por Marcelo Starobinas
Trip #223

Jornalista compara a vida de cadeirante em São Paulo, Londres e Nova York

Um jornalista compara a vida de cadeirante em São Paulo, Londres e Nova York. Aqui a situação não é tão ruim quanto se pensa, mas o transporte público e as calçadas ainda são um obstáculo para os deficientes

Após 12 anos no exterior, entre Londres e Nova York, aqui estou, de volta à terra natal. Sou cadeirante e uma pergunta que sempre ouço é: “Não foi um baque voltar a São Paulo?”. Tenho o prazer de informar que a cidade – pelo menos a minha São Paulo, dos bairros centrais – não vai tão mal quanto se pensa, em termos de acessibilidade. De todo modo, a resposta padrão é esta: sofro um baque igual ao de qualquer um que tenha tido o privilégio de morar numa grande cidade onde não é preciso ter carro. Para os cadeirantes, e para a maioria dos mortais, optar pelo transporte público aqui é fazer da vida um inferno.

A ausência de transporte público de qualidade e as condições precárias das calçadas são o abismo que separam Sampa de Londres e Nova York. Em Londres, os ônibus rodam 24 horas e todos têm rampas. Com os investimentos olímpicos, o metrô foi em boa parte reformado para oferecer acesso. De quebra, a prefeitura te dá 1.000 libras anuais (cerca de R$ 3.300) em subsídios para andar de táxi.

Na minha escala subjetiva, Nova York está um degrau abaixo de Londres e um acima de São Paulo. Há ônibus adaptados, mas o acesso no metrô é limitado. Os elevadores quebram com frequência irritante. Você chega ao destino e não pode sair para a rua. Os táxis são outra guerra. Os motoristas não têm tempo a perder. Aqueles que não te ignoram te ajudam com impaciência.

Há cada vez mais ônibus com elevador em Sampa. O metrô é muito bem adaptado. O problema é chegar até as estações ou ao ponto de ônibus. A falta de boas calçadas talvez seja o maior impedimento à plena cidadania aos cadeirantes. Quantas vezes não me arrisco trafegando no canto da rua porque buracos ou degraus na calçada me deixam sem outra opção?

A topografia também atrapalha. Eu morava no bairro de Perdizes e passear pelas pirambeiras era uma missão impossível. É assim em grande parte da cidade. Mudei para o centro e a vida melhorou: a região é plana e pensada para os pedestres. Retomei o hábito de flanar por aí, como fazia quando morava fora. Sanduba no Bar do Estadão, cervejinha no Paribar, padoca no Arouche, exposições no CCBB, a bagunça na Roosevelt. Cruzo o viaduto 9 de Julho, e a biblioteca Mário de Andrade, reformada e acessível, é onde descubro novos autores, escrevo roteiros, preparo minhas aulas.

Ainda há muito a ser feito, mas vejo com otimismo o futuro da acessibilidade em São Paulo – e espero contribuir para que a cidade seja mais receptiva às pessoas com dificuldades de locomoção.

*Marcelo Starobinas é jornalista e roteirista, coautor do filme Jean Charles

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