, zoando homossexuais, raças, credos. O mundo faz piada disso.”

"Quem eu pensei pra fazer Deus é Seu Jorge"Fabio Porchat em Brainstorm, esquete de Porta dos Fundos

O que distingue graça e preconceito, na opinião de quem faz humor? “Quando a piada é boa, faz rir automaticamente, não existe agressividade”, acredita Madureira. Paulo Gustavo, criador do monólogo Hiperativo, ressalva. “O melhor humor é o que faz rir e diz algo; o pior é o que apela para grosserias e humilhações.”

O humorista negro Marcelo Marrom vai mais longe. De peruca loura, ele arranca gargalhadas com um monólogo teatral que tem como alvo o negro. “Agora, em vez de me chamar de negão, o pessoal grita na rua: ‘Afrodescendente só faz merda’.” Transformar o que vive em piada é seu trabalho, afinal, justifica-se. “Nossa cabeça mudou pra pior. Chamar o negro de afrodescendente não melhora sua vida”, diz. “O preconceito não está na nomenclatura, mas no coração das pessoas. Posso usar termos como ‘crioulo’ sendo e não sendo preconceituoso. É questão de inflexão, momento, tom. É ignorância pensar que tudo é preconceito.”

Tempos velozes

Há luz no fim desse túnel? Sim, diz Alexandre Machado. “O politicamente correto é uma questão superada em outros países. Na TV americana, há um renascimento do palavrão, do mau gosto, da comédia maluca. Girls é uma série de humor que testa limites de uma forma impensável há dez anos. As pessoas aparecem peladas o tempo todo, transando, exatamente como são.”

Menos animado, Madureira acha que o estado do humor reflete “uma certa regressão da sociedade”. “A TV aberta não comporta mais um conteúdo iconoclasta, arrojado. E quase não se fala de política no humor. Nossa sociedade reclama, mas não se engaja. De forma grosseira, há uma alienação”, opina.

Fã de vários dos comediantes que surgiram na última década – Paulo Gustavo, Marcelo Adnet, Katiuisca e, em especial, Fabio Porchat e Gregório Duvivier, dois dos criadores do sucesso virtual Porta dos Fundos –, a atriz Regina Casé discorda. “Tem um episódio deles que mostra toda a cadeia alimentar brasileira: ladrão, favela, delegado, pastor”, diz, referindo-se ao esquete em que um motorista de táxi é roubado por um traficante, que é achacado por um policial, que é afanado por um deputado, que, afinal, perde para o taxista, que se diz pastor evangélico e cobra o dízimo. “Acho isso altamente politizado”, ela diz. “É uma crítica contundente a um momento que a gente está vivendo.”

Desgraças brasileiras e males contemporâneos, como o tédio da vida corporativa e os péssimos serviços oferecidos pelas empresas das quais dependemos no dia a dia – telefônicas, por exemplo –, estão entre os temas do Porta dos Fundos. Para Fabio Porchat, um de seus criadores, os temas não são o ponto, mas o ritmo. “O ritmo das pessoas muda e as piadas têm de mudar pra acompanhar. Hoje estamos em um ritmo mais acelerado. Daí o formato do Porta dos Fundos, com esquetes de poucos minutos e tiradas rápidas. Não mudamos nada. Seguimos o modelo de esquetes de TV pirata, Monty Python. O que aconteceu foi que acertamos no timing.”

Por que amamos tanto o que não muda nunca?

Por: Eugênio Bucci

As crianças, antes de dormir, gostam de ouvir histórias. De preferência, as mesmas. Sob as cobertas, pedem aos pais que leiam os mesmos livrinhos, já gastos, puídos, cujos textos elas passam a decorar. E então gostam ainda mais daquelas palavras, aquelas mesmas palavras repetidas.

Depois as crianças crescem e seguem em busca de narrativas repetidas para seus tortuosos itinerários eróticos. As aventuras sexuais de uns e outros podem trazer novidades retumbantes para uns e outros, mas, se elas forem mesmo um filme quente, as legendas serão quase sempre iguais, com poucas variações.

O prazer da gente busca aninhar-se no conhecido, no familiar. O prazer se compraz não em conhecer, mas em reconhecer. A “vítima” do sedutor mira o estranho bem nos olhos e diz: nós somos íntimos desde tempos imemoriais. Não foi por outra razão que a indústria do cinema se organizou, disciplinadamente, em gêneros fixos. Os filmes são “devices” para entregar aos clientes o tipo exato de emoção que eles querem comprar. Os outros ramos do entretenimento também funcionam assim. Todo jazz é igual ao jazz, todo samba é idêntico a si mesmo, todo sertanejo universitário cacareja em dueto previsível. Aí o freguês compra, se reconhece e goza.

