O que muda (e o que não muda) no mundo dos relacionamentos pós-apps de encontros, sexting, manda nudes e pornô online?

N. e C. se conheceram on-line e, a princípio, nem ao menos sabiam se a pessoa do outro lado era homem ou mulher. Não havia ainda forma de transmitir imagens nem voz pela rede, apenas texto. A frieza do meio, porém, não impediu que N. e C. desenvolvessem uma relação que acabou se tornando para eles muito mais importante do que outras da vida real.

A americana Ella Cheever Thayer conta essa história no best-seller Wired Love, publicado pela primeira vez em 1880. Sim: 1880. Nattie, a protagonista, e seu amante secreto, C., se apaixonam trabalhando como operadores do que havia de mais moderno na comunicação, o telégrafo. Com vários desencontros e uma surpresa sobre a identidade de C., o livro é quase uma versão pré-internet de You've Got Mail [Mens@gem para você], comédia romântica de 1998 estrelada por Meg Ryan e Tom Hanks.

Outra personagem, Miss Archer, pergunta em determinado momento, durante uma conversa: "Quem sabe se algum gênio vai inventar algo para o uso especial de amantes? Algo, por exemplo, para carregar em seus bolsos, e, quando estiverem distantes um do outro e ansiarem pelo som daquela voz amada, terão apenas que pegar seu aparato elétrico, colocá-lo nos ouvidos, e ser felizes. Ah! Bem-aventurados os amantes do futuro!". Os amantes do futuro, passados 135 anos, têm um aparato ainda mais moderno do que esse – embora não exista exatamente consenso sobre serem bem-aventurados ou não.

Analisado à exaustão desde que foi lançado, em 2012, o aplicativo de encontros Tinder foi apontado recentemente em uma reportagem da Vanity Fair como a causa do fim do romance ao oferecer aos jovens um sem-número de possíveis parceiros sexuais: ele é comparado ao ato de pedir comida on-line. (O app é inspirado no Grindr, voltado para a comunidade gay, que aperfeiçoou a cultura de encontros casuais muito antes.) Dois anos atrás, o New York Times lançou mão de argumento parecido usando o site OkCupid como exemplo.

Quem faz sexting transa melhor
Por outro lado, pesquisas mostram que o uso de tecnologia ajuda nos relacionamentos. Nos Estados Unidos, um terço dos casamentos, entre 2005 e 2012, começou com encontros on-line — e casais que se conheceram na internet são mais felizes, segundo estudo de 2013 da Universidade de Chicago. Já os casais que trocam mensagens eróticas, o sexting, segundo uma pesquisa da Universidade Drexel, na Filadélfia, publicada este ano, transam melhor.

Mas afinal: a tecnologia muda alguma coisa na nossa relação com o sexo? Para Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP, há uma transformação que foi ocorrendo desde o surgimento da internet, com as salas de bate-papo e vídeos compartilhados na rede. "Tudo isso começou a favorecer que, sem sair da própria casa, as pessoas pudessem ganhar um espaço sexual bastante maior", ela afirma. "As pessoas mudaram a forma como vivenciam não só a sexualidade, mas a intimidade e a privacidade. A sexualidade passou a ser muitas vezes compartilhada."

A psiquiatra acredita que a privacidade do sexo é a maior questão entre as mudanças que a tecnologia trouxe. "É uma ilusão quem imagina que vai conseguir ter privacidade tendo se permitido filmar, fotografar ou se declarado de forma indiscreta utilizando esses meios", afirma. "O sexo na intimidade não pode acontecer com o uso dessas ferramentas todas." O que não é um problema em si, diz Carmita: desde que seja feito de comum acordo entre as pessoas.

Intimidades frias
Fato é que o sexo parece nunca ter sido tão importante quanto agora. A socióloga israelense Eva Illouz afirma que, hoje, as relações sentimentais são definidas pelo interesse sexual: o sexo precede a ideia de amor, uma relação é entendida como boa ou não baseada na qualidade do sexo (nem sempre foi assim). Esse deslocamento no eixo amor-sexo ocorreu antes da internet, ao longo do século 20, quando, como Illouz conta no livro Why Love Hurts [Por que o amor machuca], de 2012, os relacionamentos amorosos e a revolução sexual começaram a ser cooptados pela sociedade de consumo.

