O que fazer quando seu papai é o maior traficante e um dos maiores bilionários do mundo?

O que fazer quando seu papai é o maior traficante de drogas e um dos maiores bilionários do mundo? Duas décadas depois da morte de Pablo Escobar, seu filho Juan (ou Sebastian Marroquín, como se chama agora) encara sua história e assume o papel de “filho pacifista” que seu pai lhe deu.

E o que seu pai imaginava que aconteceria com o negócio da família no futuro? Sebastian Marroquín quase sorri antes de responder: “Imaginava que seríamos como os Kennedy”.

Ele se refere ao passado do clã norte-americano que, supostamente, fez muito dinheiro traficando álcool para os EUA em tempos de lei seca. E que, depois da legalização, seguiu como importador de destilados, entre outras atividades, até se tornar uma das maiores dinastias políticas do país. Para seu pai, a vida criminosa que levava deveria ser transitória. Um passo na construção da fortuna e do poder que não apenas tornaria seu sobrenome legítimo, mas influente e transformador dentro da sociedade colombiana – e do mundo. O que, de certa forma, o pai de Sebastian, Pablo Escobar, de fato foi.

Nos anos 1980 ele era bem mais do que um traficante de cocaína. Era uma espécie de celebridade fora da lei. Querido, visto como herói popular na região de Medellín, em plena atividade criminosa chegou a se eleger para o parlamento de seu país, em 1982. Tornou-se rico, podre de rico. Mesmo torrando fortunas com subornos em larga escala, um pequeno exército particular, um estilo de vida perdulário, lavagem de dinheiro e uma considerável atividade filantrópica, chegou a ser listado na Forbes como um dos 227 bilionários do mundo, em 1989. Foi o administrador de uma rede que não apenas fornecia 80% da cocaína consumida nos EUA, mas que ajudou a fazer do pó a droga que definiu a década. Por anos não precisou sequer se esconder. Representava, de cara limpa na rua, a impotência das leis e do Estado diante do dinheiro e do poder de intimidação do narcotráfico.

"É claro que eu reconheço esse homem do crime. Mas, dentro de casa, ele era meu papai”. Sebastian começa a falar de sua infância, quando ainda carregava seu nome de batismo – Juan Pablo Escobar. “Ele sempre foi muito carinhoso, nunca transpareceu para mim nenhuma violência. Era uma família normal...”, diz, para logo se corrigir. “É... nem tão normal.”

Sebastian, ou melhor, o pequeno Juan Pablo, passou os melhores anos como moleque na lendária Hacienda Napoles, a propriedade suntuosa que seu pai construiu. Devidamente segura por cercas e capangas, era dentro desses 20 quilômetros quadrados que a família vivia. São de lá as primeiras memórias de Sebastian. Pilotando carros infantis, passeando pelos jardins de plantas exóticas ou admirando os animais selvagens que formavam um zoológico particular dos Escobar.

E foi justamente na Hacienda que o garoto cresceu e começou a entender, devagar e sempre, que havia algo de errado no trabalho do pai. E que, devagar e sempre, o pequeno paraíso particular ia se tornando uma prisão. “Eu tinha uns 7 anos quando comecei a ver o nome do meu pai na TV. Diziam que ele tinha mandado matar Rodrigo Lara Bonilla, então ministro da Justiça da Colômbia.” Era 1984, e Pablo Escobar ainda viveria mais nove anos, veria seu negócio expandir e sua vida se transformar em um inferno. De deputado tornou-se um declarado inimigo do Estado e tema de campanha presidencial. Um candidato, Luis Carlos Galán, tinha como plataforma a limpeza da política no país. Justamente combatendo o narcotráfico e citando Pablo Escobar como alguém a ser banido, extraditado do país. Em 1989, Galán foi assassinado ao chegar a um comício.

Começa uma guerra entre o cartel de Medellín e o governo. Escobar ordena dezenas de atentados à bomba, assassinatos, sequestros. “É prata ou chumbo”, traduzindo: suborno ou bala. Era como definia sua abordagem com políticos, policiais e jornalistas. O país entra em paranoia, e a família Escobar também. Juan Pablo, o filho adolescente, antes de se tornar Sebastian, talvez seja a única voz contrária a seu pai com poder para desafiá-lo sem sofrer as consequências. “Perdi a conta de quantas vezes eu o confrontei. Dizendo que aquele caminho estava errado, que aquilo só poderia nos levar à morte...” Em 1991, quando Pablo Escobar se entregou às autoridades, escreveu uma carta pública em que afirmava que sua rendição tinha, em parte, a ver com os desejos de seu “filho pacifista”.

Mas a paz não durou quase nada. De dentro de uma cadeia luxuosa, que Escobar mesmo havia mandado construir, ele seguiu comandando suas operações. Até que, quando decidiram transferi-lo para um presídio comum, ele simplesmente fugiu.

“Foi quando eu entendi, na pele, que dinheiro não significa nada”, Sebastian con­ta hoje, “estávamos com milhões de dólares em maços de dinheiro em casa, mas não tínhamos o que comer, cercados pela polícia.” Viveu assim, fugindo, com a mãe e a irmã, quase sempre longe do pai, jurados de morte pelos cartéis rivais e cada vez mais detestados pela sociedade colombiana, até que uma grande operação militar, apoiada pelos EUA, abateu Pablo Escobar, que tentava reagir disparando de um telhado em Medellín. Era dia 2 de dezembro de 1993, o dia seguinte ao que completou 44 anos. Não conseguiu viver, mas morreu como um Kennedy.

Matar um a um
Poucas horas depois, em sua primeira declaração pública, por telefone, Juan Pablo Escobar, aos 16 anos, diz que iriar matar um por um dos responsáveis pela morte do pai. “Em dez minutos me arrependi do que havia dito. Eu sabia que esse ciclo de violência tinha que parar. Se eu quisesse vingar meu pai, as coisas só iriam piorar” lembra hoje, 13 anos depois. “A partir daí, nossa família só pensava em sair da Colômbia. Eu tinha certeza de que seria morto. Estava preparado para tomar um tiro ou ser vítima de uma bomba a qualquer momento.”

Por sorte, e não sem um grande trauma, a família conseguiu escapar e se instalou na Argentina. Todas as propriedades e contas bancárias dos Escobar foram confiscadas pelo governo. Para recomeçar, tiveram não apenas que trabalhar duro, mas mudar de nome. Foi quando Juan Pablo Escobar tornou-se Sebastian Marroquín. E viveu anos sem dividir com ninguém, absolutamente ninguém que conheceu em Buenos Aires, sua real biografia.

Estudou, se tornou arquiteto, professor na faculdade... até que o contador da família, por conta própria, descobre que os Marroquín escondiam um sobrenome infame. Foi quando, pensando estar livre de contravenções, Sebastian e sua mãe começam a ser chantageados. Ou pagavam ou seriam denunciados às autoridades argentinas por falsificação de documentos. Não cederam. E o contador picareta cumpriu a promessa. Sebastian e sua mãe chegaram a ser encarcerados em Buenos Aires, mas logo liberados. “Entenderam que não havíamos feito nada errado. Fomos completamente absolvidos. Mas daquele dia em diante não tínhamos mais como nos esconder.”

A primeira reação foi medo, naturalmente. E, medo de que agora expostos, a sentença de morte expedida pelos inimigos de seu pai fosse executada. A segunda foi certo alívio. A sensação de que poderiam voltar a falar sobre isso. E muita gente tentou que falassem. Foram anos, e umas 50 propostas de documentaristas, até que Sebastian decidisse contar sua versão. “Eram diretores que queriam glamorizar ou demonizar a história de meu pai. O primeiro que realmente me procurou com uma ideia interessante foi o Nicolás.”

Amizade pós-morte
Nicolás Entel é o diretor de Pecados do meu pai, filme de 2009 em que Sebastian narra sua história. E, muito mais do que isso, vai a público fazer uma análise do mundo e do legado de seu pai em uma tentativa real de reconciliação com seu passado. E – mais importante – de reconciliação com seu país e com as pessoas que sofreram o horror imposto por seu pai e o cartel de Medellín.

