SACO NA MÃO
Nunca tive nada especialmente contra segundas-feiras. Ouço de muita gente, toda espécie de impropérios contra este solitário dia da semana
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Nunca tive nada especialmente contra segundas-feiras. Ouço de muita gente, toda espécie de impropérios contra este solitário dia da semana. Em geral, acho que é coisa de quem desgraçadamente ainda tem trabalho e prazer como dois conceitos antagônicos. Cabe-me apenas lamentar e desejar melhor sorte, ou, mais ainda, que vá dormir cedo hoje, acorde amanhã, chute tudo para longe e comece outra vida em que a vocação, o destino e a satisfação de seu espírito, sejam os parâmetros do que se chama sucesso.
Isto posto, e feitas as ressalvas, sou obrigado a concordar que há algumas tarefas reservadas às segundas-feiras, que devem contribuir de forma decisiva para as estatísticas que registram enfartes e outros acidentes orgânicos em maior incidência nas segundas.
SEGUNDA SEM LEI
A maior delas, possivelmente, é a devolução de fitas na locadora. Não sou propriamente um fã de vídeos nem consumidor contumaz de cinema em casa, mas nos meses de verão, nos quais ir às praias de São Paulo é sinônimo de abrir mão da dignidade, vez por outra lanço mão deste recurso. Não há nada pior do que iniciar a semana com um saquinho plástico na mão e a dura sentença de ter de ir à locadora, devolver suas parcas horas de prazer e ainda desembolsar a verba do aluguel. Uma derrota absoluta.
Na verdade, há algo pior sim. Devolver as fitas na segunda, pagar a conta, sem ter tido tempo de assisti-las.
Foi o que me ocorreu ontem. Não pude ver as fitas locadas por uma boa causa. Preferi programas reais aos virtuais. Assim, vamos pela ordem. Sábado à tarde, Santos e Flamengo no Pacaembu. Futebol miúdo, não torço para nenhum dos dois, mesmo assim, um espetáculo absoluto, com o sol de fim de tarde fazendo as cores rasgarem a retina. Coisa de fazer agradecer a Deus o dom da visão. O Estádio do Pacaembu tem uma arquitetura incrível.
Domingo: talvez influenciado pelas linhas do estádio, fui à Bienal de Arquitetura no Ibirapuera. Pode haver quem tenha esta ou aquela restrição, mas não há como não receber uma cachoeira de informação visual da melhor qualidade. Mobiliário, desenhos, maquetes, um show de idéias, leveza, formas e espaços chegando num acordo. A montagem de André Vainer é primorosa. Acaba domingo que vem. Tem de ir. Fecha às 22 h.
Morumbi Fashion: não vi tudo nem li muito, mas é necessário dizer que por mais intenso que seja o rodízio de príncipes, não há quem abale o reinado de Tufi Duek na moda brasileira. Focado, procurando sempre valorizar o que está próximo, investindo com mentalidade de longo prazo, Duek conseguiu colocar sua cadeira dois lances acima do que vem depois. Por falar em príncipes, Marcelo Sommer e Renata S. da Fit são Grimaldis de primeira linhagem e acumulam ano após ano tijolos bem assentados numa obra consistente.
Voltando às locadoras (no meu tempo chamavam de vídeo clubes), fica a sugestão: que tal lançar promoções como ‘Segunda sem lei’, liberando de pagamento quem jurar que não assistiu às fitas locadas?
PENSE RÁPIDO
Talvez esta não seja a melhor idéia, mas é bom que elas pensem em algo, pois com a internet no galope que vai, ir até a locadora pode ser em breve algo tão ultrapassado quanto uma fita do National Kid.
O fenômeno IG dá uma dimensão do ritmo em que marcha a rede. Só duas semanas e mais de 400 mil clientes. Em que pese a competência dos profissionais envolvidos, fica claro que neste milênio, dinheiro e até a própria tecnologia estão cada vez mais baratos, e idéias cada vez mais valorizadas.
Em tempo, se você insiste em ir até a locadora, tente ‘AMERICAN HISTORY X’ ou ‘UNZIPPED’. Vale a pena até encarar a devolução na segunda.
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