A leitura dos jornais (e talvez a chuva) do fim de semana, além das inúmeras mensagens de menor relevância, deixou gravadas no meu winchester mental duas mensagens principais:
O piscinão de Ramos e o assassinato em Campinas da vítima de um seqüestro, fuzilada pelas costas e de joelhos.
O que talvez a maioria das pessoas não tenha percebido é a íntima relação entre os dois fatos.
Salvo falha de memória, foi da cabeça de Darcy Ribeiro que vi sair pela primeira vez a menção à relação inversamente proporcional entre lazer e criminalidade. Brizola (o proto-Garotinho) dizia que era preciso construir piscinas para melhorar o Brasil.
Qualquer estudo que se esboce sobre a criminalidade nos grandes centros urbanos, por mais banal que possa ser, vai rapidamente levar a cidadãos, para os quais a vida se apresenta tão desgraçada, que vale à pena colocá-la em risco, diante da mais remota possibilidade de mudar a situação.
Nos anos 80, fizemos uma matéria na ‘Trip’, até hoje lembrada por muita gente, com os chamados ‘surfistas de trem’, os cyber pingentes, que escalavam as capotas dos trens de subúrbio cariocas.
Na tentativa de explicar a razão pela qual os adolescentes arriscavam-se às mortes horríveis, eletrocutados por fios de alta tensão ou atirados em alta velocidade contra o solo, o repórter constatou rápido: diante da absoluta falta de perspectiva e de existências indesejadas, ou quando muito suportadas por pais, famílias, governos e concidadãos, aquela parecia a única forma para que aqueles fulanos retomassem contato com coisas que viam na televisão e nas propagandas, como lazer, adrenalina, esportes, reconhecimento social, atividades de grupo e assemelhados. A reportagem chegou, inclusive, a reproduzir uma prosaica carteirinha, ao lado do corpo agonizante de uma das vítimas, que teve o azar (ou a sorte) de cair do trem durante a realização da matéria. Na carteira, lia-se Associação dos Surfistas Ferroviários.
Por 400 mil reais
Grandes jornais publicaram em forma de números cientificamente apurados o que Mano Brown já disse em entrevistas e qualquer morador de periferia sabe: quanto menor o número de áreas de esportes, lazer e convívio social, maior a criminalidade na região. E vice-versa.
Independente dos objetivos eleitoreiros do piscinão de Ramos, é muito razoável supor que todos os excluídos das cenas maravilhosas de praias, mostradas pela mídia como paradigmas de uma existência bem sucedida, sintam-se menos marginalizados e, no caso dos que cogitavam arriscar o pescoço para trocar de vida, com algo a perder, é possível que passem a pensar duas vezes antes.
Com a Escola da Cidade, uma escola de arquitetura que acaba de nascer, com vontade de contribuir para mudar o país, desenvolvemos um projeto, que conseguirá entregar uma praça de esportes e convívio social, com área para idosos a pistas de street skate, passando por paredes de alpinismo e quadras de basquete e futebol, por cerca de 400 mil reais, o equivalente a uma casa média ou pequena num bairro nobre da cidade.
Só o apartamento do juiz Lalau, em Miami, seria suficiente para construir umas seis dessas…
Quantos seqüestros não seriam culpa do Lalau? E dos outros? Dá o que pensar…
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