Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Leio em Veja desta semana, entre escândalos e denúncias, que a coluna publicada por Diogo Mainardi em 9 de maio último está entre os 15 textos que mais repercutiram junto aos leitores da revista, nos mais de 34 anos da publicação, incluídos aí, diga-se, todos os escândalos e denúncias, que não deixaram a desejar em quantidade e gravidade nesse período.
É de fato um relato que merece ser lido e faz jus a toda a repercussão. Em vez de opinar sobre o texto, acho mais útil prestar um serviço e tomar duas atitudes: primeiro recomendar sua leitura no site da revista. O título é Meu pequeno Búlgaro e o endereço é simples, www.veja.com.br.
Em segundo lugar, transcrevo a carta que recebi de Ricardo Guimarães, que por mérito e por aclamação dos leitores, tornou-se habitué deste espaço:
Caro Paulo,
Li a coluna do Diogo Mainardi na Veja, como você e o Luna recomendaram. Emocionante. Fiquei muito tocado principalmente porque tenho um carinho especial por ele e porque nunca me identifiquei com seu olhar pouco generoso com a vida. Para quem não leu, explico: Diogo fala do impacto que a paralisia cerebral de seu filho está tendo em sua vida e na sua maneira de ver o mundo.
Fiquei curioso para saber a continuação da mudança de Diogo e li sua coluna da semana seguinte. Surpresa: ele parece inseguro, meio que se desculpa e se questiona ‘se é correto tornar público um assunto privado’ como a doença de seu filho. Ele acha que ‘provavelmente não’ e conclui que ‘às vezes não existe jeito correto de agir’.
Não entendi sua conclusão. Talvez não seja mesmo para entender, porque a primeira coluna foi escrita com coração, amor e esperança, e a seguinte com razão, talento e inteligência. Na verdade, me recuso a entender. Estou com medo do talento e da inteligência do Diogo tomarem o poder e afastarem de nós aquele pai apaixonado que escreveu a primeira coluna. Fiquei triste de vir a perder a cumplicidade daquele Diogo brilhante e apaixonado entrando em contato com a condição humana que só nos faz sofrer porque somos arrogantes e soberbos.
Paixão versus inteligência
Tudo tem um sentido. Se a gente não saca, vamos viver tudo de novo. Não de sacanagem. Mas como mais uma chance de sacar o sentido que não percebeu. Se viver não é entender a vida, estou fora, porque a condição humana sem um propósito é insuportável. Recortei a coluna apaixonada para copiar e distribuir. E joguei fora a coluna inteligente.
A confissão de Diogo é bela: ‘Na maioria das vezes, (a paralisia cerebral) acarreta algum tipo de deficiência física, fazendo com que a criança seja marginalizada, estigmatizada. Eu sempre pertenci a maiorias. Pela primeira vez, faço parte de uma minoria. É uma mudança e tanto. Como membro da maioria, eu podia me vangloriar de meu suposto individualismo. Agora, a brincadeira acabou. Assim que soube da paralisia cerebral de meu filho procurei o apoio da comunidade entrando em tudo que é fórum de Internet para ouvir o que outros pais em minha condição tinham a dizer.’
Diogo está experimentando um tipo de compaixão – o apaixonar-se junto -, o entregar-se à dor da condição do outro que é igual a sua. Ele se comporta como um convertido – que é aquele que verte junto com o outro na mesma direção -, contrário do invertido, que é aquele verte para si mesmo. Bem-vindo à grande minoria da raça humana.
A comédia da vida pública
O resgate da fé do São Diogo no final do texto é épico: ‘Considero-me um escritor cômico. Nada mais cômico, para mim, do que uma esperança frustrada. Esperança frustrada no progresso social, na força do amor, nas descobertas da ciência. Sempre trabalhei com essa ótica anti-iluminista. Agora cultivo a patética esperança iluminista de que nos próximos anos a ciência invente algum remédio capaz de facilitar a vida de meu filho. E, se não inventar, paciência, passei a acreditar na força do amor…’
Para mim, chega. Está escrito, registrado e celebrado: o pequeno Mainardi já está operando grandes transformações, como por exemplo derrubar as fronteiras entre o público e o privado, entre o certo e o errado. Se os escritos do papai Diogo perderem em comédia, vão ganhar em graça. Que assim seja! Amém.
Paulo, obrigado pelo toque para ler o Diogo. Diogo, fiquei freguês. Meu carinho e minhas orações para você e o pequeno Mainardi.
Ricardo
E.T.: Peço que o Diogo me desculpe se não fui justo na edição dos melhores trechos da coluna.
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