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Sobre egos e álteres

em 27 de agosto de 2010

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Por Prof. Carlos Frederico Lucio – ESPM

Tem sido até certo ponto lugar comum a afirmação de que a sociedade da atualidade teria experimentado uma mudança importante no eixo edípico de sua formação familiar (cuja centralidade é o casal) para um eixo narcísico (cuja centralidade, por sua vez, são os filhos, na medida em que os casais se reconfiguram e este é o único elo entre o par original). Esta vertente narcísica acaba por hipertrofiar a tendência individualista inaugurada pela modernidade lá no século XV. Individualismo aqui entendido como proposto pelo antropólogo Louis Dumont: como uma ideologia que valoriza o indivíduo com suas qualidades, virtudes e – ideia decorrente deste processo – direitos. Neste sentido, não se deve confundir o individualismo proposto pelo autor com a noção do senso comum (que o iguala a “egoísmo”, “desprezo pelo outro”). Muito pelo contrário: na ideologia moderna do indivíduo como valor, este tem consciência de que é justamente o espaço coletivo (por meio de instituições – o Estado Moderno seria a sua representação máxima) que o vai defender em caso de vilipêndio ou agressão a esses direitos. Por isso mesmo, o indivíduo moderno, justamente porque preserva sua intimidade, sua privacidade e seus valores, respeita e valoriza a coletividade. Pode parecer, à primeira vista, um paradoxo, mas é justamente esta a base de sustentação da sociedade moderna: o indivíduo como valor só é possível a partir da construção de um espaço coletivo consolidado que garante a sua integridade. Nesse campo, é fácil a transformação do individualismo num narcisismo ou mesmo num egoísmo sem limites.

Uma das sensações mais esquisitas que experimento, na minha lida cotidiana com as pessoas, é um incômodo quando tenho que me confrontar com situações em que a disputa narcísica por um lugar superior fica evidente. Isso porque eu me sinto verdadeiramente incompetente para disputar espaços, num enfrentamento direto. Nunca tive muito ânimo para embarcar nesse tipo de empreitada. Desde pequeno. Aliás, costumo dizer que se fosse eu um animal pura e simplesmente que dependesse da competição para conseguir um lugar ao sol, creio que morreria à míngua, ou atravessado pela ferocidade de uma mandíbula dilacerante, sedenta por extirpar do mundo mais um empecilho ao brilho de seu pelo. Tenho plena consciência de que isto é algo muito comum e, até certo ponto, “natural” (no sentido estrito do termo). Sempre procurei investir em minhas qualidades e procurar afirmar-me sobre elas, tendo-as como base. A consequência acabou sendo o êxito em várias de minhas conquistas, mas sempre o foco era eu mesmo (e não a superação do outro).

Dentro desse universo específico da competição, em que ela se manifesta das mais variadas maneiras (o melhor curso, a melhor roupa, o melhor corpo etc.), a disputa pela detenção da “melhor”, da “mais verdadeira”, da “mais inusitada” informação é a que mais me incomoda. É acintoso como se quer mostrar certo poder, diante da revelação do “último furo”. É como se estivesse diante de um festival de manifestação de Egos em que o “ter o último carro”, “ter o último music player”, ter a “roupa da última moda”, o da mais elegante ou sofisticada grife, enfim aquilo que tipicamente caracteriza a superficialidade no mundo do consumo real, fosse substituído pela “nobreza” da informação. Como se a detenção e a exibição do conhecimento fosse mais nobre do que a detenção e exibição dos sofisticados itens de consumo aludido: o carrão, a roupa, o equipamento eletrônico, a moda etc. É certo que, em se tratando de vida em coletividade, é praticamente inevitável esse mecanismo. A questão é que, para mim, isso poderia ser evitável pelo menos entre pessoas que valorizam aquilo que considero essencial nas coisas em si: o conhecimento pelo conhecimento; o afeto pelo afeto.

Nesse sentido, acredito que as pessoas poderiam ser mais felizes e produtivas se considerassem o outro como parâmetro de estímulo e não como alvo a ser metaforicamente destruído. Seria essa uma manifestação efetiva de nosso caráter mais primitivo e avesso à nossa condição de cultura e civilização? É, no mínimo – como diria Lévi-Strauss a propósito dos mitos -, bom para se pensar.

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