Como diz Illouz, já havia nascido uma "experiência sexual separada e autônoma da vida emocional": separada da reprodução, do casamento, dos laços duradouros. Com ela, nasceram espaços sociais designados especificamente para criar encontros casuais: desde lugares físicos como bares e baladas até tecnologias de comunicação. "Quando não existia o recurso dos aplicativos, as pessoas iam para locais onde buscavam exatamente a mesma coisa, presencialmente, ou iam buscar através de telefones e cartas", afirma Abdo.

Para a socióloga Eva Illouz, uma relação sentimental, hoje, é entendida como boa ou não baseada na qualidade do sexo

Claro que, depois, a transformação do sexo em mercadoria encontrou terreno fértil nas mídias digitais. "Nenhuma tecnologia que eu conheça radicalizou de um jeito tão extremo a noção do eu como um ‘escolhedor’ e a ideia de que o encontro romântico deve ser o resultado da melhor escolha possível", Illouz escreve em outro livro, Cold Intimacies [Intimidades frias], de 2007, em que analisa sites de encontros da internet pré-smartphone. "O encontro virtual é literalmente organizado dentro da estrutura de mercado."

Nesses sites de encontros, com perfis detalhados, ainda existia a ideia de apresentar as pessoas como uma mistura de seus gostos e opiniões, descritos em questionários, e sua aparência. Os aplicativos mais modernos como o Tinder radicalizaram a ideia de uma "estrutura de mercado": focam nos aspectos físicos e substituem itens de interesse como características e gostos pessoais pela localização e proximidade entre os usuários.

Correios transgressores
A internet não é a primeira inovação na comunicação que mudou dinâmicas sexuais. As caixas postais, por exemplo, permitiram no século 19 que mulheres trocassem correspondência sem que a família lesse suas cartas, facilitando o nascente sexting epistolar. O telégrafo já possibilitava interações quase contemporâneas, como mostra o romance Wired Love, citado no início deste texto. Colocando a voz no centro do palco, o telefone foi a grande mídia de contato sexual do século passado, desde o flerte com telefonistas até o telessexo — e continua sendo importante ainda hoje. (Na revista americana Telephony, em 1905, pergunta-se: "As portas podem estar fechadas e um pretendente rejeitado mantido longe, mas como cuidar do telefone?".)

Nem a linguagem usada em aplicativos como o Tinder é completamente original. Um escritor chamado George Ellington (um pseudônimo, não se sabe quem ele foi) conta sobre um livro que ficava em uma papelaria de Nova York na segunda metade do século 19 e era usado por estranhos para trocar endereços de correspondência. Algumas mensagens que Ellington transcreve soam um tanto familiares. Blanche G., por exemplo, "uma garota muito bonita, 20 anos", diz que quer se corresponder apenas por "diversão e para matar uma curiosidade sobre quantos cavalheiros serão tolos o suficiente para responder a isso". Gustavus B. afirma que "é dançarino, patinador, nadador" mas avisa que "não é bonito nem gracioso". Diversão é a palavra mais recorrente.

Quantidade é quantidade
O que mudou, e muito, comparando as tecnologias de antes com as de agora, é a velocidade e a oferta. Segundo o psiquiatra Jairo Bouer, jovens que encontram muitas pessoas pelos aplicativos têm dificuldade de "abrir mão desse 'cardápio' de ofertas para focar em uma pessoa só". "E a questão é: será que a pessoa que eu escolhi também está fazendo o mesmo?", diz.

No mundo real, o mercado de possíveis parceiros é apenas pressuposto, virtual, enquanto no mundo virtual ele é real — os usuários podem realmente visualizar parceiros potenciais. Paga-se um preço: para Illouz, muito do encantamento que associamos com a experiência do amor é relacionado com "uma economia de escassez". "O espírito presidindo sobre a internet é de uma economia de abundância, em que o eu precisa escolher e maximizar as opções e é forçado a usar técnicas de custo-benefício e eficiência", escreve.

Essa oferta sem precedentes aumenta a quantidade de sexo? Segundo Bouer, os jovens começam a ter relações sexuais mais cedo e variam mais de parceiros ao longo da vida, "mas é difícil saber se isso é por causa da internet". "Não dá para atribuir uma relação direta. É uma geração que já era mais livre", diz. De acordo com dados da Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira, do Ministério da Saúde, o número de jovens entre 15 e 24 anos que dizem ter tido mais de dez parceiros sexuais na vida aumentou de 16,2% em 2004 para 21,9% em 2008. Na faixa etária logo acima, entre 25 e 34, passou de 19,8% para 28,5%. Os dados específicos da pesquisa mais recente, feita em 2011, ainda não foram divulgados, mas, a julgar pela estatística geral, de pessoas entre 15 e 64 anos, devem ter crescido mais ainda: 44% disseram ter tido mais de dez parceiros sexuais, contra 19% em 2004.

