Só love
Segurança e saúde: duas aflições humanas que são irmãs de criação
Sigmund Freud, em foto de 1930: um pouco de segurança em troca de um pouco de felicidade / Créditos: Latinstock/Adoc Photos/ CORBI
Por Paulo Lima Trip #218
em 5 de fevereiro de 2013
Copio aqui o interessantíssimo relato que o articulista convidado desta edição Bruno Pesca nos oferece ao final de seu texto da página 84. Nele, uma troca de ideias instigante entre o genial personagem de capa de nossa edição passada e uma das mais importantes figuras do pensamento humano em todos os tempos acerca da paz mundial e da segurança dos povos. Vejamos:
“Na década de 1930, contexto de pós-Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações (hoje, a ONU) propôs aos maiores intelectuais e cientistas da época um desafio até então inédito. Eles deveriam escrever uns aos outros de forma a cruzar conhecimento e discutir temas e soluções para a humanidade. Einstein escolheu Freud. Einstein, um entusiasta assumido do futuro, perguntou se pelos caminhos do conhecimento psicanalítico haveria indícios para supormos que um dia um mundo sem guerras seria possível. Freud foi categórico e respondeu que não, num belo resumo sobre a psique humana versus a organização das sociedades sob essa ótica. Desapontado, Einstein insistiu: ‘Mas nem mesmo se alcançarmos abundância de recursos e igualdade plena de direitos e oportunidades entre todos os homens?’. Freud devolveu: ‘Acho que não. Nem mesmo assim seria possível’.”
Em seu eternamente estudado e discutido livro O mal-estar na civilização, o neurologista austríaco que fincou as bases para a psicanálise oferece sua visão de que, de fato, o homem teria trocado parte importante daquilo que, de certa maneira, se entende por felicidade por algo que idealizamos e resolvemos batizar de segurança. No texto original: “o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança”. Mas isso existe de fato? Há alguma maneira de escaparmos de nossos medos? De enganarmos o caminhão com a caçamba cheia de angústias e ameaças que vive na nossa aba tentando nos atropelar?
Irmãs de criação
Esta edição da Trip, mais uma vez, toma para si uma pretensiosa missão, a de dar um sobrevoo sobre uma das questões mais cabeludas que se nos apresentam nesses tempos não menos abundantes em termos capilares. Se não por ser essa uma questão secular e que não se resolve, pelo fato de que, em toda e qualquer pesquisa que se faça no Brasil e no resto do mundo indagando o que aflige as pessoas, as questões normalmente associadas à ideia de segurança despontam solenes nos primeiríssimos postos, ladeadas apenas pelas ligadas à saúde, ambas, aliás, irmãs de criação. Medo de assaltos, de sequestros, de doenças, de tiros e de balas perdidas, de agressões partindo da própria polícia em um hemisfério, de atiradores desembestados em escolas ou de ser despachado para guerras incompreensíveis em outro, de estupros coletivos do lado de lá ou de solidão insuportável ou ciberviolência do lado de cá.
Um especialista em cadeias e em doenças graves a um surfista com dotes de cientista político. Da equipe de guarda-costas de Zezé Di Camargo a experts em artes marciais ou ex-presidiários. Vejamos o que dizem nossos colunistas, colaboradores e convidados diante da questão colocada: Existe vida com segurança? Ou será mesmo inevitável costurar o diminuto e desconfortável prefixo in antes da última palavra da frase, se quisermos remover dela o ponto de interrogação?
O próprio Freud, numa de suas obras, talvez tenha deixado uma pista, ainda que ela, de alguma maneira, contradiga boa parte de seus pensamentos estruturados, incluindo sua resposta àquela questão formulada por Albert Einstein: “Em última análise, precisamos amar para não adoecer”.
Paulo Lima, Editor
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu