Ronaldo Lemos: 'Síndrome do 'eu vi primeiro''

por Ronaldo Lemos
Trip #226

Em tempos de mídias sociais, é difícil discutir qualquer assunto em profundidade

Não precisa procurar muito. Com as mídias ficando cada vez mais “sociais”, todo mundo vira ao mesmo tempo consumidor e disseminador de informações. Junto com isso cresce também o fenômeno da síndrome do “eu vi primeiro”. Quando alguém compartilha alguma notícia ou levanta uma discussão e outro responde na hora: “Eu já tinha postado sobre isso há duas semanas”. Ou ainda: “Já tinha visto isso há meses”.

Em geral, a manifestação acaba aí. Quem joga a carta do “eu vi primeiro” não está muito interessado em discutir o tema levantado. Quer apenas marcar território, dizendo que chegou primeiro naquele assunto. De quebra, chama implicitamente quem postou sobre o tema de retardatário (retardado?), como se todos os tópicos tivessem de ser discutidos apenas no momento em que são lançados. Fica formada a patrulha permanente contra quem chegou depois: qualquer conversa fica “velha” aos olhos de quem fez “check-in” primeiro no tema. É como se a esfera pública virasse uma espécie de Foursquare, onde disputas para ver quem chegou primeiro a um lugar são frequentes.

A síndrome do “eu vi primeiro” não é nova. Sempre esteve presente, por exemplo, entre grupos sociais que acompanham vanguardas, assuntos de nicho e mesmo no território acadêmico. O que as mídias sociais fizeram foi democratizá-la: existe hoje uma armada crescente de “primeiristas” circulando pela rede.

Isso dá o que pensar. Esse tipo de comportamento expressa a ansiedade da era em que vivemos, em que o tempo comprime-se. Mais do que isso, onde os acontecimentos se multiplicam. Basta 1 minuto para que sucessivas camadas de eventos se passem: um e-mail chega em nossa caixa de mensagens, alguém manda um convite na rede social, um escândalo é anunciado e assim vai. Com tanta coisa, algo que alguém descobriu há dois meses provavelmente continua a ser novidade para milhões de pessoas mesmo anos depois.

Chato pra caralho

Neste mundo de tempo achatado e multiplicado é difícil discutir qualquer coisa em profundidade. O importante torna-se apenas passar recibo: “Já vi isso, já vi aquilo”. Quando as discussões acontecem, tendem a ser mais uma guerra de memes do que uma conversa. Alguém expressa uma ideia forte, que é replicada automaticamente (ou rejeitada da mesma forma) por pessoas que só leram o título do post, sem entender exatamente o que se passa.

É nesse habitat que os “primeiristas” prosperam. Quem quer discutir algo que já passou (o que é já passar? Dois dias? Dois meses?) fica com a falsa impressão de que tudo já foi dito sobre aquele tema e que ele não pertence mais ao domínio do presente. Não me surpreenderia se, quando este artigo for publicado, alguém diga: “Já escrevi sobre isso antes”. Com o perdão do meu francês, se você faz isso, saiba que você é chato pra caralho.

*Ronaldo Lemos,  37, é diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e fundador do site www.overmundo.com.br. Seu Twitter é @lemos_ronaldo
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