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SEM CPI

Acomodado em poltronas chiquérrimas, o povo faz cara de tédio, como se tudo aquilo fosse o mais corriqueiro dos atos cotidianos

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Já saltei de pára-quedas, peguei ondas de bom tamanho no Havaí, pulei de um bungee-jump de 150 metros na Nova Zelândia, vivi o plano Collor e comi coxinha de padaria no centro de Ilhéus. Acho, porém, que nunca vi tanta adrenalina bombando como num leilão de arte da Christie´s.

Fui há uns seis meses – como curioso, é óbvio – assistir a um dos principais leilões na sede nova-iorquina da famosíssima casa que disputa com a Sotheby´s o título de mais importante do mundo. A loucurinha começa na entrada. Fica muito claro de onde Agatha Christie tirava inspiração para seus tipos – e até de onde saíram os personagens do jogo Detetive, com seus Mr. Black, Dona Violeta e Coronel Mostarda. Figuraças navegando entre Mortícia Adams e Larry (dos Três Patetas), vestidos como misturas de alegorias de escolas de samba e trajes de Pee Wee Herman, ignoravam-se com solenidade uns aos outros, num salão (ou ‘lounge’, para quem preferir) em que estavam expostos, com o mesmo despojamento com que se exibe uma pintura de preto-velho na praça da República, peças de Rothko, Monet, Picasso, Gauguin e outros deuses. O grande ambiente onde se dão os leilões é imponente de verdade – quase uma corte marcial. Um grande balcão, com outros dois menores de ambos os lados, com funcionários da casa impecavelmente vestidos, cada qual com seu telefone colado à orelha. Acomodado em poltronas chiquérrimas, o povo faz cara de tédio, como se tudo aquilo fosse o mais corriqueiro dos atos cotidianos.

Caviar com Nervo

Aberto oficialmente o pregão, uma a uma são trazidas as telas; os trabalhos tridimensionais são ao mesmo tempo exibidos aos olhos nus e mostrados em telões de alta definição, colocados no alto das paredes, de modo que qualquer um, por menos privilegiada que seja sua poltrona, não perca sequer um detalhe das peças. É aí que começa a jorrar a adrenalina. Dos telefoninhos pretos nas mãos dos operadores e operadoras de Armani brotam lances que podem vir de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, ou de um prédio ali perto no bairro TriBeCa, ou, o que é mais excitante, de uma das salas privées, dispostas como camarotes no alto, rodeando o salão. De lá, protegidos por persianas que não permitem a quem está no salão ver seus rostos, poderosos donos do capital e amantes das artes – ou, no mínimo, do lucro que um lance bem dado pode produzir instantaneamente – sorvem nervosamente goles de champanhe oferecido sem miséria pela casa, mastigam blinis forrados de caviar, e, com um olho no catálogo e outro na Suíça, decidem – sem pedir ajuda aos universitários – se determinada obra de Monet vale ou não os sete milhões de dólares que talvez o ocupante da sala ao lado tenha acabado de ‘mandar’. Impressiona também a forma como centenas de milhares de dólares se alternam de mãos, em lances diferentes. Vi um comprador (coisa rara, já que a maioria manda emissários) arrematar uma peça de sete milhões de dólares como quem compra o jornal na esquina e deixa o troco com o homem da banca. Em cerca de uma hora, debaixo do meu nariz mais de duas centenas de milhões de dólares passaram, com objetividade, sem percalços ou gritarias.

Nada que não aconteça no Brasil quase diariamente – mas, no caso do leilão, até onde se sabe, não costuma haver CPIs uns meses depois, para apurar quem roubou quem.

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