Graças ao feriado de carnaval e a essa maravilhosa profissão, na qual somos pagos para aprender, escrevo este primeiro texto do oitavo ano desta coluna, abusando da tecnologia, que permite que uma cadeira solitária de um aeroporto americano se transforme numa confortável e equipada redação. A situação me inspira a relembrar algumas sugestões que fui aprendendo e compilando ao longo de mais de vinte anos de viagens profissionais. Talvez sejam úteis nesta época do ano, em que a idéia de deixar o País torna-se mais viável.
Ponto 1: atrasar não compensa. Essa é do meu afilhado de casamento, o fotógrafo profissional norte-americano Aaron Chang. Depois de mais de 15 anos viajando profissionalmente pelo Globo, a serviço de uma das mais importantes revistas segmentadas da América, Chang chamou-me de lado e confidenciou: ‘Não adianta, já tentei todas as maneiras. Chegar duas horas antes, uma, 15 minutos, meia hora depois. Não vale a pena. A relação despreocupação momentânea X estresse prolongado não compensa. Um último beijo na amada, compras de última hora, o museu esquecido, nada compensa.
Cheguei à conclusão de que o negócio é considerar o dia do embarque como parte já integrante da viagem. Não marcar nada naquele dia e seguir para o aeroporto entre três e quatro horas antes do horário previsto para a decolagem. A sensação de ‘no stress’ não tem preço. Sua saúde dá pulos de alegria e o próprio vôo rola mais tranqüilo.’
Ponto 2: comer, beber, sofrer… Mesmo sabendo como é bom receber caixinhas e celofanes cheios de delícias como polenguinhos, Haagen-Dazs, estrogonofes e tortas, o mais sábio a fazer é comer frugalissimamente. Saladas, frutas e outros itens integrantes de listas de regime são o ideal para garantir uma viagem muito mais digna. Se você não ganhou seu ticket no concurso da TVA, nem trocou seus cupons de milhagem, dificilmente se disporá a morrer com os valores escorchantes cobrados pelos lugares de primeira classe. Mais um motivo para pegar leve na comilança. Sentir-se estufado num lugar apertado, no qual você ficará espremido por mais de dez horas, jamais valerá o prazer de quinze minutos mastigando guloseimas.
Ponto 3: economizar em hospedagem e transporte quase sempre é gelada. Na minha última empreitada a Nova York, caí no conto do design/glamour. Depois de décadas ouvindo falar dos apartamentos lendários do Chelsea Hotel, das aventuras do Sid Vicious e Nancy, das páginas de ‘A Morte do Caixeiro Viajante’ sendo escritas nos parapeitos das janelas, das obras de arte decorando cada apartamento de maneira distinta, resolvi ceder aos apelos e me registrar no estabelecimento. Decadência é a palavra. O local foi há muito rebaixado para a segunda divisão, mas continua (estimulado pela mídia) se achando o campeão. Preços abusivos para apartamentos sujos, gastos e sem graça, que só ficam bem em fotos de revistas de decoração e arquitetura.
Invista em estabelecimentos sérios e consagrados. Deixe para arriscar quando estiver viajando sem compromisso. Você vai precisar de bons travesseiros, aparelho de telefone moderno, banheiros amplos, toalhas grandes e felpudas, um som decente, guardanapos, pratos, talheres e comida corretos etc.
Certifique-se também, se possível, de que seu hotel tenha um concierge, aquele sujeito que é pago para resolver dúvidas, problemas e outros imprevistos apresentados pelos hóspedes. Da limousine com champanhe e gelo até os ingressos para o show dos Stones que estão esgotados. Numa tradução livre (Milloriana), a descrição da atividade desta categoria poderia ser ‘We Turn Ourselves’ ou, no português de calçada, ‘a gente se vira’.
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