Por que a nação prefere ver o futebol na Globo se nos outros canais a imagem é potencialmente igual? Simples: porque a voz do Galvão Bueno, que muita gente xinga, faz com que todo mundo se sinta em casa. Faz com que todos se reconheçam em casa. Que o tal Galvão seja o maior salário da TV brasileira (ou um dos maiores, vá lá) não surpreende. É ele que segura a audiência. Não por inovar, mas por ser igual, conhecido, já sabido.

Também com as piadas é assim: a gente adora rir da mesma piada. É mais confortável do que rir de piada nova – coisa mais chata, mais trabalhosa. Rir da mesma piada é mais prazeroso. Só o que se pede é que haja uma pitada de invenção, discreta, mínima. O gosto verdadeiro é o do mesmo – exatamente como na gastronomia.

No meio da aula, anuncia: “Agora eu vou contar uma piada”. Imediatamente, a classe inteira começou a rir, antes mesmo da piada. Os alunos se sentiram autorizados a rir – e isso, apenas isso, fez com que rissem com muito gosto. Foi uma boa risada coletiva, e quem ri coletivamente se sente mais em casa ainda, mesmo que seja na escola.

Para que servem as risadas gravadas ao fundo da trilha sonora das sitcoms? Elas servem para autorizar o riso. Quem ri coletivamente cumpre uma ordem –
e adora. Concorda, aceita e adora. A compensação para quem ri em tropa é sentirse pertencente.

Ah, sim, dizem que o humor liberta. Francamente, há piadas melhores. Só o que liberta é a dissonância, a dissidência. Na indústria do entretenimento, o humor apenas compacta a audiência – que, em lugar de marchar unida, gargalha unida. E se sente de volta à casa materna, à eterna, sempre aberta casa materna, sempre à espera dos que se dispersaram, perderam-se no mundo, mas um dia retornarão ao aconchego final. Um útero, um túmulo.

Por isso, o humor que vence na televisão é o que tem em si a capacidade de repetir-se ad infinitum. O Zé Bonitinho é o personagem mais importante dos humorísticos televisivos. A Praça é nossa é uma capitania hereditária, que cruza os tempos e as megatransformações tecnológicas sem dar sinal de esmaecimento. Essas coisas são o nosso cadáver de Lênin, aquilo que não muda para que tudo o mais se esboroe à vontade. As mesmas piadas de sempre, as mais cadavéricas, acolhem os infelizes na sua morada idílica.

Diante disso, não deveria intrigar a ninguém o fato de que os humorísticos mais ressequidos são aquilo que a televisão brasileira nos oferece de mais novo. E de que os humoristas mais novos, a um golpe caprichoso do tempo acelerado, acabem se convertendo no que temos de mais ressequido.

As crianças, antes de dormir, pedem que lhes contem uma historinha conhecida, assim como os velhos, antes de morrer, só desejam rir um pouco de uma piada que, segundo creem, não envelheceu.

fechar

Entre em contato
com a trip


fale conosco

PABX +55 (11) 2244-8747
Caixa Postal: 11485-5
CEP: 05414-012
São Paulo - SP

atendimento ao assinante

SP (11) 3512-9465
BH (31) 4063-8433
RJ (21) 4063-8482
das 09h às 18h
assinaturas@trip.com.br
 CENTRAL DO ASSINANTE 

ou se você preferir:

e-mail inválido!
mensagem enviada!
fechar

Assine


E leve ousadia, moda, irreverência,
comportamento, inspiração.
Tudo isso com coerência, profundidade
e um olhar que só a Trip tem.

trip

Desconto de 25%

1 ANO
11 edições
R$ 98,18
6 x R$ 16,36

Capa Conceito

assinar

1 ANO
11 edições
R$ 98,18
6 x R$ 16,36

Capa Trip Girl

assinar

trip

Grátis um super relógio

2 ANOS
22 edições
R$ 261,80
6 x R$ 43,63

Capa Conceito

assinar

2 ANOS
22 edições
R$ 261,80
6 x R$ 43,63

Capa Trip Girl

assinar
fechar