“Eu queria ajudar a colocar um fim no ciclo infinito de vingança que a Colômbia passa há tanto tempo. E pedir perdão às pessoas que meu pai fez sofrer.”

Enquanto o filme era feito, Sebastian decidiu enviar uma carta aos filhos das vítimas mais emblemáticas de Pablo Escobar: o ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla e o candidato à presidência Luis Carlos Galán. Nela, Sebastian não apenas reconhece os crimes de seu pai, mas oferece sua amizade. “Quis que eles entendessem que eu também não tenho pai. E que ser filho de alguém não me faz cúmplice.” O documentário culmina com a volta de Sebastian à Colômbia, pela primeira vez desde sua fuga, para encontrar um filho de Bonilla e três de Galán.

A cena é tensa, inevitavelmente, e forte em significado. “Prova que o ódio pode ser contido e a paz, alcançada, com uma mudança simples de atitude. Com o reconhecimento de que nos tornamos todos vítimas”, Marroquín filosofa. Hoje, muito mais tranquilo com seu passado, vive com a esposa, grávida de quatro meses de seu primeiro filho, em um apartamento agradável no ainda mais agradável bairro de Palermo, em Buenos Aires. Cercado de livros, fotos de família (algumas de seu pai em porta-retratos), ele começa a desembalar camisetas, sua mais nova empreitada mezzo comercial, mezzo ativista. Escobar Henao. Uma grife que, dessa vez, não esconde sobrenome algum. Escobar do pai, Henao da mãe.

“Há um ano realmente começamos a trabalhar e montar a empresa. A ideia é mostrar aos jovens a história familiar que tive e, através de imagens e mensagens, fazê-los refletir. Que não repitam isso.” As camisetas têm estampadas fotos raras e documentos de Pablo Escobar. E frases como “Seu status é fruto de uma mentira?”, sobre sua carteira de congressista. Ou “O que o teu futuro te reserva?”, sobre seu documento de estudante. Sebastian explica:

“Não fazemos apologia, mas uma reflexão autocrítica da história de meu pai para que tudo aquilo não se repita, que ninguém ache que esse caminho pode trazer felicidade, poder de verdade...”

Parte do lucro é destinada a projetos educacionais na Colômbia. Mas as roupas mesmo não são vendidas por lá. “Uma forma de respeito com as pessoas que ainda sofrem muito com a memória do meu pai. Mas estamos trabalhando para mudar isso”, conta.

Não só o trauma colombiano ele está tentando mudar. Após o filme e sua recente notoriedade, Sebastian acabou rodando o mundo e entendendo, cada vez mais, que essa sonhada pacificação entre a sociedade e o narcotráfico passa por algo bem mais profundo do que cartas ou pedidos de desculpas.

“Tem que haver a legalização, é o único jeito."

Meu pai foi um gênio empreendedor que, infelizmente, viu na proibição das drogas uma forma de enriquecer rápido... é como essa pizza aqui”, diz, enquanto segura uma fatia de marguerita e faz piada com seu peso, “se você proíbe pizza, em pouco tempo pessoas vão achar um jeito de lucrar com isso. Vão cobrar mais caro, vão fazer uma pizza de pior qualidade, vão subornar policiais e vão disputar na bala quem vai controlar a entrega de pizzas clandestinas.” E termina seu pedaço antes de continuar.

“Essa violência não foi uma invenção de Pablo Escobar. Ele era famoso, virou um símbolo, mas hoje os chefes aprenderam a ser discretos. Eu me pergunto: quantos deputados hoje no meu país, no seu país, o Brasil, estão envolvidos com tráfico e corrupção?”

A pergunta é mais que retórica... “Enquanto houver demanda, sempre haverá oferta. Precisamos, urgentemente, reconciliar as pessoas com o fato de que os seres humanos sempre buscam alguma droga. É o único jeito de acabar com os cartéis.” E, para essa missão, Sebastian não está sozinho. Seu contato com os filhos de Galán e Bonilla também os colocou juntos no mesmo barco antiproibicionista. Os descendentes de inimigos mortais se entendendo. E entendendo que para acabar com a matança é preciso acabar com a guerra. A guerra às drogas, no caso. A mais nova causa do filho pacifista de Pablo Escobar.

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