por J.R.Duran
Trip #214

J.R. Duran: as ruas do Córrego Verde e a revolução ambiental em São Paulo

Decidiu-se respeitar o curso do Córrego Verde e transformar em parque as ruas por onde ele passa. Não é muito, mas em uma cidade como São Paulo é uma atitude quase revolucionária

Parece que um rio venceu a cidade. Na verdade não é um rio, é um córrego, se chama Córrego Verde e fica em São Paulo, na região da Vila Madalena. Na esquina da rua Cipriano Jucá (poeta e nome de uma comenda da Academia Maceioense de Letras) com a rua Medeiros de Albuquerque (jornalista, professor, político, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo e ensaísta brasileiro), os buracos provocados pela corrente de água do córrego, que tinha sido canalizado e destinado a escorrer por baixo do asfalto, sempre foram uma constante na vida do bairro.

Praticamente uma vez por mês a prefeitura tinha de mandar caminhões, máquinas e homens para preencher um espaço aberto no meio da rua que nunca conseguia ficar tampado por muito tempo. A próxima chuva forte se encarregava de abri-lo de novo. Consequência dos feitos que Pascal e Pauli já descobriram e anunciaram, mas que (talvez por isso ter acontecido há muito tempo) os habitantes pensantes da cidade se esforçam em ignorar. A teoria de Blaise Pascal (1623-1662) diz que “a pressão produzida num fluido em equilíbrio transmite-se integralmente a todos os pontos do líquido e às paredes do recipiente”. A de Wolfgang Ernst Pauli (1900-1958) diz que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”.

Se você der um “cipriano jucá” no Google Imagens, vai conseguir contemplar, sem necessidade de ter estudado física, o significado da expressão popular “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” quando transportada para a selva de pedra. O buraco muda de tamanho – até um carro já afundou nele –, mas está sempre no mesmo lugar. A lógica da cidade era encher de terra e concreto cada abertura provocada pela erosão das águas. Uma lógica que era derrubada pelas primeiras chuvas com a mesma facilidade com que uma onda do mar derruba o castelo de areia de uma criança.

Questão de bom senso
Confesso que não sou ecologista. Nem de carteirinha nem de nada. Tenho apenas credenciais de bom senso e os olhos bem abertos. Acontece que passo pela rua Cipriano Jucá praticamente um dia sim e outro também, já faz muitos anos. Ela forma parte de uma rede de vielas e outras ruas estreitas que, em dias de chuva forte, ficam entupidas de carros empilhados que as águas carregam, para surpresa de quem os deixou estacionados no lugar errado.

Nesta altura dos acontecimentos, leio nos jornais que se decidiu, então, respeitar o curso do rio e fazer com que as ruas por onde ele passa se transformem em um parque. Será o Parque do Córrego Verde. Mais de 65 mil metros quadrados em forma de parque linear. Isso quer dizer que o contorno do espaço vai seguir o trajeto do córrego. Não é muito, mas em uma cidade como São Paulo, em que córregos são sepultados e enterrados vivos e rios são encaixotados (Prestes Maia, prefeito de 1938 a 1945 e de 1961 a 1965, aprisionou e redesenhou o trajeto de todos os rios que recortavam a capital paulista: Tietê, Pinheiros e Tamanduateí), essa é uma atitude quase revolucionária. Eu diria até que, em se tratando dessas questões, é muito mais revolucionária do que o descobrimento da pólvora.

*J. R. Duran, 59, é fotógrafo e escritor. Seu Twitter é @jotaerreduran

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