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Se eu fosse escritor

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Se eu fosse um escritor e quisesse escrever sobre o ser humano, provavelmente me sentiria mal com a missão. Por que como falar do homem sem pensar que é de mim que falaria? De quem mais poderia falar? Sinto-me inábil. Até envergonhado por me julgar tão desprovido de saber.

Vejo o homem como um ser infeliz. Há tanto em seu coração… Um mundo inteiro e novo em sua imaginação. É tão esperançoso o homem, que faz dó. Uma doce infelicidade. Névoa fina do fim das madrugadas, quase palpável, o permeia. E é belo em sua tristeza. Cria a melancolia, o sofrer para dentro, um sorriso infantil e confiante para o mundo de fora.

Há tanta beleza, tanta dignidade em ser triste… É quando existimos cada átimo de segundo de nossas vidas. Sentimos cada pulsar do coração, mesmo se desejamos morrer. Vivos para nós, seres pensantes, filósofos. E essa é toda a dignidade da existência. O pensamento, a reflexão, de onde emerge a invenção.

Tristeza não tem a ver com pessimismo. É somente a constatação de uma frustração, de um querer mais do que existe. Espaço impossível de ser preenchido. Mesmo assim, vivendo para preenchê-lo. Parece que vivemos à sombra de uma porta, querendo entrar mas sem saber como.

Mas o que faria eu, caso fosse um escritor, com a infinita variedade humana? Como não sou, eu conversaria. Namoraria cada um deles. Amaria quantos me permitissem amá-los. O que mais poderia fazer? O que mais se pode fazer por um ser humano, senão amá-lo? Odiá-lo? Mas essa é apenas uma forma de amor invertido. Para que mais pode valer nossa vida, senão para amar? Se bem que amamos e odiamos, queiramos ou não, em nossa relatividade.

Depois, o que fica do homem, quando ele morre? Nada. A não ser afetos e ódios conquistados. Todos podemos lembrar com carinho, ou raiva, pessoas amadas, ou odiadas, que se foram. Que mais podemos ter dos outros? Ou mesmo que importância tem o resto se estão mortos? O que, exatamente, tem mais valor real que os sentimentos que nutrimos? Dinheiro, poder, coisas? Tudo isso é finito e está no tempo e no espaço. Somente o ser é infinito, e infinitamente complexo.

E esses animais inquietos, selvagens, que trazemos dentro de nossa cabeça? Nosso pensamento, esse infinito comedor de galáxias e pontas de estrelas. Esse microscópio, íntimo a prótons, nêutrons e elétrons. O que dizer dele? Somos o que pensamos ou pensamos e aí fazemos o que somos? Não, eu sempre fugiria das polêmicas. De pouco adiantam.

Mesmo fosse eu um escritor, escrever sobre o homem seria vasto demais. Se fôssemos factíveis de sermos compreendidos, acho só o seríamos por alguém melhor que nós. Só o maior pode abarcar o menor. Viver minha vida já é uma empresa tão grandiosa e difícil, que muitas vezes me admiro como consigo. Já pensou, então, falar de outras vidas?

De qualquer modo, acho, só posso dizer sobre a melancolia humana. Essa conheço bem. Velha companheira de meus piores dias. Mas também posso falar que a vida do homem é prisão. O que o homem foge, como o diabo da cruz, de sua libertação.

Alguns acham uma saída e tem a coragem de por ali se precipitarem. Raramente dá certo. Quando dá, já não é mais tão humano. Viram santos, heróis. Algo além da condição humana que, rompida, não pode mais ser reconstruída. Geralmente esses são mortos, e das formas mais bárbaras possíveis.

O mundo social é apenas lógico. Não verdadeiro. Tudo, incluindo seres humanos. O que não se enquadrar nessa lógica, é cercado, isolado, e geralmente eliminado. Isso porque a lógica desconhece qual é a finalidade da vida humana. Aliás, para ser bem sincero, nem sei quem sabe. Eu mesmo tenho apenas vagas noções. Tão vagas que nem sempre me sustenta. Minhas depressões provam isso.

Reich sustenta que o homem nasce livre, mas é com escravo que ele passa a vida. Escravo de quê? Do quê? De quem? A razão, força poderosa em que se sustentava, provou-se opressora. O homem, inábil na arte de governar sua própria vida, fez nascer o estado de domínio total e a religião das verdades absolutas. A pessoa humana, com suas técnicas de venda, seus conceitos de que deve ser bom ou ruim e outras mentiras, se aprisionam através de sua razão.

Ao homem é perigoso caminhar porque não poderá mais parar. É cumulativo, sedimentar, são as experiências vividas que o remetem a novos aprendizados. Somos a passagem e os que passam.

Vivemos em permanente choque com os valores eleitos socialmente. Geramos a hipocrisia, que vai promover a degradação social. Queremos ser morais e somos apenas ambíguos. O que temos como racional não é mais aquilo que concorda com princípios universais de verdade. E sim, e tão-somente, o que concorda com regras e padrões reconhecidos. O homem busca ajustar-se a algo que lhe é dado como certo. Chama isso racional.

Olhamos com extrema desconfiança para a política e entidades representativas. Provaram-se corruptas e corruptoras. Então voltamo-nos para as relações pessoais. Ao intimismo e ao individualismo, em detrimento ao público, ao social e ao coletivo. Vivemos mergulhados no universo da mídia. Imagem e moda. Publicidade e manipulação do desejo.

Criamos uma ética de interesses e utilidades particulares. Nossa produção cultural é totalmente dirigida para interesses que não são o de todos. Apenas daqueles que dominam. O social e o político, a lei e o saber tornaram-se uma coisa só. Unidimensionando, tornando a relação social entre pessoas, relação entre coisas.

Se eu fosse escrever sobre o homem…


      

 

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