Mas o aumento, ou diminuição, não é homogêneo. Nos Estados Unidos, por exemplo, apesar do uso massivo das apps de sexo casual por uma parte dos jovens, uma pesquisa da San Diego State University mostrou que a geração Y, dos nascidos depois da década de 80, tem em média menos parceiros que as duas gerações anteriores. São oito, contra dez da geração X (nascidos depois de 1965) e 11 dos baby bommers (depois de 1945). Para Carmita Abdo, "se faz menos sexo presencial, mas muito mais vendo filmes, ou acessando sites, coisas que são mais solitárias". "O que a gente observa às vezes é a dificuldade de passar dessa situação de sexo masturbatório para o presencial", ela conta. "Trata-se de uma iniciação muito boa, desde que seja uma etapa."

Faça amor
A invasão do pornô no sexo real foi o que levou a inglesa Cindy Gallop a criar o projeto Make Love Not Porn (Faça amor não pornografia), pedindo mais sexo e menos pornô na internet. Não que Cindy não goste de filmes explícitos — ela gosta, mas acredita que esses conteúdos espalham comportamentos que nada têm a ver com o sexo, e gostaria de ensinar a diferença.

"Nós queremos mudar para melhor a forma como o mundo transa criando mais franqueza e honestidade em volta do sexo", Cindy diz. "Quando a pornografia pesada da internet se encontra com a relutância da sociedade em falar sobre sexo, essa colisão resulta em o pornô se tornando a própria educação sexual, não de um jeito bom."

A própria tecnologia deveria ser utilizada para falar sobre sexo (e tecnologia). "A internet podia estar servindo para multiplicar conhecimento, para resolver dúvidas e para sanar questões de preconceitos e tabus", diz Carmita. "Mas a gente não está oferecendo educação sexual. Tem um paradoxo entre o quanto uma pessoa bem jovem pode acessar esses aplicativos versus a falta de informação e de orientação que se dá nessa área."

Ninguém no Snapchat ou no Whatsapp quer falar sobre sexting. Eles não querem abraçar o impacto da tecnologia na nossa sexualidade

Ex-publicitária, Gallop quer criar uma plataforma de educação sexual com conteúdo colaborativo curado pelo Make Love Not Porn. "Hoje, ninguém que entre no campo da educação sexual ganha dinheiro. Eu quero mudar isso", diz. Cindy também lançou, há dois anos, um site de vídeos, makelovenotporn.tv, para "celebrar o sexo do mundo real".

"A próxima grande coisa na tecnologia é a disrupção do sexo", afirma. "Basicamente, para fazer isso, decidi pegar todas as dinâmicas que existem agora nas mídias sociais e aplicá-las ao sexo." Para Cindy, as principais mídias sociais ou restringem conteúdo sexual (como o Facebook e o Instagram) ou, aqueles em que sem querer isso se tornou popular, o ignoram. "Ninguém no Snapchat ou no WhatsApp quer falar sobre sexting, eles se recusam a aceitar isso", diz. "Não querem abraçar o impacto da tecnologia na nossa sexualidade." Ela, por outro lado, quer criar o que chama de "sexo social" — fazer o sexo tão socialmente aceito e compartilhável quanto todo o resto que compartilhamos hoje no Facebook, Tumblr, Twitter, Instagram e outras redes.

Uma coisa é certa: a tecnologia, de ontem e de hoje, é parte indissociável das relações humanas e continuaremos, na ficção e na vida, imaginando novas formas de juntar qualquer novidade tecnológica ao sexo – há até quem queira conectar os próprios corpos humanos a máquinas, transformando a pele em gadget. Por outro lado, da mesma forma como agora vemos reações contra a velocidade e o consumismo da vida moderna em outros campos da experiência humana – o movimento do slow food, por exemplo –, é possível que algo parecido seja pensado para a sexualidade e as relações amorosas.

Como será o sexo dos amantes do futuro? Como sempre, tudo exatamente igual; tudo absolutamente diferente.

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