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Romário e Felipão: quem é malandro?

O técnico deu sua resposta, junto com a taça

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Como quase toda a população do país, passei o domingo sorvendo o mel da vitória. O gosto doce que nos foi proporcionado desde cedo, se acentuava a cada replay, a cada buzina, a cada sinal de positivo trocado entre mauricinhos e porteiros de prédios, numa espécie de trégua no apartheid paulistano. Vi uma perua da polícia civil, patrulhando as ruas da cidade e ao mesmo tempo se integrando à festa, modulando o som da sirene da viatura de modo a reproduzir uma espécie de canto entre melancólico e eufórico, a sair de uma Ranger vermelha e preta.
Cenas incomuns, numa cidade carrancuda e competitiva por definição.
Uma das formas de saborear a vitória é, sem dúvida, mergulhar numa overdose de cobertura, agarrando com olhos e ouvidos, tudo o que contenha a mais remota referência à campanha brasileira. Apesar do monopólio da Globo, outras emissoras de tevê e rádio, além dos jornais, sites e revistas, se esforçaram para esmiuçar o assunto de todos os ângulos possíveis.

Outsiders da Copa
Paradoxalmente porém, ao menos até agora, vi pouco ou quase nada ser dito pelos outsiders dessa Copa. Não vi uma linha sequer, sobre a visão de Rogério Ceni. Depois de mais de 45 dias treinando e vivendo com o grupo, certamente, o goleiro, notório pelas posições marcadas que costuma assumir, teria muito a dizer. O que sentiu Vampeta, diante de uma chance mal aproveitada , que o levou ao esquecimento e ao frio do banco de reservas. E Dida? O que passa pela cabeça desse atleta? Por que ele é tão introvertido?
Quem é o assessor de imprensa que parece desempenhar papel tão importante na vida de Ronaldinho e, que pela proximidade com os jogadores e com a própria comissão técnica, sugere ser figura digna do interesse jornalístico. Será que há alguém no mundo com um ângulo de visão da seleção mais privilegiado?
Por hora, essas perguntas ficam sem resposta. Nada que não possa ser resolvido ao longo dessas semanas de rescaldo do assunto.

Não premiar a malandragem
Deixar de lado esses temas contudo, é bem mais compreensível do que a constatação de que quase não se falou de Romário nesses últimos dias de cobertura direto do Japão. Não me refiro a humilhar o jogador, repetindo as cenas patéticas de seu choro na entrevista coletiva, mas uma análise mais séria sobre em que medida teria contribuído para o resultado alcançado, o fato de Felipão ter usado outro critério de premiação. Refiro-me à idéia de não premiar a malandragem protegida pelo enorme talento inato. Eram de fato difíceis de compreender as cenas de Romário chegando no final dos treinos e fazendo algo denominado de ‘treino recreativo’, uma espécie de enganação para que pudesse continuar entrando apenas na hora dos jogos , ‘para decidir’. Por mais que pudessem produzir gols, havia algo de desconfortável naquela postura diante da vida e de todos os outros.
Felipão não deixou de reconhecer e até de bancar os megatalentos brasileiros (garantiu presença no time e segurança a Rivaldo, convocou e acreditou em Ronaldo antes de sua recuperação, apostou com tudo em Ronaldinho), mas o fez de modo que prevalecesse a premiação à dedicação ao trabalho, desses e dos outros atletas. Um objetivo coletivo. Não havia um talento divino ao qual todo o país devesse se curvar, e de quem tivéssemos de suportar toda e qualquer atitude desrespeitosa, em função de suas prerrogativas de divindade. Felipão deu uma demonstração de que o Brasil não precisa mais viver de talentos isolados, de bençãos divinas que protegem a vagabundagem e a ignorância de uma suposta ginga malandra, que, enganando, acaba se dando bem. Mais do que isso, procurou mostrar que agora, ainda que se queira, essa suposta malandragem não basta mais, e que temos condições de vencer por técnica, estudo, teoria, fisioterapia, método, disciplina e trabalho árduo.
Tudo isso, aliado a um estilo mais criativo que nos é natural, é que vai fazer a diferença. Essa é a lição, que talvez de forma inconsciente, Felipão tenha entregue ao país ( e ao próprio Romário), junto com a taça.

O rei Roberto Carlos
Quem parece ter percebido inteligentemente todo esse processo de mudança a tempo foi Roberto Carlos. Antes um talento ofuscado por uma cabeça oscilante e um ego mais volumoso que a musculatura das próprias coxas, parece ter ganho ao longo desses últimos quatro anos, tudo o que a maturidade traz de bom, sem perder o que a juventude entrega ao atleta. Foi, na minha modesta opinião, um dos protagonistas desse time, errando pouco, apoiando muito, jogando firme e decididamente para o grupo. Roberto, que era anteriormente apenas um abençoado pelo dom e pela genética, tornou-se agora um verdadeiro mestre.

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